Cachorro na Maçonaria

Cachorro na Maçonaria

A relação da Maçonaria com cachorros existe há séculos. Como exemplo, na clássica obra Ahiman Rezon, a Constituição dos Maçons Antigos, Laurence Dermott utiliza o cachorro do vizinho para condenar obras maçônicas românticas. Já o célebre artista e maçom Cassius Marcellus Coolidge, autor do famosíssimo quadro “Cães jogando pôquer”, também pintou, na mesma série, o quadro “Cães cavalgando a cabra”, em que se vê cães no papel de maçons em loja, executando um ritual de iniciação.

Mas a participação canina na Maçonaria não para por aí. Nos últimos anos, temos visto uma série de fotos de Irmãos em loja acompanhados de seus cães de assistência e, em muitos casos, os animais são trajados maçonicamente por seus tutores.

Esse é o caso, por exemplo, do Irmão John Broster, Grande Oficial da Grande Loja Provincial de West Lancashire, da Grande Loja Unida da Inglaterra, e seu cão de assistência, Cooper, que o acompanha a todas as sessões das lojas simbólicas, do Capítulo do Arco Real e até mesmo nos altos graus do Supremo Conselho, que concedeu ao seu cão um certificado do 30º grau, após ter presenciado o grau com seu tutor.

Outro caso é de um Irmão do Oregon, nos EUA, que foi Venerável Mestre de sua loja, Potentado de seu Templo Shriner, Comandante de sua Comanderia Templária, além de oficial no Real Arco e nos graus Crípticos, e em todos os corpos esteve acompanhado por seu cão de assistência, trajado conforme a organização. E por falar em EUA, em alguns estados há, inclusive, um grau maçônico paralelo chamado “Cachorro Caramelo” (Yellow Dog Degree), com finalidade de diversão e filantropia.

Como esses, há vários outros casos, não apenas na Inglaterra e nos EUA, mas também no Canadá e em outros países. As fotos desses cães paramentados são comumente compartilhadas em redes sociais entre irmãos.

Contudo, em uma potência maçônica brasileira, um irmão com muitos anos de serviços prestados à Ordem foi recentemente expulso por ter compartilhado em um grupo de WhatsApp uma foto de seu cão portando seu avental maçônico.

Não sou fã de cachorro e acho esse tipo de foto de mau gosto, assim como acho de mau gosto receber imagens de flores com mensagens de bom dia ou de autoajuda; ou imagens de soldados gregos com frases motivacionais ou erroneamente creditadas a filósofos da Antiguidade. Mas o fato de eu não curtir não me leva a pedir a expulsão de ninguém, exatamente porque a Maçonaria ensina algumas coisinhas básicas, como amor fraternal e TOLERÂNCIA.

O caso cabia, no máximo, uma advertência. Mas vários homens adultos acharam por bem instaurar um processo disciplinar envolvendo interrogatório, acusador, defensor e juiz em um tribunal maçônico. E talvez isso não seja o pior, mas a incoerência de se expulsar um maçom por uma foto reconhecidamente sem dolo, enquanto se prestigia a regularização na potência de um político condenado em vários processos por corrupção.

Se a Maçonaria é mesmo universal, há quem prefira viver em um universo paralelo, cuja sua versão de Maçonaria expulsa pai de pet babão e bajula corruptos.

Maçonaria: DISCRIÇÃO x EXPOSIÇÃO

Maçonaria: DISCRIÇÃO x EXPOSIÇÃO

Ultimamente, temos visto no Brasil um movimento crescente de pessoas propagando velhas narrativas antimaçônicas, algumas delas, inclusive, criadas pelos Nazistas, em perfis do Instagram, vídeos no YouTube e Podcasts. E como observei em outra ocasião, entender suas motivações não é algo difícil: teorias conspiratórias envolvendo a Maçonaria são as mais longevas do mundo ocidental, persistindo por mais de trezentos anos, e já enriqueceram muitos mentirosos compulsivos ao longo desse período, que lucraram e ainda lucram impulsionando uma espécie de maçonofobia.

