por Kennyo Ismail | fev 1, 2015 | Notícias
No dia 12/01 estive em visita à sede da Grande Loja de Cuba, um prédio edificado para abrigar a administração da Maçonaria Cubana. O destacado edifício, que possui em seu ápice um gigantesco globo terrestre coroado com o esquadro e o compasso, foi construído no coração de Havana com o suor dos mais de 30 mil maçons cubanos e inaugurado em 1955, teve na década de 60 a maioria de seus andares desapropriada pelo governo cubano em nome dos “melhores interesses do Estado”. Não obstante, a Grande Loja, apertada nos 30% que lhe restou de seu próprio edifício, seguiu sua trajetória em prol da sociedade, dedicando boa parte de seu espaço a uma biblioteca pública com mais de 45 mil publicações e um museu maçônico.
Durante as décadas de 60 e 70, a Maçonaria Cubana, então formada por homens das classes mais abastadas, viu seu número reduzir quase pela metade com a migração das elites para os Estados Unidos e outros países. Para sobreviver, a Grande Loja viu a necessidade de se reinventar, democratizando o ingresso à Ordem. Hoje, com mais de 29 mil membros e de 300 Lojas, é a maior Grande Loja da América Latina e Caribe, seguida por perto da Grande Loja do Estado de São Paulo.
Tive a oportunidade, nessa visita, de ser recepcionado pelo Mui Respeitável Grão Mestre da Grande Loja de Cuba, Irmão Evaristo Rubén Gutiérrez Torres, intelectual dedicado à Sublime Ordem; o Grão Mestre Adjunto, Irmão Julio Alberto Rojo Pumar, importante maçonólogo cubano; o Grande Secretário, Irmão Asdrubal Adonis Pages Manals; o Grande Secretário de Relações Exteriores, Irmão Raimundo Gomez Cervantes; e o Grande Orador, Irmão Alberto Perez Fiallo. Após a fraterna e calorosa recepção, fui convidado a assinar o ilustre livro de visitantes do exterior, concessão essa que muito me honrou.
Atendendo a convite do Grão Mestre Adjunto, participei no dia 24/01 de reunião conjunta de 15 Lojas em Templo localizado em Calabazar, na periferia de Havana, onde pude presenciar o desdobramento de uma ritualística impecável e uma excelente palestra, além dos reportes da filantropia (desde campanhas de doação de sangue até apoio a crianças enfermas) e demais atividades das Lojas presentes. 50% do recolhido no Tronco de Solidariedade foi destinado, como de costume, ao Asilo Nacional Maçônico, fundado em 1886, o qual tem o apoio institucional da Grande Loja e direção do Supremo Conselho.
Sinto-me imensamente feliz em ter podido presenciar uma Maçonaria que, apesar de todas as adversidades, serve de exemplo no cumprimento dos deveres maçônicos de Fraternidade, Caridade e busca pela Verdade. Uma Maçonaria com média de mais de 90 membros por Loja e com uma Loja em Havana com mais de 400 obreiros (uma única Loja com mais maçons do que nos países de Nicarágua, Costa Rica e Panamá). Uma Maçonaria que mantém um Asilo que abriga mais de 90 famílias. Uma Maçonaria com uma biblioteca que, provavelmente, tem o maior acervo maçônico da América Latina e Caribe e que conta com uma Academia de Altos Estudos Maçônicos com produção pujante e de qualidade.
por Kennyo Ismail | jan 5, 2015 | Crítica literária
O livro O LÍDER MAÇOM: como a Maçonaria tem formado líderes nos últimos séculos e colaborado para a felicidade da humanidade, teve seu pré-lançamento, em dez/2014, restrito aos membros do Círculo do Livro Maçônico da editora “A Trolha”, como já havia sido anunciado aqui no blog.
Agora o livro já está disponível aos demais interessados nas livrarias conveniadas e na Loja Virtual da editora A Trolha.
Contando com mais de 160 referências bibliográficas, a obra é resultado de uma pesquisa com aproximadamente 3.000 maçons, de todas as 27 Unidades Federativas do país e das três vertentes maçônicas brasileiras: GOB, CMSB e COMAB. Trata-se da primeira pesquisa social realizada em âmbito nacional sobre a Ordem Maçônica, e seus resultados foram surpreendentes.
