COERÊNCIA MAÇÔNICA ENTRE RITOS

“Eu não sei a chave para o sucesso, 
mas a chave para o fracasso é tentar agradar a todos.”
Bill Cosby

A Sublime Ordem Maçônica sempre teve como um de seus pilares a exaltação da razão e o combate à sua ausência, ou seja, a ignorância, a intolerância e o fanatismo. A coerência, um fruto da razão, é a relação lógica e não contraditória entre as ideias. Seguindo uma retórica dedutiva, seria “coerente” supor que o maçom, enquanto ser pensante, deve ser “coerente” em suas escolhas. Porém, infelizmente, não se pode esperar isso de todos. O uso da razão gera conhecimento, e o conhecimento é necessário para a busca da coerência. Entretanto, se você não usa a razão ou não detém o conhecimento determinado, não há como ser coerente.

Há aqueles que querem agradar a todos. Contudo, o oposto da razão, como se sabe, é a emoção. E agradar é, em sua natureza, uma ação emocional. Com isso, corre-se o risco de ser incoerente. Há também aqueles que não possuem o conhecimento necessário para a ação, realizando assim ações não racionais. E ações não racionais também tendem a serem incoerentes. O maçom deve tentar não cair na tentação de tais incoerências, as quais são suscetíveis na Maçonaria Brasileira, principalmente quando se trata da adoção de Ritos.

O Rito Adonhiramita é um importante rito na história da Maçonaria Brasileira. Porém, é o único Rito Adonhiramita num país que adota uma série de ritos Hiramitas. Ou você compreende que o princípio Adonhiramita é o correto ou que o Hiramita é o correto. Considerar os dois corretos é impossível. No Brasil, houve nos últimos anos uma tentativa de “hiramizar” o Rito Adonhiramita, interpretando que o nome Adonhiram era a junção do prefixo “Adon” com o nome “Hiram”, o que significaria “Sr. Hiram”, entendendo assim se tratar da mesma pessoa.

Importante registrar que esse não era o entendimento inicial dos maçons adonhiramitas, que compreendiam que Adonhiram e Hiram eram personagens distintos, mas defendiam a teoria de que Adonhiram era o responsável pela construção do Templo. Mackey declarou que isso se deveu pelos ritualistas franceses criadores do rito não serem versados no conteúdo bíblico, tendo confundido o papel dos personagens.[1] Esse problema do desenvolvimento dos ritos latinos já foi abordado nesta obra, e concordamos com Mackey nesse ponto. Mackey ainda aponta os escritos de Guillemain de St. Victor (1786, p. 77-78 apud MACKEY, 1914, p.20), um dos principais nomes do Rito Adonhiramita, que declarou:

Todos nós concordamos que o grau de Mestre é baseado no arquiteto do Templo. Agora, as Escrituras dizem, de forma muito clara, no 14º versículo do 5º capítulo do 3º Livro de Reis, que a pessoa foi Adonhiram. Josephus e todos os escritores sagrados dizem a mesma coisa, e, sem dúvida, distinguem ele de Hiram de Tiro, o artífice dos metais. De modo que é Adonhiram então quem somos obrigados a honrar.

Sobre a tentativa de “hiramizar” Adonhiram, temos que considerar que nomes próprios são nomes próprios. Não entendo por correto utilizar um acrônimo de um nome sagrado de Deus para dizer que “Adonhiram” é “Adon + Hiram”, que significaria “Lorde Hiram”. É como pegar “Donald” e dizer que é “Don + Ald”, que significaria “Dom Ald” ou “Lorde Ald”. Adonhiram é um nome próprio. Moisés não é “Monsenhor Isés”. Isaac não é “Ilustre Saac”. Abraão não é “Abade Raão”. Salomão não é “Santo Lomão”. E Adonhiram não é “Lorde Hiram”.

Ainda sobre o Rito Adonhiramita, o qual tem origem francesa, sabe-se que, tendo por um dos principais motivos as duras críticas das quais o rito era alvo, o Rito Francês ou Moderno surgiu na França para substituí-lo, e isso foi devidamente feito. Em outras palavras, o Rito Moderno foi considerado pelos franceses como uma evolução, em detrimento do Rito Adonhiramita, o qual foi descontinuado na época. Nada impede de uma Obediência discordar dos franceses e adotar o Rito Adonhiramita. Porém, um maçom praticar o Rito Adonhiramita, extremamente místico, e praticar ao mesmo tempo o Rito Moderno, o qual veio substituí-lo, com a proposta oposta, de desmistificar, é incoerente. Uma incoerência histórica e filosófica.