Um dos argumentos mais fajutos, e que ganham adeptos por sua simplicidade, é a de que um maçom favorecerá outro maçom em detrimento de um não-maçom. Dão como exemplo hipotético um juiz que seja maçom e que julgará a favor de um maçom, prejudicando assim a outra parte.

Além desse tipo de parcialidade ser o contrário do que ensinamos na Maçonaria, por acaso faz algum sentido que uma instituição que ensina ética e moral, que tem por princípios a igualdade e a justiça, promova esse tipo de favorecimento ilícito? Ainda, se seguirmos esse raciocínio antimaçônico simplista e nazista, não ocorreria o mesmo se um juiz for baiano e uma das partes for baiana? Ou se o juiz for flamenguista e uma das partes for flamenguista? Ou se o juiz for evangélico e uma das partes for evangélica? Ou se o juiz for de direita e uma das partes for de direita? Logo, todos os julgamentos serão suspeitos, bastando para isso que o juiz e uma das partes tenham alguma filiação ou afinidade em comum.

No meio maçônico, as opiniões frente a essas publicações antimaçônicas se dividem. Enquanto uns entendem que precisamos desmentir tais ataques, outros defendem que não devemos nos manifestar a respeito, de modo a não dar atenção a quem não merece. Sobre isso, há duas questões que devemos levar em consideração.

A primeira, é quanto ao Paradoxo da Tolerância, de Karl Popper. Por essa teoria, se a Maçonaria tolerar silenciosamente os ataques dos intolerantes, isso pode levar à destruição da Maçonaria. Conforme Popper, para se garantir a tolerância é necessário ser intolerante com os intolerantes. Exemplos claros disso são os países que foram tolerantes com grupos intolerantes, até que sofreram golpes de Estado e experimentaram governos intolerantes.

A segunda questão é que, ao contrário do que alguns irmãos imaginam, que se permanecermos em silêncio, logo todos esquecerão, não é assim que a Internet funciona. Absolutamente tudo que é publicado na Internet e compartilhado, divulgado, propagado, fica disponível por quase uma eternidade. E atualmente, a Internet, em especial as redes sociais, fazem parte do cotidiano e da rotina das pessoas. Isso significa que, quanto mais conteúdo antimaçônico tiver publicado, e menos conteúdo maçônico desmentindo isso, toda pesquisa que alguém convidado a iniciar ou um interessado em ser maçom fizer, resultará em uma avalanche de falsidades sobre a Maçonaria, sem encontrar uma contraparte.

Há maçons que acreditam que a Maçonaria era mais fechada antigamente e veem com maus olhos qualquer exposição maçônica feita. Mas isso não passa de um achismo, uma fantasia. A história nos mostra que a Maçonaria especulativa, desde o início, era bem mais aberta, realizando, inclusive, procissões públicas há mais de 300 anos. Ela se encapsulou, se tornando mais “discreta”, exatamente a partir dos anos 1930, quando foi perseguida pelo Nazismo e pelo Fascismo, e os efeitos disso ainda são vistos em muitos países da Europa Continental, onde a Maçonaria é mais discreta, não por opção, mas por necessidade.

É chegada a hora de nós, maçons brasileiros, conhecermos melhor a nossa história, para garantirmos que ela nunca se repita.

UMA LIMONADA ANTIMAÇÔNICA

UMA LIMONADA ANTIMAÇÔNICA

Muitos irmãos me procuraram pedindo minha opinião sobre alguns vídeos de um jovem que anda tentando ridicularizar a Maçonaria e, principalmente, sobre sua entrevista ao podcast Flow.

