Lançamos recentemente um projeto de financiamento coletivo para publicação de mais uma obra na Editora No Esquadro: uma edição maçônica da Bíblia Sagrada.
É importante esclarecer que esta não é uma Bíblia Maçônica ou Bíblia da Maçonaria, algo que simplesmente inexiste. Esta é uma edição maçônica de uma Bíblia cristã, ou seja, uma Bíblia cristã para uso maçônico.
Como todo maçom bem sabe, a Maçonaria possui Três Grandes Luzes: o Livro Sagrado, o Esquadro e o Compasso. E, assim como não se costuma utilizar em nossas Lojas esquadros e compassos vendidos em papelarias, mas aqueles confeccionados para uso maçônico, o mesmo ocorre quando se trata da Bíblia Sagrada em muitos países, como nos Estados Unidos da América e na Inglaterra, onde edições maçônicas da Bíblia são relativamente comuns.
A finalidade desta edição maçônica é servir de referência no estudo das alegorias bíblicas presentes em diferentes graus da Maçonaria, o que, obviamente, não é oferecido em qualquer edição bíblica não-maçônica disponível.
Trata-se de uma edição da Bíblia KJV – King James Version (Versão do Rei James), acrescida de páginas iniciais dedicadas à Maçonaria, incluindo um dicionário bíblico-maçônico com as referências bíblicas contendo mais de cem verbetes, de forma a favorecer o estudo dos irmãos nos mais diferentes graus que compõem a Maçonaria em seus diferentes ritos e ordens.
Esse conteúdo adicional sobre a Maçonaria, seus graus simbólicos, altos graus e diferentes ritos e ordens que a compõem, bem como o dicionário bíblico-maçônico disponível, são ORIGINAIS e INÉDITOS. Ou seja, não são traduções de conteúdos de edições maçônicas de Bíblias publicadas no exterior, mas estudos e textos que, apesar de tê-las como referências, foram elaborados especifica e especialmente para esta edição brasileira.
Nessas páginas preliminares, a Loja ou o maçom que presenteia um candidato ou irmão tem um espaço destinado a fazer sua dedicatória. Ainda, há campos preenchíveis para fazer o registro das datas dos diferentes graus que galgar na Maçonaria, bem como em quais corpos maçônicos esses graus foram concedidos.
Para saber mais sobre o projeto e como participar, CLIQUE AQUI.
O mundo está ficando menos inteligente. E isso não é uma afirmação vazia: nos últimos anos, dezenas de estudos realizados nos mais diferentes países têm mostrado que, após décadas de crescimento contínuo na inteligência média da população (o chamado Efeito Flynn), os resultados começaram a despencar.
O Efeito Flynn, ou seja, o aumento contínuo da inteligência média, era explicado pela melhoria no consumo de nutrientes, mais investimentos em educação e crescente estímulo nos ambientes sociais. E não coincidentemente, o aumento da inteligência média sempre esteve diretamente relacionado com o aumento do hábito de leitura.
Já essa reversão no Efeito Flynn, ou seja, o emburrecimento geral, seria consequência de mudanças nos hábitos, com crianças, adolescentes e adultos a cada dia com mais horas diárias frente a uma tela (televisão, celular, computador, tablet), consumindo informação audiovisual em vez de leitura.
E por que a leitura estaria relacionada com a inteligência? Quando se lê, exige-se um esforço cognitivo maior para se compreender e imaginar do que o consumo audiovisual, que praticamente não exige esforço algum. É por isso que, para alguns, ler “dá sono”, mas maratonar uma série na TV, não. Ainda, a leitura gera um aumento de vocabulário, que também está diretamente relacionado à inteligência. Nós, humanos, somos seres sociais, com uma existência baseada em relações interpessoais, partindo da família, até a sociedade em geral. E toda interação é quase em sua totalidade feita por meio das palavras. Assim, quanto mais palavras você sabe, mais coisas (e mais complexas) aprende e compreende, e melhor se comunica. Com isso, tem-se uma evolução das ideias, teorias e, consequentemente, das ciências.