O próprio Rito Moderno também tem seus conflitos. Em 1817, quando passou pela reforma doutrinária no Grande Oriente da França, o qual suprimiu a obrigação da crença num Ser Supremo, a reação da Grande Loja Unida da Inglaterra foi rápida e drástica, declarando a irregularidade daquela Obediência, rompimento que dura até os dias de hoje. Considerar a decisão do Grande Oriente da França como justa é considerar a decisão da Grande Loja Unida da Inglaterra como injusta, ou o contrário. Tendo o Rito Moderno como símbolo da maçonaria francesa adogmática e o Ritual de Emulação como símbolo da maçonaria inglesa teísta, é evidente que seus princípios são conflitantes. Praticar ambos também o é.

Outra clara incoerência é adotar o Rito Escocês Retificado – RER e adotar o Rito Escocês Antigo e Aceito – REAA. O RER foi uma iniciativa de Jean Baptiste de Willermoz com o propósito de “retificar” a Maçonaria chamada “Escocesa”, na época o Rito da Estrita Observância e, em especial, o Rito de Heredom, cujos 25 graus serviram de base para o REAA. Willermoz foi explicitamente contra os graus “de vingança” presentes no Rito de Heredom, os quais permaneceram no REAA.

Ainda, podemos recordar aos Irmãos que o Rito Schröder, criado por Ludwig Friedrich Schröder, rejeita todo tipo de esoterismo e Altos Graus na Maçonaria. Um irmão que opta por ser adepto desse rito não deveria ingressar em qualquer Alto Grau de rito algum da Maçonaria.

Assim, uma mesma Obediência abrigar Adonhiramita com Moderno, Moderno com Emulação, RER com REAA, ou Schröder com outros ritos pode ser justificado como resultado de decisões condescendentes de seus dirigentes ao longo da história, fruto daquele desejo de agradar a todos, e revestido pelo conceito de “Colégio de Ritos”. Por outro lado, os maçons, esses sim não podem ignorar completamente as histórias e filosofia própria de cada rito, praticando-os de forma ignóbil e superficial, desconsiderando seus princípios e suas histórias em nome de uma visão pseudo-holística, praticando simultaneamente ritos e rituais originalmente conflitantes.

Nenhuma desculpa histórica local ou fraterna justifica incoerências lógicas. Também não se está discutindo aqui o poder e querer, a legalidade ou a regularidade. Apenas deve-se levar em consideração que, sendo a Maçonaria uma organização baseada na Razão, não é isso que muitas vezes seus adeptos têm refletido. Cada maçom, sendo homem livre e dotado de razão, tem a capacidade de ser coerente em suas escolhas e atos, em vez de querer agradar a todos ou mesmo seu próprio ego.

É como praticar diversas religiões, em especial as que se contradizem mutuamente, como as de uma única vida terrena com as reencarnatórias, ou o judaísmo com o cristianismo, por exemplo. Você pode ser adepto de uma e conviver fraternalmente com os adeptos de outras, e até mesmo visitar cerimônias religiosas dessas, respeitando-as. No entanto, ser adepto de duas ou mais contraditórias é logicamente impossível. Na Maçonaria também.

Por fim, antes que alguém diga que tudo é Maçonaria, tudo é lindo, e são apenas caminhos diferentes que levam ao mesmo lugar, devemos mostrar também a imensa incoerência de tal justificativa: se assim for, sejam coerentes com tal pensamento e aceitem todas as centenas de Ritos e Obediências que existem por aí como regulares, pois “é tudo Maçonaria”. Caso contrário, usem a peneira de suas consciências corretamente, sem relativismo, inclusive nos Ritos.



[1] MACKEY, A. G. Adonhiramite Masonry. In: An Encyclopedia of Freemasonry and tis Kindred Sciences. New York e Londres: The Masonic History Company, 1914, p. 19.

TEMER OU NÃO TEMER? EIS A QUESTÃO

TEMER OU NÃO TEMER? EIS A QUESTÃO

Um ensaio sobre o medo na iniciação maçônica

A Maçonaria foi e ainda pode ser dividida dualmente de várias diferentes formas: Antigos e Modernos, Graus Simbólicos e Graus Superiores, Regular e Irregular, etc. Mas outra dualidade muito clara que se tem na Maçonaria e ainda é pouco observada, dualidade essa presente em sua estrutura filosófica, está relacionada ao medo. Existe muito claramente na Maçonaria Ritos cuja Iniciação é baseada no medo e aqueles que não o são.