Vivemos em uma era de superficialidade, onde impera o Efeito Dunning-Kruger. Para quem não está familiarizado com o termo, refere-se a uma distorção cognitiva em que pessoas acreditam piamente que têm competência e domínio sobre um determinado assunto que pouquíssimo sabem. Um caso clássico que ilustra o Efeito Dunning-Kruger é o de um assaltante de banco que, quando identificado pelas câmeras de vigilância e detido pela polícia, foi questionado da razão de não ter usado máscara. Ele então afirmou que havia passado suco de limão no rosto por saber que é uma “tinta invisível”. De fato, suco de limão é uma “tinta invisível” se usado para escrever uma mensagem em um papel, mensagem essa que se revelará posteriormente, ao esquentar o papel, mas o pouco conhecimento do assaltante sobre essa propriedade de “tinta invisível” do suco de limão levou-o a uma conclusão totalmente errada a respeito. Sua crença totalmente equivocada levou-o a empregá-la na prática, sem qualquer dúvida de que estava certo.

As redes sociais e grupos de WhatsApp mostram muito bem a presença e normalização do Efeito Dunning-Kruger, com uma avalanche de pessoas que, após lerem meia dúzia de matérias superficiais e tendenciosas sobre um determinado tema, consideram-se especialistas sobre aquilo.

Apesar do referido jovem influencer se mostrar um sujeito inteligente e articulado, seu conhecimento limitado e distorcido sobre a Maçonaria revela a presença do Efeito Dunning-Kruger. Ele mesmo afirmou no podcast que passou a ler sobre Maçonaria há menos de cinco meses e que, frente a um incontável volume de conteúdo encontrado, fez leituras superficiais, até porque ele tem outros temas e instituições como alvos. Além disso, durante a entrevista, suas respostas sobre questões maçônicas, desprovidas de dados e fatos, muitas vezes vagas e dispersas, revelam ao bom observador que as fontes de suas informações são buscas simples no Google, navegando entre Wikipedia, material apócrifo e sites antimaçônicos de fanáticos religiosos. Um dos vários exemplos que eu poderia citar foi quando ele mencionou o termo Jabulom e tentou explicá-lo, sendo que esse é um velho argumento infundado, mas sempre presente em sites de fanáticos religiosos que atacam a Maçonaria.

Mas por que um dos podcasts mais populares do Brasil convidaria, para falar sobre Maçonaria, um jovem que não é maçom e que apenas pesquisou superficialmente sobre Maçonaria na internet nos últimos meses? Por que não convidaram um maçom experiente ou um pesquisador sério da Maçonaria? Para isso, recorro a Umberto Eco, que concluiu que o ódio é uma força agregadora, que une e aquece. E foi exatamente isso que o apresentador do podcast afirmou durante a entrevista. Em suas próprias palavras, “a Internet é movida a ódio”.

Basta olharmos as matérias de um jornal, que exploram notícias ruins e negativas em detrimento de boas e positivas; ou grupos de WhatsApp com viés ideológico, onde imperam as mensagens de ataque, ódio ou ridicularização da ideologia oposta, e quase nada sobre sua própria ideologia.

Mesmo assim, talvez você esteja se perguntando: Mas por que a Maçonaria? Entender isso é simples: porque a narrativa antimaçônica é a teoria conspiratória mais antiga do mundo ocidental, durando mais de trezentos anos, e que já enriqueceu sujeitos como Léo Taxil, que soube explorá-la.

No início do Século XVIII, reis déspotas, como Luís XV, perseguiram a Maçonaria, por sua defesa de liberdade civil e política. Já a Igreja a perseguiu por seus ideais de liberdade religiosa e de Estado Laico, que ameaçavam suas relações de poder. No século XIX, chegou a surgir o Partido Antimaçônico nos EUA, impulsionados por radicais religiosos contrários à moral baseada na razão, e não na Bíblia, que a Maçonaria ensina. E na primeira metade do século XX, a Maçonaria foi perseguida por Comunistas, que a acusavam de uma conspiração judaico-maçônico capitalista; e pelos Nazistas, que a acusavam de uma conspiração judaico-maçônico comunista! Ou seja, o autoritarismo, independente de lado, perseguiu e persegue uma instituição que defende valores como liberdade de consciência e expressão, igualdade de direitos, moralidade e humanismo. E nesses trezentos anos de ataque à Maçonaria, a sociedade foi bombardeada por crenças e narrativas antimaçônicas.

