por Kennyo Ismail | maio 27, 2011 | Rito Escocês
Observe bem esses dois painéis e diga: qual deles é o painel de Aprendiz Maçom do REAA?
Se você for procurar em algum Ritual que tenha sido baseado no editado por Mário Behring em 1928, não se assuste. Você poderá se deparar com AMBOS os Painéis no MESMO Ritual. Isso mesmo: procure nas primeiras páginas do Ritual e você verá o 1° Painel, provavelmente com o título “Loja de Aprendiz”. Agora procure mais próximo ao final do Ritual, antes das Instruções. Lá provavelmente você verá o 2° Painel, com o título “Painel da Loja de Aprendiz”.
Então, qual é o Painel original do REAA? De onde saiu esse outro Painel?
O Painel original do REAA é o 1° Painel, onde se vê a Corda com nós, a tábua de delinear com uma cerquilha (jogo da velha) e um “X”, e as três janelas. Esses são claramente símbolos relacionados ao REAA.
Já o 2° Painel, onde se vê as três colunas e a Escada de Jacó, é original da Grande Loja Unida da Inglaterra. Trata-se do Painel de Aprendiz pintado por John Harris em 1825, o qual tem servido de base para inúmeras coleções de painéis utilizadas no âmbito daquela Grande Loja, inclusive em muitas Lojas trabalhando no Ritual de Emulação, apesar da Emulation Lodge, mãe de tal Ritual, utilizar outra versão dos painéis de John Harris, a versão de 1845.
Mas como esses Painéis do Ritual de Emulação foram parar dentro dos Rituais do REAA?
Quando da fundação das Grandes Lojas brasileiras, Mário Behring, à frente do Supremo Conselho do Grau 33 do REAA, necessitava fornecer os Rituais dos Graus Simbólicos para que as recém-criadas Grandes Lojas pudessem trabalhar. Os conhecimentos do Irmão Mário Behring não se restringiam ao REAA, tendo sido também um grande conhecedor do Rito de York, Rito Moderno e do Ritual de Emulação. Como uma forma de aproximar as Grandes Lojas brasileiras da Grande Loja Unida da Inglaterra e das Grandes Lojas Americanas, Mário Behring incluiu diversas características do Ritual de Emulação e do Rito de York aos seus rituais do REAA. Alguns dos “empréstimos” do Ritual de Emulação foram as Colunetas e o Jogo de Painéis.
O mais interessante é que o GOB sofreu essa influência e também passou a adotar os Painéis do Emulação nas Lojas do REAA, corrigindo isso depois de mais de 50 anos, com o resgate do painel antigo. Também por conta disso, alguns Grandes Orientes da COMAB também utilizam os Painéis do Emulação no REAA.
Sempre há uma discussão por parte dos Irmãos se as Grandes Lojas deveriam “corrigir” essa e outras modificações em seus Rituais. Porém, o entendimento majoritário é de que não foram enganos, erros, e sim modificações intencionais de Mário Behring, fundador das Grandes Lojas brasileiras. Tanto que a ilustração do Painel original foi mantida no Ritual. Os rituais editados em 1928 foram frutos da criação das Grandes Lojas, fazendo parte de suas histórias. Nesse ponto de vista, não há porque modificá-los.
por Kennyo Ismail | maio 26, 2011 | Termos e Expressões
Às vezes costuma-se presenciar algumas discussões maçônicas “em defesa dos antigos costumes”: Irmãos munidos das regras de Anderson e Mackey, apontando possíveis erros e vícios nas Constituições de suas Obediências. Mais do que justo! Afinal de contas, devemos preservar nossas tradições de forma que a Maçonaria não perca sua essência e bagagem histórica.
Uma das questões que geralmente entram em pauta nessas discussões é quanto ao Grão-Mestre Adjunto, o Delegado e o Deputado do Grão-Mestre. Alguns Irmãos defendem que não deve existir Grão-Mestre Adjunto, alegando que fere o princípio maçônico de que apenas três devem governar. Nesse caso, os três deveriam ser: Grão-Mestre, Grande Primeiro Vigilante e Grande Segundo Vigilante. Os defensores dessa opinião alegam ainda que as Antigas Constituições não prevêem esse cargo, contendo apenas o “Deputado do Grão-Mestre”. Há ainda aqueles que concordam com a existência do Grão-Mestre Adjunto, mas reivindicam pela existência do Deputado, em respeito às Antigas Constituições. Outros acreditam que o Delegado do Grão-Mestre, cargo existente em praticamente todas as Obediências, corresponde ao Deputado do Grão-Mestre, sendo apenas uma questão de nomenclatura.