O que define um maçom? O que difere um maçom de um não-maçom? A Iniciação. Sendo a Maçonaria uma Escola Iniciática, é a cerimônia de Iniciação que promove a transformação do indivíduo, de um não-maçom para um maçom. Mesmo aqueles que se afastam da Maçonaria, voluntaria ou involuntariamente, continuam sendo maçons. Podem ser chamados de maçons adormecidos (saída voluntária) ou maçons excluídos (saída involuntária), mas não deixam de ser maçons. Isso porque se considera que a Iniciação é um ritual de renascimento, de passagem, que modifica moral e espiritualmente o ser humano, não podendo jamais ser desfeito. Não há, portanto, como “desiniciar” um maçom, voltando-o ao homem que era antes de ser iniciado.

A iniciação pode ser compreendida pelo mito da caverna de Platão. Após enxergar o mundo fora da caverna, não há como voltar ao estado anterior daquela crença nas sombras e ruídos. Não há volta. Assim como na alegoria, a iniciação age sobre a dualidade entre a ignorância e o conhecimento. O ignorante, ao tomar conhecimento, deixa de ser ignorante naquilo. Mesmo que ele não utilize do conhecimento adquirido, ele agora conhece e, portanto, não está mais submerso na ignorância. Assim como não há retorno à caverna para o liberto, não há retorno à escuridão da ignorância para o maçom. E com base nessa compreensão ontológica, entende-se que existe o maçom e o não maçom, não havendo possibilidade de existência  de ex-maçom, meio-maçom ou semi-maçom.

Entretanto, a Iniciação na Maçonaria, apesar de possuir um núcleo comum presente em todos os ritos, é composta de diversos elementos que a diferem de um rito maçônico para outro, elementos esses ligados à proposta, história, culturas e valores de cada rito. E nos ritos que possuem o medo como um de seus princípios iniciáticos, muitos desses elementos próprios refletem isso: os momentos pré-iniciação promovidos tradicionalmente pelas Lojas; a câmara das reflexões, suas frases, objetos e escuridão; os testes físicos durante a iniciação, com seus riscos simbólicos; etc.

Essas iniciações “amedrontadoras” são a base dos ritos que podemos chamar de “latinos”, os quais sofreram forte influência de outras escolas iniciáticas, místicas e esotéricas. Todos esses elementos presentes nesses Ritos, e que claramente não são heranças da Maçonaria Operativa, servem para incutir no candidato o medo, testando sua coragem e força de vontade. Muitos desses elementos têm simbolicamente caráter eliminatório, ou seja, a reprovação pode acarretar na não iniciação do candidato. Na verdade, são empréstimos feitos de outras Ordens, devidamente modificados e “maçonificados” quando da construção de tais ritos. Trata-se de algo até de certa forma incoerente com a Maçonaria, uma fraternidade em que, tradicionalmente, os candidatos são devidamente escolhidos, garantidos, aprovados e convidados antes da Iniciação, estando ali de livre e espontânea vontade deles e de todos os maçons presentes, não havendo motivo para testá-los.

O único conteúdo genuinamente maçônico que, de alguma forma, pode ser considerado como relacionado ao medo são as penalidades, essas similarmente presentes em todos os ritos. Porém, não se trata de uma vivência de medo, como nas situações impostas nos ritos “latinos”, e sim da pura e simples ciência da existência de uma penalidade simbólica no caso de infração. Em outras palavras, dá-se conhecimento de um código de conduta a ser seguido e da penalidade simbólica aos infratores. Esse é o único elemento que pode ser considerado relativamente “amedrontador” nos ritos maçônicos anglo-saxões, como o York e o Schroeder, por exemplo.

Para se ter uma ideia da preocupação de algumas Grandes Lojas no mundo em realizar iniciações em que reine a sensação de confiança, e não de medo, aproximando-se ainda mais do espírito iniciático da Maçonaria Operativa, há alguns anos atrás a Grande Loja Unida da Inglaterra tomou a iniciativa de, mais uma vez, modernizar seus rituais, suprimindo tal trecho do juramento. Dessa forma, extinguiu-se dos rituais ingleses qualquer passagem pela qual possa ser criada uma sensação de medo no candidato.