Então agora, em pleno século XXI, vemos influencers, tiktokers e podcasters explorando esse imaginário conspiratório para, por meio do ódio, alcançarem visualizações, engajamentos e faturamento, sem qualquer compromisso com a verdade e com total indiferença às consequências dos seus atos. Basta observar que há pouquíssimos dias uma loja maçônica foi depredada no interior de Goiás e o suspeito, detido, confessou odiar a Maçonaria.

Para o jovem influencer mencionado, refém do Efeito Dunning-Kruger, seus vídeos não são antimaçônicos, mas apenas “zoação”, mesmo ao chamar os maçons de velhos gordos e cornos, ridicularizar os paramentos maçônicos e condenar trechos pincelados de supostos rituais do Rito Escocês Antigo e Aceito. Trechos esses que eu, enquanto grau 33, pesquisador do rito e de seus rituais, e autor e tradutor de livros a respeito, posso garantir que não correspondem com os praticados no Brasil e no mainstream maçônico mundial.

Esse tipo de “zoação” é similar a de um judeu preconceituoso que ri dos cristãos por acreditarem que Deus era um homem que se permitiu ser torturado e executado, enquanto Deus, para ele, é o onipotente Senhor dos Exércitos. É similar a de um cristão intolerante que condena o uso de véus por mulheres muçulmanas ou faz escárnio de um despacho de religião de matriz africana presente numa esquina. É similar a de um ateu que discrimina os cristãos que creem em uma transformação ao mergulharem a cabeça em uma piscina no batismo, ou comerem um pedaço de papel imaginando ser a carne de um Deus que, para ele, não existe. É similar também a de um xenófobo que critica as vestimentas, tradições, costumes ou cultura de outros povos.

Todos esses exemplos condizem com o conceito de preconceito, que é uma opinião negativa e discriminatória sobre algo que pouco ou nada se sabe, baseado em simples estética, crença superficial ou sentimento ilógico. E é exatamente isso que o tal jovem influencer faz ao se expressar sobre a Maçonaria, enquanto declara publicamente sua total indiferença à histórica, cultura, filosofia e simbologia daquilo que critica e “zoa”.

Contudo, o ponto mais preocupante talvez não seja o preconceito escancarado nos palcos da Internet por simples desejo de likes e lucro, e sim a consequente excitação leviana a ódio e hostilidades contra a Maçonaria que essa desinformação produz. Devido ao Efeito Dunning-Kruger, talvez aquele jovem influencer não saiba que o discurso que ele copiosamente sustenta, de que os maçons irão proteger e beneficiar uns aos outros em detrimento dos não maçons, além de não ter respaldo nas legislações e nos rituais maçônicos, que desde o primeiro grau condenam tal comportamento, é um discurso desenvolvido pelos Nazistas, que se basearam nele para perseguir, saquear, prender, torturar e matar dezenas de milhares de maçons.

Assim, quando ele fala, escuto apreensivo um discurso nazista. E isso me entristece e preocupa, porque acredito que ele, por desconhecer a história, não sabe que está repetindo-a.

Por séculos a Maçonaria tem defendido a liberdade de expressão, mas essa liberdade não exime quem fala da responsabilidade sobre o que foi dito. Cabe apenas àquele jovem decidir se vencerá a barreira da superficialidade, alimentando-se de fontes válidas e aprofundando-se no estudo sobre o tema. Já nós, maçons, temos o dever de combater a ignorância e o preconceito, não com ataques ou ofensas, mas com dados, fatos, respeito e tolerância.

Hate & Hype da Maçonaria

Hate & Hype da Maçonaria

Para quem não está familiarizado, hate e hype são termos comuns na internet, com significados praticamente opostos. Hate é ódio em inglês, e na internet se apresenta por meio de comentários ácidos, críticas destrutivas, ofensas e cancelamento. Já hype significa moda, e hypar na internet é quando há um impulsionamento, gerando maior visualização e engajamento.