A verdade é que nem sempre algo é o que parece ser, principalmente quando se refere a termos em outra língua. “Deputy” não é simplesmente “Deputado”, como muitos Irmãos podem imaginar. A palavra “Deputado” para nós pode ter um sentido diferente de “Deputado” para outros. Assim sendo, quando da tradução, em vez de buscar a palavra exata, deve-se buscar a palavra que exprime o verdadeiro significado daquela original ou, pelo menos, o mais próximo. “Deputy” significa Adjunto, Substituto, Representante, Vice. A tradução mais correta para “Deputy Grand Master” é, sem dúvida, “Grão-Mestre Adjunto”. Se pensar no inverso, a melhor tradução para a palavra “Adjunto” é, com certeza, “Deputy”, o que corrobora com esse entendimento. Mas isso não significa que o termo “Deputado do Grão-Mestre” esteja errado.
Já o “Delegado Geral do Grão-Mestre”, conforme as atribuições que costumam ser relacionadas ao cargo, seria o correspondente ao “Assistant Grand Master”, cargo existente na Grande Loja Unida da Inglaterra e em algumas outras Grandes Lojas. O “Assistant” tem a função de dar assistência, auxiliar, ajudar o Grão-Mestre em suas atividades, enquanto que o “Deputy” (Adjunto) é o representante e substituto legal. O “Assistant” está abaixo do “Deputy”, assim como o Delegado está abaixo do Adjunto. Nas Obediências que não possuem um “Assistent” (Delegado), geralmente ocorre do “Deputy” (Adjunto) acumular ambas as funções, auxiliando o Grão-Mestre sempre e o representando e substituindo quando de sua ausência.
O que não se deve é haver numa mesma Obediência um Grão-Mestre Adjunto e um Deputado do Grão-Mestre. Isso sim seria uma aberração, uma redundância administrativa, algo realmente não previsto nas Antigas Constituições. Por mais que as atribuições de cada um possam estar claras na Constituição, no fundo é ter dois Oficiais para a responsabilidade que deveria ser de apenas um.
por Kennyo Ismail | maio 20, 2011 | Simbologia
Os rituais antigos registram que a forma da Loja é a de um “quadrado oblongo”. Talvez você esteja pensando: “Como é possível um quadrado ser oblongo? Aí não seria quadrado, e sim retângulo! Esse termo está errado!”
Se você pensou algo parecido, saiba que muitos ritualistas ao longo dos últimos séculos pensaram como você. Esses ritualistas também acharam o termo de certa forma contraditório e foram substituindo-o ao longo do tempo. Hoje, vê-se “quadrilongo” e até a aberração “retângulo alongado”! Ora, se é retângulo, então já é alongado, não é mesmo?
A verdade é que o quadrado oblongo, o quadrilongo e o retângulo são apenas nomes diferentes para a mesma figura geométrica. Nenhum deles está errado, nem mesmo o “quadrado oblongo”, o mais antigo deles. Entenda o porquê:
Procure na bíblia a palavra “retângulo”. Aliás, não procure porque você não encontrará. Isso não significa que não há objetos e construções retangulares descritos na bíblia. Simplesmente, o termo não existia.
Para que se entenda melhor a questão, deve-se compreender o verdadeiro significado da palavra “quadrado”. Quadrado vem do “quadratus”, que é o particípio passado do verbo em latim “quadrare”, que significa “esquadrar”. Assim sendo, quadrado, no sentido original, era toda forma geométrica de quatro lados formada por ângulos retos. Quando os quatro lados eram do mesmo tamanho, o quadrado era “quadrado perfeito”, e quando dois lados paralelos eram maiores que os outros dois, era “quadrado oblongo”. A palavra retângulo veio surgir muito tempo depois.
Mas quais as medidas corretas?
“Sem simetria e proporção não pode haver princípios na concepção de qualquer templo.”