De qualquer forma, como registrado anteriormente, é aquele núcleo comum que torna a iniciação verdadeiramente maçônica, distinguindo-a das demais iniciações. E como uma sociedade de pensadores livres, os grupos maçônicos organizados e regulares tiveram a liberdade de, na devida forma, construírem seus ritos, acrescentando a eles os elementos condizentes com os valores e crenças que compartilhavam. Resumindo, não há rito bom e rito ruim, não há rito melhor que o outro, e sim constructos diferentes sobre a mesma base maçônica. Cabe ao maçom, como um verdadeiro pesquisador da verdade, compreender tais formações epistemológicas, optando por aquela ou aquelas mais condizentes com suas crenças, seu modo de pensar, e respeitando os princípios que as regem. Com ou sem medo.

Rito x Cultura Organizacional

A Maçonaria Brasileira proporciona aos seus membros um cenário peculiar de conteúdo maçônico por conta de sua variedade de ritos. Os maçons no Brasil têm a possibilidade de acesso a ritos e rituais de origem francesa, inglesa, norte-americana, alemã, etc.

Cada rito traz consigo uma gama de características próprias, tanto no que tange a ritualística e liturgia, quanto a simbologia e ensinamentos morais. Entretanto, é importante observar que os ritos são praticados por indivíduos, que são os maçons, e que se reúnem em organizações, que são as Lojas e Obediências. Essas, por sua vez, estão inseridas em um macroambiente complexo, que é a sociedade. Com isso, as Lojas e Obediências sofrem influências internas e externas, ou seja, das particularidades de seus integrantes e da cultura e costumes da sociedade em que está inserida. O resultado disso são os valores, crenças, tendências regras e clima organizacional que forma a identidade própria dessas organizações. Em outras palavras: cultura organizacional.

Assim sendo, tem-se de um lado o Rito Schroeder e de outro a cultura organizacional da Maçonaria Alemã; há o Rito de York e há a cultura organizacional da Maçonaria Norte-americana; existe o Ritual de Emulação e existe a cultura organizacional da Maçonaria Inglesa; e assim por diante. Enfim, rito e cultura organizacional são coisas distintas, assim como as características de cada um.

Porém, não é difícil presenciar maçons, autoridades maçônicas e ritualistas de plantão confundindo tais conceitos, creditando características de cultura organizacional da Maçonaria de determinado país ao Rito nele originado. E qual é o impacto disso na Maçonaria? Ora, rito é universal, fixo, imutável, enquanto que cultura é regional, variável, em constante mutação. Ao considerar uma característica cultural como característica do rito, você está impondo-a e tornando-a indiscutível, um tabu.

Essas confusões alcançam diferentes fatores maçônicos. Segue dois exemplos claros dessa confusão:

“O Rito Tal adota gravata de tal cor”… “o Ritual tal utiliza calças diferentes…”. Os ritos tratam de acessórios ritualísticos, como cobertura (chapéu, cartola, fez, capuz, véu), aventais, faixas, luvas, colares. Mas regras de vestimenta, como o uso ou não de terno, cor e tipo de gravata, o uso ou não de balandrau, não têm origem nos ritos e sim nas organizações.

“No Rito X, a quantidade de votos contrários para a reprovação no escrutínio é diferente do Rito Y” … “No Rito 123 existe linha sucessória…”. Regras de seleção de candidatos e de processo eleitoral não são dos ritos, mas sim das organizações.

Não se está aqui insinuando de alguma forma que adotar características próprias da cultura organizacional das Obediências de origem dos ritos seja algo indevido. Muito pelo contrário, muitas vezes é uma questão de identidade cultural, cuja exploração pode colaborar para a consolidação do rito em solo brasileiro. Mas que fique claro que se trata de convenções organizacionais, e não obrigações que o rito nos impõe. Afinal de contas, creditar a um rito conteúdo e características que não são próprias do mesmo não deixa de ser uma forma de adulterá-lo.

McMaçonaria

McMaçonaria

Estava eu outro dia conversando com um irmão e amigo que pertence a outra Loja e Obediência, esta tão regular e tradicional quanto a da qual sou membro. Era nosso primeiro encontro após uma visita que ele havia feito à minha Loja. Papo vai, papo vem, e eis que o irmão pergunta se poderia indicar um candidato para ingressar em minha Loja. Eu, conhecendo a idoneidade moral desse irmão, respondo afirmativamente. Afinal de contas, é direito de todo Mestre Maçom regular indicar candidatos e, se ele havia escolhido a minha para realizar a indicação, era motivo de honra para mim.  Porém, a dúvida ficou no ar, e logo questionei o irmão do porquê dele não realizar a indicação em sua própria Loja, já que eu sabia que ele era inclusive o Secretário da Loja, e poderia acompanhar o processo para a Iniciação mais de perto.