Gostando ou não, essa é a realidade das redes sociais, que estão presentes em nossas vidas. Mesmo se você não curte Instagram, Tik-tok e similares, deve visualizar dezenas de vídeos publicados nessas redes e compartilhados via WhatsApp. E, lógico a Maçonaria e a Antimaçonaria estão presentes nesse cenário.

Acontece que a Antimaçonaria está “hypando”, ou seja, está entrando na moda, atraindo visualizações, curtidas, compartilhamentos. E com isso, mais e mais influencers, pessoas que vivem disso, vão voltar seus olhos e abraçar esse tema.

Isso não ocorre por acaso. Cooper, em seu livro “O TRIÂNGULO VERMELHO: uma história da Antimaçonaria”, indica que a Maçonaria é a mais duradoura teoria conspiratória do mundo ocidental. Sua afirmação ganha força ao observarmos que no século XVIII a Maçonaria foi alvo de ataques de reis absolutistas, como Luís XV, e da Igreja; no século XIX surgiu até partido político antimaçônico nos EUA e impostores como Leo Taxil enriqueceram na Europa vendendo mentiras contra a Maçonaria para católicos; e na primeira metade do século XX, a Maçonaria foi acusada pela União Soviética de participar de uma conspiração judaico-maçônica capitalista, e pelo Nazismo de pertencer a uma conspiração judaico-maçônica comunista!

Então, é natural que os maçonofóbicos utilizem as redes sociais para seus ataques, enquanto os influencers, ao perceberem aquilo que Umberto Eco tanto salientou, de que o ódio agrega e aquece, “hypam” esses ataques, que exploram o secretismo da Maçonaria e todo o mistério que ele envolve para promover ideias distorcidas sobre a instituição.

E o que a Maçonaria está fazendo a respeito? Os poucos abnegados que procuram criar conteúdo maçônico nas redes sociais estão APANHANDO muito de “haters”. Antimaçons? Não. Pasmem: maçons bitolados, reacionários, incapazes de enxergar a incoerência de seus próprios atos ao acompanharem e comentarem em perfis maçônicos de redes sociais contra os perfis maçônicos em redes sociais!

O bom, e que talvez eles não saibam, é que seus hates hypam! Mas isso não muda o fato do quão desagradável é ver maçom se dando o direito de atacar publicamente, em rede social, outro maçom, por estar fazendo um trabalho positivo à Maçonaria na internet, visto que ele acredita que devemos ser mais “discretos”. Meus irmãos, estamos SOB ATAQUE! Que possamos, no mínimo, nos defender do fogo inimigo sem precisar lidar com “fogo amigo”.

Se você é contra a exposição da Maçonaria na internet, seja coerente com sua posição e não use a internet para expressá-la! Diga em loja, em prancha impressa, num telefonema… mas não destile seus preconceitos e julgamentos contra irmãos em redes sociais, para os antimaçons e até os maçons rirem da sua cara e, consequentemente, da Maçonaria.

A VIDA SECRETA DOS RITUAIS E SEUS CRÍTICOS

A VIDA SECRETA DOS RITUAIS E SEUS CRÍTICOS

(…) A Maçonaria não é alienígena, nem seus rituais. Parece óbvio, mas esse atributo deve ser o cerne de toda análise sobre qualquer ritual. Contudo, na Maçonaria brasileira, tem-se uma cultura positivista de “certo ou errado” sobre práticas ritualísticas, que não sobrevive a três segundos de raciocínio lógico, partindo dessa premissa.

A Maçonaria não nos foi concedida por uma civilização alienígena, mais evoluída intelectual, moral e espiritualmente do que a nossa. Logo, todo seu conteúdo foi confeccionado com base em conhecimentos terrestres previamente desenvolvidos por humanos não-maçons. Do mesmo modo, nenhum ritual maçônico veio pronto de outro planeta ou foi ditado pelo anjo Gabriel a um maçom. Logo, todos os rituais maçônicos são uma “colcha de retalhos” (termo emprestado do Irmão “Hi-kon-Passos”): todos são enxertos de conteúdos de escritores, religiões, sociedades, escolas e tradições não-maçônicas anteriores, com adequações e alterações para uso maçônico. Discutir se um retalho é melhor do que o outro é como discutir o sexo dos anjos.