Se esse ritmo de queda na inteligência média continuar, acredita-se que a próxima geração de adultos ficará na média considerada “baixa inteligência” e que chamamos popularmente de “lesados”. No caso do Brasil, que tem em torno de 30% da população analfabeta funcional e enfrenta gradativa redução nos investimentos em educação, as consequências poderão ser desastrosas e permanentes. Ainda mais, considerando a quantidade de livrarias que fecham suas portas todos os anos, o aumento absurdo no preço do papel e, se não bastasse, esforços governamentais para tributar livros, que eram isentos no Brasil desde a década de 40.
As consequências da redução na inteligência média já podem ser vistas por aí. Entre elas, alguns pesquisadores apontam o crescimento do “viés de confirmação”: quando pessoas somente acreditam naquilo que está de acordo com suas crenças e opiniões, rejeitando todos os fatos e argumentos racionais contrários. Isso leva à simplificação de questões complexas, polarização de temas originalmente multifacetados, proliferação de fake-news e de teorias conspiratórias, dentre outros males.
Sem inteligência, também não há senso crítico, que é a capacidade de analisar questões racionalmente, sem aceitar de modo automático as informações ou opiniões de terceiros. E sem senso crítico, não há a tão mencionada busca da verdade; bem como o combate à ignorância, à intolerância e ao fanatismo; ambos objetivos da Maçonaria.
Um indício claro da falta de senso crítico num ambiente maçônico é a adoção e repetição de termos prontos, mesmo quando fogem da normalidade. Por exemplo: “Eu estou Venerável Mestre da Loja XYZ”. Quem fala assim, “eu estou gerente da empresa tal”? O normal é “eu sou gerente da empresa tal”. É assim que adultos falam! Como tantos irmãos podem cair no argumento infantil de que isso parece ruim? O verbo “ser”, conjugado no presente, indica apresentação em determinada posição ou condição atual (que é o caso de um VM). Já o verbo “estar”, quando empregado assim, presume permanência breve e passageira: “estou na rua e logo chegarei em casa”. Não se aplica a um cargo que se ocupa por um ano ou mais!
Outro exemplo é a condenação daqueles que dizem “ontem fui para reunião da minha loja”, pelo argumento, mais uma vez infantil, de que o termo “minha” é negativo, pois passa a ideia de que você é ou quer ser o dono da loja. Conforme o dicionário, “minha” também se refere a uma pessoa que pertence ou faz parte de algo. Ou seja, que não é dono, mas membro, como em uma Loja.
E como não mencionar o famoso e, ao mesmo tempo, falacioso termo “sou um eterno aprendiz”? Por que não mudamos então os nomes dos três graus simbólicos para Aprendiz I, Aprendiz II e Aprendiz III? Aprendiz é aquele que é novato em um ofício. Quando você tem mais de dez anos de Ordem, foi Venerável Mestre (“foi”, não “esteve”) e fala que é “um eterno aprendiz”, está apenas dizendo que é um falso modesto, que fere em seu discurso o sistema hierárquico educacional das antigas corporações de ofício, tão bem preservado na Maçonaria, apenas para parecer humilde.
E ainda há a clássica: “a Maçonaria é perfeita”. Então por que todo ano tem mudança na legislação maçônica e em algum ritual??? A Maçonaria não está em constante melhoria? Como uma instituição criada pelos homens pode ser perfeita? Se assim for, todas as instituições não são tão perfeitas quanto a Maçonaria? E para piorar, dessa nasceu aquela “mulher não entra na Maçonaria porque já é perfeita”. Tudo conversa pra boi dormir.
Agora, exerça seu viés de confirmação e faça interpretações tendenciosas para defender a manutenção do uso desses termos, tão esdrúxulos à luz do menor senso crítico. Assim, apenas reforçará ainda mais esta teoria do Efeito Flynn Reverso na Maçonaria.
O primeiro cuidado que se toma ao traduzir um termo é quanto à semântica, ou seja, o significado e uso das palavras e termos. Um exemplo clássico é o termo “kick the bucket”. Se traduzirmos ao pé da letra, seria “chutar o balde”. Contudo, a expressão “kick the bucket” é usada nos EUA quando alguém morre, enquanto o mesmo termo em português é usado quando alguém perde o controle ou desiste de algo. Assim, traduzir ao pé da letra pode muitas vezes passar uma ideia errada. Uma boa tradução para “kick the bucket” seria “bater as botas”, pois usa uma gíria similar para o mesmo uso e significado, que é o que realmente importa.
