Lendário Grande Secretário da Grande Loja dos Antigos da Inglaterra de 1752 a 1771, Dermott nasceu na Irlanda, em 1720, e morreu em Londres, em 1791. Ele iniciou na Maçonaria em 1740 e se tornou Mestre Instalado em 1746, em Dublin. Em 1748, morando em Londres, Dermott filiou-se numa Loja jurisdicionada àquela que em pouco tempo ele iria apelidar de “Grande Loja dos Modernos”. Ele se uniu a vários outros maçons ingleses e principalmente irlandeses vivendo na Inglaterra que, descontentes com as mudanças e modernizações que estavam ocorrendo no âmbito da Grande Loja da Inglaterra, resolveram criar uma nova Grande Loja que pudesse preservar os antigos costumes e tradições maçônicas. Em 1751 nascia a Grande Loja dos Antigos, tendo Dermott como seu Grande Secretário.
Laurence Dermott foi Grande Secretário por quase 20 anos, deixando o cargo em 1771 para assumir como Grão-Mestre Adjunto. Permaneceu no cargo até 1777, quando William Dickey assumiu, mas retornou à posição de Grão-Mestre Adjunto em 1783, até 1787. Ele serviu a Grande Loja dos Antigos até 1789, enquanto sua saúde permitiu.
Uma vida dedicada à Maçonaria dos Antigos e a severas críticas aos Modernos, sua obra, Ahiman Rezon, o Livro de Constituições da Grande Loja dos Antigos, foi rapidamente copiada pela Grande Loja da Irlanda que, até então, se baseava na Constituição de Anderson. Dermott era conhecido por ser extremamente rígido, disciplinado, um administrador habilidoso, e um escritor sarcástico quando se tratava dos Modernos.
Um interessante aspecto a se observar sobre Dermott é quanto ao respeitado William Preston. Preston se tornou maçom pelos Antigos, sob a tutela de Dermott, optando depois pelos Modernos, mais precisamente pela Lodge of Antiquity, para qual foi convidado a ser Venerável Mestre, e que era filiada aos Modernos. Dermott, mesmo sendo tão ativo em seus ataques contra os Modernos, nunca atacou Preston. Alguns anos depois, Preston foi expulso da Grande Loja dos Modernos, e por 10 anos fez coro com os Antigos contra os Modernos. Seu respeito entre os maçons era tamanho e seu discurso tão bem formulado que a Grande Loja dos Modernos acabou cedendo às pressões e “desexpulsando” Preston, acompanhado de um pedido de desculpas.
Os fatos levam a crer que havia um grande respeito entre Preston e Dermott que, apesar de militarem em lados opostos administrativamente e de criticarem veementemente seus opositores, nunca se atacaram. E ambos acabaram formando, sem saberem, a base sobre a qual foi construída a Maçonaria Norte-Americana.
Ahiman Rezon foi o nome dado por Laurence Dermott para a Constituição da Ancient Grand Lodge of England. Várias Grandes Lojas que seguiam a vertente dos “Antigos” adotaram o mesmo nome para suas Constituições, como as Grandes Lojas da Pensilvânia, Virgínia, Maryland, Carolina do Norte, Carolina do Sul e Geórgia.
Mas, afina, o que significa Ahiman Rezon? Conforme Albert Mackey, significa “A Vontade dos Irmãos Selecionados”. A Grande Loja da Virgínia, com base na obra de Mackey, Lexicon of Freemasonry, adotou o significado “Lei dos Irmãos Preparados”. A Grande Loja da Carolina do Sul, interpretou como “Segredos de um Irmão Preparado”. Já a Geórgia entendeu como sendo “Construtor Real”. Em 1825, a famosa Grande Loja da Pensilvânia registrou em sua revisão: O Livro das Constituições é geralmente denominado Ahiman Rezon. A tradução literal de Ahiman é “um irmão preparado”, e Rezon é “secreto”, então Ahiman Rezon literalmente significa “os segredos de um irmão preparado”.
Entre tantas opiniões, talvez seja prudente considerar a intenção do próprio autor que adotou o termo, o polêmico Dermott! No prefácio de sua Ahiman Rezon, Dermott escreveu que um dia teve um sonho em que ele conversava com quatro homens de Jerusalém. Um dos homens, chamado Ahiman, disse a ele que ninguém tinha escrito nem poderia escrever uma história sobre a Maçonaria como a que Dermott se propôs a fazer.
A Bíblia de Genebra de 1560 explica que Ahiman significa “um irmão preparado” ou “irmão da mão direita”, e Rezon significa “um secretário”. Considerando as citações que Dermott fez da Bíblia de Genebra, pode-se supor que sua intenção para Ahiman Rezon era “irmão secretário preparado” ou “irmão secretário da mão direita”.