Nas palavras do escritor e ilustrador maçom João Guilherme da Cruz Ribeiro: “Algumas de suas observações muitíssimo bem fundamentadas vão causar surpresa. Muita gente que repete asneiras sem fim vai levar bons sustos. E tudo é apresentado muito racionalmente, com método e sólidos alicerces. Irretorquível!”
por Kennyo Ismail | dez 29, 2014 | Conceitos
Em algumas eleições, em especial na Sublime Ordem Maçônica, não é raro vermos uma única chapa pleiteando o governo da fraternidade. Nesses casos, também não deixamos de assistir membros descontentes com essa situação. Os argumentos são quase sempre os mesmos: “a Maçonaria perde por falta de opções”; “a unanimidade é burra”; “isso não é um exercício de democracia”.
Uma das frases mais conhecidas entre os maçons norte-americanos é a de que “a harmonia é a força e o sustentáculo de todas as instituições bem regulamentadas, especialmente a nossa”. É esse poderoso princípio, a Harmonia, que muitas vezes torna possível a construção de uma coalizão, de uma aliança de grupos distintos em prol de um projeto único, de um bem maior para a organização maçônica.
Olhando para o histórico maçônico brasileiro, no qual desde as menores Lojas Maçônicas até as maiores Obediências têm sofrido cisões por conta de rachas políticos internos e disputas eleitorais nos últimos 182 anos, provocando a rivalidade e a divergência em nosso seio, não é difícil compreender a real importância de se priorizar tal princípio fraterno.
Quando uma coalizão maçônica é formada, vê-se nitidamente que não há falta de opções, mas sim uma união dessas opções, em que as diferenças entre as mesmas são superadas pelo desejo de construção de algo maior e, evidentemente, mais forte.
Se todos partirmos para a crença de que “a unanimidade é burra”, podemos logicamente deduzir que tal afirmação é burra, simplesmente por essa alcançar a unanimidade. O raciocínio não pode ser tão simplista assim. Há que se levar em consideração o complemento de Nelson Rodrigues, de que a unanimidade é burra se os membros não pensam, apenas seguindo o movimento dos demais. No entanto, se eles refletiram e optaram por se juntarem a tal movimento, isso não é burrice. É sabedoria.
Há várias unanimidades neste nosso mundo. Explodir o planeta, matando todos os seres vivos é uma unanimidade. Assim como precisamos preservar os recursos naturais para a sobrevivência da humanidade. Ainda, que a cultura e as artes são relevantes para as sociedades e seus indivíduos. Essas e tantas outras são unanimidades porque um simples raciocínio lógico sobre seus temas leva qualquer ser humano mentalmente capaz a concordar com elas. E, na Maçonaria, todo maçom concorda que a harmonia é melhor do que a desarmonia. Uma unanimidade.
Mas, e quanto a democracia? O maçom perde com uma chapa única? A Maçonaria perde? Democracia é um sistema de governo em que os membros elegem seus dirigentes. Ou seja, se você não perde o direito de votar, você não perde o direito à democracia. Assim, se há votação, a democracia está ali, presente. Isso porque, mesmo havendo uma única chapa, ela só será eleita pelo poder do voto da maioria dos membros da instituição. De toda forma, continuamos tendo a opção, o direito de escolha, de votar contra ou a favor.
E, nesse sentido, alegro-me em saber, por exemplo, que o GODF seguirá por tal caminho nas próximas eleições, com uma chapa única, capitaneada por Lucas Galdeano e Reginaldo Albuquerque, e abraçada por todos os diferentes grupos que compõem essa Obediência Distrital. Um pleito em que todos sairão vencedores. A sabedoria, tão almejada na Maçonaria, tem sido exercida, e a harmonia maçônica, com absoluta certeza, mais uma vez prevalecerá.
por Kennyo Ismail | dez 22, 2014 | Notícias
A Maçonaria Inglesa, tão superestimada pelos maçons brasileiros, sofre mais uma exposição pública negativa. Não bastasse já ter sido num passado não muito distante vítima de legislação que obrigava membros do judiciário e da polícia inglesa a informarem que são maçons (única instituição abrangida em tal obrigação), agora foi alvo do jornal THE GUARDIAN, um dos mais importantes e famosos jornais do mundo.