Vitrúvio
O quadrado oblongo, como todo retângulo, pode ter qualquer tamanho, desde que dois lados paralelos sejam maiores do que os outros dois. Um templo maçônico, tendo a forma de um quadrado oblongo, também pode ter qualquer tamanho, conforme o espaço físico, interesse e recursos financeiros permitem. Mas a questão que interessa aos maçons é se há uma proporção correta a ser respeitada, como bem sinalizou Vitrúvio, autor das primeiras obras que detalham as Ordens de Arquitetura, tão importantes para a Maçonaria.
Nesse sentido, existem duas teorias:
A primeira é de que a proporção é de 1×2, ou seja, as paredes do Norte e do Sul devem ter o dobro do comprimento das paredes do Oriente e Ocidente. Essa teoria se sustenta na proporção conhecida como “ad quadratum”, de origem romana e que foi muito usada na construção de igrejas góticas.
A segunda teoria, e mais aceita, é da Proporção Áurea, que é de aproximadamente 1×1,618. Essa famosa proporção, também conhecida como Proporção de Ouro e Divina Proporção, foi utilizada na concepção do Parthenon e adotada por artistas como Giotto. Também está presente na natureza, como em algumas partes do corpo humano e nas colméias, além de vários outros exemplos envolvendo o crescimento biológico, o que torna tal proporção ainda mais intrigante. Pitágoras, figura extremamente importante na Maçonaria, registrou a presença da Proporção Áurea no Pentagrama, tornando esse o símbolo de sua Escola. O próprio Vitrúvio era fã devoto da proporção. O retângulo feito com base na Proporção Áurea é chamado de “Retângulo de Ouro”. Para se ter uma ideia de sua influência e aplicação até nos dias de hoje, os cartões de crédito convencionais respeitam a Proporção Áurea.
Desvendado o “mistério do quadrado oblongo”, é importante observar que a Maçonaria apenas declara que o templo tem tal formato, sem explicitar qual seria a proporção adequada. Mas se você é adepto de uma das proporções e não encontrá-la no templo de sua Loja, não se preocupe. Afinal de contas, não se fazem mais templos como antigamente.
por Kennyo Ismail | maio 17, 2011 | Termos e Expressões
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| Desenho de: João Guilherme |
É bastante comum ver em discursos e trabalhos apresentados em Lojas, revistas e livros maçônicos, ou mesmo em regulamentos da Ordem o termo “venerança” ao se referir à gestão do Venerável Mestre: “Desejamos que sua Venerança seja justa e perfeita”, “Durante a sua Venerança, a Loja evoluiu ainda mais na Arte Real, “farei minha Venerança no nível e no prumo”, etc.
Às vezes, quando se escuta um termo diferente, como “Veneralato”, alguns Irmãos até se assustam. Uns chegam a pensar que o Irmão está “inventando moda” ou, mais diretamente, inventando palavra.
Mas qual é o termo correto? A tão popular “Venerança” ou o raro “Veneralato”? Alguns poucos Irmãos já se ocuparam em alertar quanto ao termo correto, sem obterem muito êxito. Aí vai nossa colaboração:
VENERANÇA: Verbo “venerar” + sufixo “nça”. O sufixo “nça” é um sufixo nominalizador, ou seja, transforma um verbo em um substantivo abstrato. O sentido desse substantivo derivado do verbo + sufixo “nça” é de ação, estado, qualidade. Isso porque vem do latim “antia”, que significa ação ou estado. Exemplos: vingança = ato de vingar; aliança = ato de aliar; andança = ato de andar.
Dessa forma, “venerança” pode ser entendido como “ato de venerar”. Ex.: “Eu não entendo essa venerança toda da minha tia. Ela vai à missa quase todo dia.”
Parece que o significado real não combina muito com o uso que se costuma observar na Maçonaria, não é mesmo? Caso similar ao “Filosofismo”.
VENERALATO: Verbo “venerar” + sufixo “ato”. O sufixo “ato” vem do latim “atu”, e indica posse, grau ou situação, e geralmente está relacionado com dignidades, funções ou encargos. Em alguns casos pode ser substituído pelo sufixo “ado”. Ex.: bacharelato = grau alcançado pelo bacharel; bispado = dignidade de bispo (Dicionário Ruth Rocha).
Se ainda cabe alguma dúvida, os dicionários “Michaelis” e “Priberiam” não possuem a palavra venerança, mas apresentam o seguinte curioso significado para Veneralato: s.m. “Cargo ou grau de Venerável, na Maçonaria”.