Dermott foi Grande Secretário da Grande Loja dos Antigos por quase 20 anos, de 1752 a 1771, tendo sido o grande responsável pelo sucesso da Obediência. Era conhecido por ser criativo e ríspido, e ridicularizou as leis e a história lendária da Maçonaria criada por James Anderson, além das modernizações promovidas pelos “Modernos”. Dermott ainda lançou e divulgou a ideia de que os maçons “antigos” sabiam tudo que os “modernos” sabiam, mas não o contrário, pois a Maçonaria dos “antigos” era mais completa. Ele se referia ao Real Arco, que foi o grande vitorioso na fusão das duas Grandes Lojas inglesas, gerando na Grande Loja Unida da Inglaterra a grande confusão matemática do mundo maçônico, através do artigo: “(…) a pura Maçonaria Antiga consiste de três graus e nenhum mais, isto é, os de Aprendiz Registrado, Companheiro de Ofício e Mestre Maçom, incluindo o Sagrado Real Arco”. Ou seja, para a Grande Loja Unida da Inglaterra, 03 e nenhum mais… são 04! Se estivesse vivo, tenho certeza que Dermott também faria piada disso.
Acredita-se que o estigma da sexta-feira 13 existe há séculos, mais precisamente desde o dia 13 de outubro de 1307, uma sexta-feira cuja noite foi tenebrosa. Foi quando os soldados do Rei Felipe IV da França, conhecido por Felipe, o Belo, invadiram as edificações francesas onde cavaleiros templários estavam repousando com ordens de prisão. Cientes de que os templários não desembainhariam suas espadas após suas orações noturnas, muito menos contra cristãos, o trabalho dos soldados fiéis ao rei não foi tão difícil. Milhares de cavaleiros foram presos, alguns mortos na tentativa de fuga, mas outros tantos conseguiram escapar, fugindo principalmente para Portugal e Escócia.
Porém, talvez aquela sexta-feira 13 não ficasse tão negativamente enraizada na memória das pessoas se o seu desfecho não fosse tão sombrio e marcante como foi. Desfecho esse ocorrido quase sete anos depois, numa segunda-feira, dia 18 de março de 1314.
Em observância a esses dois dias, que servem como cornucópias de lições desde então, apresento um trecho de texto publicado em 18 de Março de 2011 neste blog:
“O sol está se pondo e uma multidão se forma no pátio diante da Catedral. Apesar do fim do inverno, essa segunda-feira de primavera parece fria como nunca. As flores já brotaram, mas o vento corta como navalha. – É uma pena que a fogueira fique tão distante de nós. Seria bom para me aquecer. – diz um mendigo de idade já avançada, ou talvez apenas castigado pela vida. – Acredite, você não agüentaria ficar perto do calor infernal e o cheiro de carne herege queimando. – responde um senhor com roupas um pouco melhores, um pouco mais limpo, mas com um destino não muito diferente da mendicância. Afinal, a França está falida e quase ninguém tem emprego. Com o crepúsculo, os postes começam a ser acesos e o cheiro de óleo queimando é sentido no pátio. Sangue, óleo, fogo, suor, lixo, seus cheiros estão sempre misturados na não tão bela Paris do século XIV. Soldados montados vão se aproximando e se posicionando, o que indica que o momento de mais uma execução está chegando. – Quem será dessa vez? – alguns se perguntam. As execuções sempre apresentam bom número de espectadores, mas essa tem superado as anteriores: nem sinal das autoridades e dos condenados e a Ilha da Cidade já está lotada. Isso porque todos esperam assistir a execução daquele que o povo considerava acima dos reis e abaixo apenas do Papa. O Grão-Mestre dos Templários, Jacques de Molay. Já fazia 07 anos que ninguém o via, desde aquela escura sexta-feira 13 que o povo tratou de guardar como maldita. Uns diziam que ele havia morrido nas torturas da Santa Inquisição. Outros que ele conseguira fugir para a Escócia com tantos outros Cavaleiros. A única coisa que todos concordavam é que era impossível um homem com seus 70 anos de idade sobreviver por tanto tempo a tanto tormento. Esse era o motivo para tanta gente estar ali: ver a queda de um homem que liderava reis e que sobreviveu ao insuportável.”
A Maçonaria foi e ainda pode ser dividida dualmente de várias diferentes formas: Antigos e Modernos, Graus Simbólicos e Graus Superiores, Regular e Irregular, etc. Mas outra dualidade muito clara que se tem na Maçonaria e ainda é pouco observada, dualidade essa presente em sua estrutura filosófica, está relacionada ao medo. Existe muito claramente na Maçonaria Ritos cuja Iniciação é baseada no medo e aqueles que não o são.