Tenho que confessar que a resposta não me surpreendeu muito, visto ser algo cada dia mais comum de ser visto na Maçonaria Brasileira: o irmão se queixou de sua Loja, dizendo que a mesma está sem conteúdo, reunindo-se apenas para bater malhete, isso quando não está ocupada com brigas internas e externas; reclamou ainda que toda tentativa dele e de outros irmãos mais novos de inovar é frustrada pelos “donos da Loja”. E tendo o irmão visitado algumas vezes nossa Loja e observado seu modus operandi, se sentia mais à vontade para indicar um amigo no qual enxergava os princípios maçônicos básicos e o interesse no aperfeiçoamento moral e espiritual.

Compreendendo a situação do irmão, reafirmei minha concordância e disponibilidade em avalizar tal indicação em minha Loja, dizendo que seria para nós uma honra receber o futuro afilhado dele, é claro que após a devida sindicância e seguindo todos os trâmites de costume. Ao tocar no assunto, o irmão aproveitou para perguntar como era nosso processo de sindicância, os documentos, exigências e custos para ingresso na Loja. Sendo ele um irmão sempre muito interessado e participativo, não me incomodei de explicar todo o processo, desde a indicação até a iniciação. Ao final, informei ainda o valor do investimento para Iniciação, o qual cobre o kit de Aprendiz (avental, luvas, ritual, broche, identidade, diploma, etc.) e um jantar comemorativo em que o iniciado e sua família são apresentados a toda a família da Loja.

Nesse momento, vi o espanto no rosto do irmão, que logo exclamou que o valor informado era exorbitante, impraticável, e que o processo para iniciação era muito burocrático. Ao escutar tais comentários, perguntei-me como era possível fazer o mesmo com menos tempo e recursos… não contive a curiosidade e questionei: – E como é em sua Loja? – O irmão então me respondeu que sua Obediência estava dispensando muitas das exigências para a Iniciação, além de isentar os candidatos da taxa do placet. Por conta disso, sua Loja consegue fazer todo o processo para Iniciação em apenas um mês, e cobra apenas R$50,00 do candidato.

Após escutar o irmão, fiquei refletindo por um momento sobre o assunto. Eu já conhecia essa história “de outros carnavais” e meu raciocínio era de que, de uma certa forma, um valor mais substancial, o processo relativamente demorado, e as exigências documentais como quase de um concurso de policial federal, serviam como filtros, peneiras, para separar os curiosos daqueles realmente interessados. Todos aqueles documentos, entrevistas e consultas teoricamente garantiam a qualidade mínima social e moral dos indivíduos que pleiteiam ingresso na Maçonaria. Mas, será que aquela fórmula “fast food” de Maçonaria estava funcionado para a Loja dele e outras Lojas daquela Obediência?

O que a Loja dele e outras da Jurisdição estavam fazendo, com a anuência da Obediência, era proporcionar aos profanos um acesso rápido e barato à Maçonaria. É o que podemos chamar de “McMaçonaria”. A questão é se isso é realmente bom para os membros e para a Instituição. Pensando nisso, perguntei ao Irmão quantos membros haviam iniciado na Loja dele nos últimos dois anos. Ele respondeu que algo em torno de 50 novos irmãos. – Uau – imaginei. Então perguntei a ele a média de membros por reunião atualmente. Ele sabia bem: uns 26 a 28 irmãos, a maioria de irmãos mais antigos, apenas uns 10 membros da “nova safra”. Então lancei a pergunta derradeira… – E você sabe o nome desses 50 irmãos? – A resposta, é claro, foi negativa. – Talvez eu saiba de uns três deles – o irmão me respondeu.

Isso já era de se esperar… Como dito anteriormente, essa ideia não é nova. Algumas Grandes Lojas dos EUA já haviam tentado algo parecido alguns anos atrás, porém de forma mais intensa e abrangente e, é claro, foi um fracasso. Não somente causou alguns problemas internos, como também impactou na relação com outras Grandes Lojas no mundo, que não gostaram nem um pouco dessa história.