Dessa forma, com base tanto na etimologia como no significado contido nos dicionários, fica evidente que o termo correto é “Veneralato”.
por Kennyo Ismail | maio 11, 2011 | Simbologia
Esse é um tema um tanto quanto comentado na Maçonaria contemporânea. Há tantas teorias, histórias e invenções sobre o assunto que se torna até difícil tratá-lo de forma concisa.
Você pode ler por aí que Instalação é a mesma coisa que Investidura ou que Posse. Isso não é verdade.
Você também pode ler que Instalação é um costume que a Maçonaria copiou dos Cavaleiros Templários. Isso é viagem.
Talvez você leia em algum lugar que Instalação é uma influência da Igreja Católica na Maçonaria. Isso é besteira.
Você também poder se deparar com a teoria de que Instalação é uma cerimônia adaptada de um Grau Superior do Real Arco Americano, chamado de Grau de Past Master. Essa é uma grande idiotice.
E se você ler que a Instalação surgiu por volta de 1823 na Grande Loja Unida da Inglaterra, também não acredite.
Em primeiro lugar, instalação significa “ato de instalar”, sendo o verbo “instalar” originado do termo latim “installare”, que significa “introduzir na cadeira”. Assim sendo, instalação é algo maior do que uma simples investidura ou posse. Os Oficiais são investidos no cargo, tomam posse. Mas apenas o líder é “introduzido na cadeira”, ou seja, é “instalado”.
Esse costume de instalar o Mestre da Loja, de sentá-lo no Trono de Salomão, não nasceu com a Grande Loja Unida da Inglaterra, ou com o Ritual de Emulação, ou mesmo com algum Grau Superior. Pelo contrário, esse costume é mais antigo do que tudo isso e ainda mais antigo que o Grau de Mestre Maçom.
Como todos sabem (ou pelo menos deveriam saber), antigamente só havia 02 Graus: Aprendiz e Companheiro. Então, os Companheiros escolhiam entre eles aquele para governar a Loja, o qual era instalado na “Cadeira do Oriente” e chamado de Mestre da Loja. Na própria 1ª versão da Constituição de Anderson, datada de 1723, não havia ainda citação do Grau de Mestre Maçom, que só foi acrescentado na edição seguinte, mas já havia o antigo costume de “instalar” o Venerável Mestre.
Esse costume da Maçonaria Inglesa se deveu à cultura monárquica dos britânicos. Afinal de contas, os reis também são “instalados” no trono quando assumem o posto, e se o Venerável Mestre simboliza o Rei Salomão, então nada mais justo dele ser devidamente instalado no trono. Daí muitos estudiosos também relacionam o uso do chapéu do Venerável Mestre com a coroa, e o uso do malhete com o cetro.
Já essa história de que a instalação foi adaptada do Grau de Past Master do Real Arco é a típica suposição maçônica. Alguém que fica sabendo que existe um grau no Real Arco que se chama “Past Master” e conclui que esse grau serviu de base para a Instalação de Venerável Mestre não pode ser considerado um Investigador da Verdade. É apenas mais um “achista” de plantão. Na verdade ocorreu exatamente o contrário: o grau de Maçom do Real Arco tradicionalmente era restrito a Mestres Instalados. Então, para não restringir o grau apenas àqueles que foram Veneráveis Mestres, foi criado um grau conhecido como “Past Master Virtual” que é apenas uma “Instalação Virtual” para que o membro que não seja um Mestre Instalado tenha o conhecimento mínimo para se tornar um Maçom do Real Arco. Portanto, foi a Instalação que serviu de base para o Grau de Past Master, e não o contrário.
Outra observação a se fazer quanto à Instalação é quem a realiza. O correto é que o Venerável Mestre realize a Instalação de seu sucessor. Ele se une com pelo menos três Mestres Instalados da Loja ou visitantes e forma o Conselho de Mestres Instalados, o qual realiza a Instalação. É direito daquele que está deixando o posto entregar o bastão, faixa, colar, malhete ou o que quer que seja ao que está assumindo. Isso faz parte do processo democrático.
Enfim, trata-se de um antigo costume maçônico inglês com valor simbólico importantíssimo para a manutenção da cultura maçônica através das Lojas, e por isso adotado por praticamente todos os Ritos e Rituais regulares do mundo.