A matéria relaciona a Maçonaria à “Tragédia de Hillsborough”, ocorrida em 1989, quando 96 torcedores morreram e mais de 700 ficaram feridos em um incidente ocorrido em um estádio, durante um jogo de futebol das semifinais da Taça da Inglaterra. Um dos policiais ouvidos recentemente no inquérito denunciou uma suposta “conspiração maçônica”, liderada por maçons que eram oficiais superiores da polícia na época. Apesar de não haver quaisquer provas ou indícios que sustentem tal teoria, o inquérito continuará.
por Kennyo Ismail | dez 4, 2014 | Conceitos
Quem nunca ouviu a máxima de que “o trabalho dignifica o homem” a qual foi tão bem defendida por Voltaire, Adam Smith, dentre outros? Voltaire, maçom, registrou que “o trabalho nos afasta de três grandes males: o ócio, o vício e a pobreza”. Já na visão de Adam Smith, “onde predomina o capital, o trabalho prevalece”. Essa relação entre homem e trabalho não é apenas suportada pelas Ciências Sociais, mas também pelas ensinamentos judaicos, cristãos e islâmicos: “E também que todo o homem coma e beba, e goze do bem de todo o seu trabalho; isto é um dom de Deus.” (Eclesiastes 3:13); “Ora, o que planta e o que rega são um; mas cada um receberá o seu galardão segundo o seu trabalho.” (I Coríntios 3:8); “Que trabalhem por isso, os que aspiram lográ-lo!” (Alcorão, 37:61).
Este é um assunto sobre o qual as diferentes vertentes – socialistas ou capitalistas, ateus e crentes – concordam: o homem nasceu para trabalhar e viver dos frutos de seu trabalho. Na Maçonaria não é diferente: uma vez feito maçom, o Aprendiz já é chamado ao trabalho, sendo apresentado a ele suas ferramentas de trabalho.
Porém, um erro que muitos podem cometer ao promover uma abordagem simplista sobre o assunto é pensar que o trabalho dignifica o homem, pois através dele pode-se proporcionar uma vida decente para si e sua família. Tal raciocínio está equivocado, pois, nesse sentido, não seria o trabalho que dignifica o homem, mas o seu resultado: o salário. Cometer esse erro seria desonroso, negligenciando e zombando tanto o homem quanto o seu trabalho, por julgar que o trabalho só tem valor porque gera um salário e que o homem só trabalha para ganhar o seu próprio pagamento.
O trabalho produz mais do que simplesmente o salário do trabalhador. O trabalho gera um produto ou serviço que é demandado por outra pessoa ou pela sociedade. O trabalho gera habilidade e experiência para aquele que o executa. O trabalho cria não apenas relações comerciais, mas também sociais. Trabalho resulta em aprendizagem e conhecimento. Trabalho proporciona prazer quando bem feito. Trabalho estabelece parcerias.
Desse modo, o trabalho mostra que todos nós dependemos uns dos outros, porque um alfaiate não pode fazer um terno sem o agricultor que planta e colhe o algodão, o caminhoneiro que transporta o algodão para a fábrica, o operário da indústria textil que o transforma em tecido, o motorista da transportadora que entrega o tecido para o atacadista, e, finalmente, o atacadista que o fornece para o alfaiate. Apenas pelo trabalho de muitos trabalhadores, o alfaiate pôde realizar seu próprio trabalho. E o ciclo de trabalho não para por aí, visto que o terno produzido pelo alfaiate vestirá outro profissional, o qual depende não apenas do alfaiate, mas de muitos outros profissionais para sobreviver e poder desempenhar seu trabalho, do qual outros trabalhadores podem depender, incluindo o alfaiate.
Assim sendo, como pode o salário chamar a atenção quando o trabalho significa algo muito maior e muito mais relevante para a vida de todos os homens de boa vontade? Quando o trabalho cria uma riqueza muito mais valiosa, imensurável em comparação com o salário? Pensando assim, pode-se afirmar que o salário é, talvez, o resultado menos importante do trabalho, servindo apenas como moeda de troca para os produtos e serviços dos trabalhadores – algo necessário entre os homens para tornar o fruto de seus trabalhos mais acessível a todos.