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MORAL MAÇÔNICA: TEORIA x PRÁTICA

MORAL MAÇÔNICA: TEORIA x PRÁTICA

Outro dia estava palestrando em uma loja e, como de costume, o assunto “evasão maçônica” veio à tona. E, também como de costume, alguns irmãos demonstraram apego à cultura maçônica brasileira de que “a Maçonaria é perfeita” e “quem saiu nem deveria ter entrado”, o que costumo chamar de arrogância institucional: enquanto uma potência não tiver a humildade de querer entender como ela pode melhorar para reduzir a insatisfação dos maçons, por maior que ela seja, ela não será “grande”, no melhor sentido da palavra.


Contudo, um dos irmãos presentes quis saber na prática, com exemplos, mesmo que fictícios, porque um irmão ficaria insatisfeito com a Maçonaria. Eis aqui um raciocínio hipotético, que não atinge apenas a satisfação de maçons, mas a Maçonaria perante a sociedade:


Se um líder da Maçonaria compra, com o dinheiro da potência, um carro importado de 250 mil reais para busca-lo e leva-lo em casa, a uma distância que daria para ele ir a pé; e outro gasta 15 mil em um único jantar de uma viagem; e, em ambos os casos, ninguém faz nada… qual a moral que a Maçonaria tem para reclamar da má aplicação do dinheiro público?


Se uma liderança maçônica não consegue ir em um evento maçônico familiar sem ficar bêbado e inconveniente, e ninguém reclama… qual a moral que a Maçonaria tem para reclamar da postura de qualquer político, ou até mesmo de seus próprios membros?


Se um dirigente na Maçonaria difama e boicota um palestrante junto às lojas de sua jurisdição, simplesmente porque não gosta do que ele fala… qual a moral que a Maçonaria tem para defender a liberdade de expressão e de imprensa?


Se um poderoso maçom pede para outro ameaçar e silenciar um escritor maçônico que escreveu algo que ele não concorda… qual a moral que a Maçonaria tem para reclamar de abuso de poder por parte de qualquer autoridade do judiciário, do executivo ou do legislativo?
Se um grupo de situação consegue fazer um malabarismo técnico para impugnar uma candidatura de oposição, e ninguém toma qualquer providência… que moral qualquer irmão têm para, se de direita, reclamar que o Bolsonaro está inelegível ou, se de esquerda, reclamar que o Lula foi preso às vésperas de uma eleição?


A Maçonaria é um “sistema de moralidade”. Como todo sistema aberto e instalado em um ambiente externo, seu objetivo é que o “profano” entre no sistema, o qual, funcionando, o transforma em um “maçom”, ou seja, um ser moral, para que este transforme o ambiente externo, de modo a colaborar com o bem-estar e a felicidade da sociedade. Mas se esse sistema educacional de moralidade não estiver funcionando corretamente, a ignorância, a intolerância, o fanatismo, a tirania e os vícios, aprendidos anteriormente no ambiente externo, terão mais força dentro do sistema do que suas próprias engrenagens.


Por sorte, essas são apenas hipóteses para fins de racionalidade, que não ocorrem nas instituições maçônicas brasileiras! Mas todas são possíveis, se não investirmos em educação maçônica, se não escolhermos os dirigentes corretos e, principalmente, se formos omissos aos seus erros. A relativização do errado em um sistema de moralidade é apenas a consequência, tendo como causa o abandono de suas engrenagens educativas.


A relativização dos erros de lideranças e a normalização de abusos e absurdos pelo povo maçônico afetaria sua moral para se manifestar no mundo “profano”. Seria, no mínimo, incoerência. Entretanto, talvez o maior impacto desse comportamento coletivo hipotético seria a saída de novos entrantes, que ainda não estariam anestesiados a tais erros e sairiam por concluírem que o que a Maçonaria ensina é distinto do que os maçons estão praticando.