Com a tática da McMaçonaria, a tal Obediência deve ter aumentado consideravelmente o número de seus filiados. Já as Lojas que abriram mão do conceito de células de “família maçônica” não obtiveram ganhos reais em troca. Talvez, membros promissores, que se identificariam com a Loja e seus valores quando em sua forma tradicional, se entregam à desmotivação de serem mais uns entre dezenas e, ao frequentarem a Loja, que perde sua própria identidade, acabam por também se afastarem. Os agora maçons, que adquiriram um “lanche” rápido e barato de Maçonaria, podem por fim não experimentar, degustar, saborear e aproveitar a verdadeira essência da Ordem. Enfim, a curto prazo parece algo ótimo, mas a longo prazo pode ser prejudicial, assim como uma alimentação à base de fast food.

OBEDIÊNCIA MAÇÔNICA: CONSELHO PROFISSIONAL ou SINDICATO?

Sendo a Maçonaria um sistema baseado em alegorias e símbolos, e referenciado no papel do trabalho, é comum a utilização no meio maçônico da imagem do maçom como um profissional. Tal método didático, embrionário da pedagogia desenvolvida e popularizada por Paulo Freire, ensina o homem com elementos próprios de seu meio. Talvez o exemplo mais conhecido do uso de tal didática seja o de Jesus, que usava o joio e o trigo, o pastor e seu rebanho, e tantos outros elementos comuns do cotidiano do povo judeu daquela época para transmitir seus ensinamentos.

Na Maçonaria Operativa isso era muito evidente: os maçons operativos utilizavam de suas ferramentas de trabalho e das atividades de ofício para transmitir ensinamentos morais e espirituais aos seus membros. E hoje, sendo a Maçonaria Especulativa formada por profissionais das mais diversas áreas de atuação, podemos aplicar o mesmo método didático para melhor entender a nossa Maçonaria.
Enxergando a Maçonaria como uma profissão específica, e os maçons como seus profissionais, o que seriam as Obediências? Seriam Conselhos Profissionais (ex.: CREA, CRM, CRA, CRC) ou Sindicatos? Para realizarmos tal avaliação, precisamos compreender a essência desses dois tipos de entidades.
Os Conselhos Profissionais são órgãos cujo objetivo é orientar, disciplinar e fiscalizar o exercício da profissão. Trata-se de organização imposta ao profissional e que exerce autoridade sobre o mesmo. Já os Sindicatos são associações de profissionais de um mesmo ramo de atividade que se unem em defesa da categoria e de seus interesses comuns. Os Sindicatos nascem dos próprios membros, em prol deles e de seus trabalhos.
A Maçonaria, suas Lojas e Obediências, surgiu com a “essência sindical” de união, auxílio e voluntariedade. Porém, como Max Weber bem apregoou, a burocratização das instituições verticaliza e concentra o poder em detrimento de seus membros. E foi exatamente isso que aconteceu com a Maçonaria: com o tempo, as Lojas perderam autonomia para suas Obediências, as quais migraram de simples sindicatos “de maçons, pelos maçons e para os maçons” para verdadeiros conselhos de disciplina e fiscalização com forte autoridade sobre as Lojas e seus membros. Como último resquício da essência sindical nas Obediências, provavelmente um reflexo do aspecto fraternal de nossa Ordem, tem-se o “auxílio mútuo”, hoje restrito a fundos de beneficência e auxílios-funeral. Infelizmente, em muitas Obediências nem mesmo isso mais existe.
Para testar tal teoria, pode-se analisar o comportamento organizacional das três vertentes maçônicas regulares de âmbito nacional: GOB, CMSB e COMAB. Conselhos Profissionais têm por princípio a unidade (no sentido de ser único, de existir apenas um), enquanto que Sindicatos têm por princípio a união. Isso torna os Conselhos Profissionais corporativistas em contraposição à postura convergente dos Sindicatos. E como essas três vertentes se comportam? Apesar do desejo de boa parte dos irmãos e de alguns esforços regionais pela união, temos ciência de que as cúpulas nacionais dessas três vertentes nunca sentam na mesma mesa para dialogar ações conjuntas em busca de um benefício comum. Logo, conclui-se que o corporativismo maçônico fiscalizador se sobrepõe à coletividade maçônica original das Obediências.
Caberá aos futuros líderes e dirigentes da Maçonaria brasileira devolvê-la um pouco de sua essência sindical. Quando isso acontecer, a consequência natural será o surgimento de uma espécie do que poderemos chamar de “CUT Maçônica”, que defenderá os interesses de todos os maçons e suas Lojas, sem distinção. Daí quem sabe não voltaremos a eleger um líder sindical, mas dessa vez do “sindicalismo maçônico”, como Presidente da República? Afinal de contas, a história do país tem sido favorável a maçons e sindicalistas: 09 maçons e 01 líder sindical foram Presidentes do Brasil.
VATICANO MAÇÔNICO