Olhe para si mesmo e veja a imensidão que lhe rodeia. Veja cada objeto, parte e acessório que você está usando. Olhe para o ambiente ao seu redor e tente imaginar quantos trabalhadores de todo o mundo estiveram envolvidos na produção desses utensílios. Olhe para o celular que provavelmente está contigo agora. Imagine a energia que talvez mantém sua lâmpada ou computador ligado. Agora pense nas vastas redes de produção e de transporte e os milhares de trabalhadores envolvidos nelas para permitir que este livro estivesse em suas mãos neste exato momento, sem mencionar as paredes em que talvez se encontre e serviços de água, internet, telefone, etc. Sem dúvida, podemos dizer que milhões de trabalhadores de sua cidade, estado, país e inclusive de outros países estiveram e estão envolvidos na produção dos produtos e serviços que neste momento circundam você.
Às vezes, a pressa da vida diária não nos permite parar por alguns minutos e fazer essa reflexão. Simplesmente olhar ao redor e entender como todos nós somos dependentes do trabalho de inúmeros trabalhadores desconhecidos e sermos gratos a cada um deles.
Um dos principais ensinamentos maçônicos é o de que, para fazer qualquer trabalho, deve-se equilibrar três conceitos arquetípicos diferentes que são potenciais em cada um de nós: sabedoria, força e beleza. Somos ensinados que estes são pré-requisitos para qualquer grande e importante empreitada. Fugir disso pode levar à infeliz tendência de sacrificar um planejamento adequado, o refinamento estético ou a mão de obra adequada em uma tentativa equivocada de ser “prático”. Quando cometemos essa imprudência e erguemos uma estrutura sem a devida força ou beleza, não estamos conservando qualquer coisa de valor, senão sendo contrários aos melhores lições da tradição maçônica.
Pensando em termos individuais, não seria útil ter a vontade e a força para realizar um trabalho se o trabalhador não tem a sabedoria ou as habilidades necessárias para completá-lo. Da mesma forma, se tem a inteligência e a força para trabalhar, mas falta a vontade, significa que nada será feito. E do mesmo modo, é impossível para um trabalhador produzir apenas com a vontade e a inteligência, mas sem a força exigida. Ou seja, é necessário empregar todas essas três qualidades para que um trabalho seja feito de uma forma justa e perfeita. Este é o segredo da perfeição: não está no trabalhador, mas em seu trabalho.
Isso nos leva a uma característica essencial da Ordem Maçônica. Nossa tradição valoriza todas as classes sócio-econômicas e recusa-se a levar em conta a posição profana de um homem, a não ser em termos de seu caráter moral. É fácil de entender a partir desse ensinamento que nossa Ordem ensina a dignidade de todo o trabalho. Em seu clássico trabalho, Moral & Dogma, o célebre filósofo maçônico norte-americano Albert Pike ensina-nos:
Que nenhum companheiro imagine que o trabalho dos humildes e sem influência não vale o feito. Não há limite legal para as possíveis influências de uma boa ação ou uma palavra sábia ou um esforço generoso. Nada é muito pequeno. Quem está aberto para a penetração profunda da natureza sabe disso. Embora, na verdade, nenhuma satisfação absoluta poderá ser concedida à filosofia, mais em circunscrever a causa do que em limitar o efeito, o homem de pensamento e de contemplação cai em êxtases insondáveis, tendo em vista todas as decomposições de forças resultantes na unidade. Todos trabalham para todos. (DE HOYOS, Arthuro. Ed. Albert Pike’s Morals and Dogma of the Ancient e Accepted Scottish Rite of Freemasonry: Annotated Edition. Washington, DC: Supreme Council, 2011.)
Não é apenas o seu trabalho que o dignifica, mas o trabalho de todos os homens em todo o mundo que contribui para que você, um indivíduo, possa viver com dignidade. O maçom deve procurar compreender que o que o conecta a todos os homens de boa vontade do mundo é o trabalho digno que cada um realiza. Trabalho esse que, direta ou indiretamente, afeta todos os outros. Além da fé no Grande Arquiteto do Universo, o trabalho é um dos grandes laços que nos une em um vínculo que, mitologicamente, nós, como maçons identificamos como o mesmo vínculo compartilhado por aqueles que trabalhavam no Templo de Salomão.
Portanto, durante a execução de um trabalho perfeito, o trabalhador está aprendendo, desenvolvendo-se, evoluindo, interagindo com fornecedores e clientes, em parcerias, atendendo a uma demanda de um indivíduo, um grupo ou sociedade, gerando empregos, proporcionando felicidade para si e para os outros, contribuindo com o seu trabalho para a humanidade, e é isso que conecta todos os homens de bem no mundo. Há algo mais digno do que isso?