O que define um maçom? O que difere um maçom de um não-maçom? A Iniciação. Sendo a Maçonaria uma Escola Iniciática, é a cerimônia de Iniciação que promove a transformação do indivíduo, de um não-maçom para um maçom. Mesmo aqueles que se afastam da Maçonaria, voluntaria ou involuntariamente, continuam sendo maçons. Podem ser chamados de maçons adormecidos (saída voluntária) ou maçons excluídos (saída involuntária), mas não deixam de ser maçons. Isso porque se considera que a Iniciação é um ritual de renascimento, de passagem, que modifica moral e espiritualmente o ser humano, não podendo jamais ser desfeito. Não há, portanto, como “desiniciar” um maçom, voltando-o ao homem que era antes de ser iniciado.
A iniciação pode ser compreendida pelo mito da caverna de Platão. Após enxergar o mundo fora da caverna, não há como voltar ao estado anterior daquela crença nas sombras e ruídos. Não há volta. Assim como na alegoria, a iniciação age sobre a dualidade entre a ignorância e o conhecimento. O ignorante, ao tomar conhecimento, deixa de ser ignorante naquilo. Mesmo que ele não utilize do conhecimento adquirido, ele agora conhece e, portanto, não está mais submerso na ignorância. Assim como não há retorno à caverna para o liberto, não há retorno à escuridão da ignorância para o maçom. E com base nessa compreensão ontológica, entende-se que existe o maçom e o não maçom, não havendo possibilidade de existência de ex-maçom, meio-maçom ou semi-maçom.
Entretanto, a Iniciação na Maçonaria, apesar de possuir um núcleo comum presente em todos os ritos, é composta de diversos elementos que a diferem de um rito maçônico para outro, elementos esses ligados à proposta, história, culturas e valores de cada rito. E nos ritos que possuem o medo como um de seus princípios iniciáticos, muitos desses elementos próprios refletem isso: os momentos pré-iniciação promovidos tradicionalmente pelas Lojas; a câmara das reflexões, suas frases, objetos e escuridão; os testes físicos durante a iniciação, com seus riscos simbólicos; etc.
Essas iniciações “amedrontadoras” são a base dos ritos que podemos chamar de “latinos”, os quais sofreram forte influência de outras escolas iniciáticas, místicas e esotéricas. Todos esses elementos presentes nesses Ritos, e que claramente não são heranças da Maçonaria Operativa, servem para incutir no candidato o medo, testando sua coragem e força de vontade. Muitos desses elementos têm simbolicamente caráter eliminatório, ou seja, a reprovação pode acarretar na não iniciação do candidato. Na verdade, são empréstimos feitos de outras Ordens, devidamente modificados e “maçonificados” quando da construção de tais ritos. Trata-se de algo até de certa forma incoerente com a Maçonaria, uma fraternidade em que, tradicionalmente, os candidatos são devidamente escolhidos, garantidos, aprovados e convidados antes da Iniciação, estando ali de livre e espontânea vontade deles e de todos os maçons presentes, não havendo motivo para testá-los.
O único conteúdo genuinamente maçônico que, de alguma forma, pode ser considerado como relacionado ao medo são as penalidades, essas similarmente presentes em todos os ritos. Porém, não se trata de uma vivência de medo, como nas situações impostas nos ritos “latinos”, e sim da pura e simples ciência da existência de uma penalidade simbólica no caso de infração. Em outras palavras, dá-se conhecimento de um código de conduta a ser seguido e da penalidade simbólica aos infratores. Esse é o único elemento que pode ser considerado relativamente “amedrontador” nos ritos maçônicos anglo-saxões, como o York e o Schroeder, por exemplo.
Para se ter uma ideia da preocupação de algumas Grandes Lojas no mundo em realizar iniciações em que reine a sensação de confiança, e não de medo, aproximando-se ainda mais do espírito iniciático da Maçonaria Operativa, há alguns anos atrás a Grande Loja Unida da Inglaterra tomou a iniciativa de, mais uma vez, modernizar seus rituais, suprimindo tal trecho do juramento. Dessa forma, extinguiu-se dos rituais ingleses qualquer passagem pela qual possa ser criada uma sensação de medo no candidato.
De qualquer forma, como registrado anteriormente, é aquele núcleo comum que torna a iniciação verdadeiramente maçônica, distinguindo-a das demais iniciações. E como uma sociedade de pensadores livres, os grupos maçônicos organizados e regulares tiveram a liberdade de, na devida forma, construírem seus ritos, acrescentando a eles os elementos condizentes com os valores e crenças que compartilhavam. Resumindo, não há rito bom e rito ruim, não há rito melhor que o outro, e sim constructos diferentes sobre a mesma base maçônica. Cabe ao maçom, como um verdadeiro pesquisador da verdade, compreender tais formações epistemológicas, optando por aquela ou aquelas mais condizentes com suas crenças, seu modo de pensar, e respeitando os princípios que as regem. Com ou sem medo.