VATICANO MAÇÔNICO

Para muitos maçons mal informados, a Grande Loja Unida da Inglaterra exerce função de “xerife” do mundo maçônico, sendo a legítima guardiã da regularidade maçônica, devendo ditar as regras a serem seguidas pelas demais Obediências. Para esses, se a Maçonaria fosse uma religião, a GLUI seria uma espécie de Vaticano Maçônico. É importante esclarecer que a GLUI não tem essa autoridade e que isso é totalmente contrário a todos os princípios maçônicos de autonomia, soberania e igualdade entre Obediências.
A quase submissão das Grandes Lojas da Escócia, Irlanda, Índia e de algumas Grandes Lojas da Austrália e Canadá é até tolerável, considerando terem esses países pertencido ao Império Britânico e a GLUI ter sido a provedora de tais Grandes Lojas. Porém, a submissão presenciada por outras Obediências no restante do mundo, e até mesmo no Brasil, é inaceitável e demonstra que o “complexo de vira-lata” alcança até as fileiras maçônicas.
Para quem não está familiarizado com o termo, o complexo de vira-lata é uma expressão de autoria de Nelson Rodrigues para se referir à inferioridade e submissão que muitas vezes o brasileiro se impõe voluntariamente. E, infelizmente, essa postura foi historicamente institucionalizada na Maçonaria brasileira em relação à Inglaterra.
O desavisado que visitar a Maçonaria Regular nos chamados países desenvolvidos descobrirá que essa idolatria à GLUI não é compartilhada pelos mesmos. Muito pelo contrário: verdade é que a GLUI não faz parte da vanguarda maçônica, seguindo várias vezes a tendência impulsionada por outras Grandes Lojas, quase que pressionada pelas mesmas a sair da inércia.
Antes de elevar a GLUI ao posto de “rainha do mundo maçônico”, posto esse que os britânicos já estão familiarizados pelo modelo de Estado, reflita um pouco sobre isso: A Maçonaria está diretamente ligada ao princípio de Liberdade, considerado direito natural dos homens. E enquanto o mundo ocidental ainda experimentava o gosto amargo das monarquias absolutistas, a Maçonaria já sentia o doce sabor da democracia em suas Lojas e Grandes Lojas. Sendo precursora dos ideais libertários e democráticos, a Maçonaria participou ativamente e de forma determinante da Revolução Francesa e da libertação de praticamente todos os países do continente americano. Atualmente, até mesmo em países como Cuba, que vive uma Ditadura Castrista há mais de 50 anos, a Maçonaria mantém intacta a chama da democracia em seu interior, elegendo periodicamente seu Grão-Mestre. No entanto, eu pergunto: Qual é a única Grande Loja do mundo que traiu esse princípio de democracia, tirando do povo maçônico o direito sagrado de escolher entre os seus membros um Grão-Mestre? A Grande Loja Unida da Inglaterra.
O Príncipe Eduardo, Duque de Kent, é Grão-Mestre da GLUI desde 1967, ou seja, uma “ditadura maçônica” que dura 45 anos. Alguns podem questionar essa afirmação, dizendo que ele é constantemente “reeleito”. Porém, não devemos nos esquecer que Fidel Castro também era. Ambos, por motivos óbvios, sempre foram candidatos únicos.
Se a Maçonaria Regular Mundial acha por bem tolerar tal situação proveniente da GLUI, entendendo que é uma questão de cultura dos maçons ingleses que, assim como os cidadãos daquele país, ainda se sujeitam em dividir os homens (e os maçons) entre nobres e plebeus, e favorecer esse primeiro grupo em detrimento do segundo, isso é fraternalmente compreensível. Afinal de contas, a tolerância é um dos belos ensinamentos transmitidos pela Maçonaria. Mas que fique claro ao maçom que lê estas palavras: a Grande Loja Unida da Inglaterra não é um modelo a ser seguido, quanto mais uma autoridade a ser obedecida.