Esse cuidado básico de tradução não tem sido tomado em algumas traduções de rituais maçônicos que temos visto no Brasil. E duas palavras que têm ferido os ouvidos são Leste e Oeste, opção de tradutores brasileiros para East e West, em vez do usual Oriente e Ocidente.
Qual a diferença? Leste e Oeste são direções. Oriente e Ocidente são localizações. Na língua inglesa, East e West podem ser usados nos dois sentidos, mas na língua portuguesa, não. Como exemplo, tem-se o Oriente Médio, que em inglês escreve-se Middle East, não Middle Orient. E não o chamamos de Leste Médio, mas de Oriente Médio, por ser uma localização.
A exceção a essa regra é quando os termos Leste e Oeste estão acompanhados de uma localização ou região, seja na forma substantiva ou adjetiva. Exemplo: Leste Europeu. E mesmo assim, é comum o uso de termos como Europa Oriental. Entretanto, esse não é o caso do uso nos rituais maçônicos, não se aplicando tal exceção.
Em Loja, quando se pergunta de ONDE viemos e para ONDE vamos, está claro que se trata de localização, e não de direção. O mesmo quando se pergunta o LUGAR do Primeiro Vigilante ou do Venerável Mestre. O Primeiro Vigilante não se está no Oeste, porque Oeste é uma direção. Ele está no Ocidente. Além disso, os termos Oriente e Ocidente são de uso mais que bicentenário na Maçonaria brasileira, consolidados no vocabulário maçônico nacional.
Parece que a vontade de ser “diferente” dos demais pode ter falado mais alto. Mas a que preço? O ditado em latim “ex oriente lux” é traduzido para o inglês como “light from the east”. Mas, partindo do termo em inglês, ao seguir a regra de tradução desses irmãos inovadores, tem-se “a luz vem do leste”. Assim, o ditado perde todo seu significado filosófico. E o mesmo ocorre na Maçonaria.
Com certeza você já ouviu falar que “homens fortes criam tempos fáceis e esses tempos fáceis geram homens fracos; então os homens fracos criam tempos difíceis; e esses tempos difíceis geram homens fortes”. Essa crença popular coaduna com o entendimento de que alguns fatos históricos se repetem, tendo o tempo um comportamento de espiral, com alternações de polarização, ou seja, um ciclo, tão virtuoso quanto vicioso.
Na política isso é identificado com a alternância de governos de espectro progressista e conservador. O Brasil é um bom exemplo claro disso. Após um período conservador (Monarquia), veio um período de décadas de relativo progressismo (Primeira República). Então surge outro período conservador (Era Vargas), seguindo do retorno ao progressismo (República Populista). Daí, mais uma vez, o conservadorismo retorna (Ditadura Militar) até a volta dos progressistas ao poder. E agora, iniciou-se mais uma onda conservadora, em 2019.
Esse fenômeno não está restrito ao Brasil. É mundial. Como exemplo, tomemos a América do Sul. Na década de 70, enquanto havia Ditadura Militar no Brasil, o mesmo ocorria na Argentina, na Bolívia, no Chile e no Uruguai. Outros dados, mais recentes, são de que em 2011, Brasil, Paraguai, Argentina e Peru tinham governos progressistas; enquanto que em 2018 os mesmos países passaram a ter governos conservadores.
E quanto a Maçonaria? Seus postulados não deixam dúvidas ao declarar a Maçonaria como progressista, o que sobrevive em muitas das constituições das potências maçônicas e em suas apresentações em websites oficiais. Ela sempre atuou nesse sentido, seja no exterior como no Brasil, onde defendeu a independência, lutou pela abolição da escravatura e envolveu-se com a criação da República. Não por acaso, nossa bandeira ostenta a expressão “Ordem e Progresso”, de origem positivista, que fazia parte do vasto campo progressista.
Outra inegável evidência da essência progressista da Maçonaria é que ela foi perseguida nos períodos de conservadorismo mais radical. No Brasil, fechada duas vezes na Monarquia (1818 e 1822), voltou a ser fechada no Estado Novo da Era Vargas (1937). Nesse período da década de 30, com a onda conservadora que assolou meio mundo, foi fechada por Franco, na Espanha; por Mussolini, na Itália; por Salazar, em Portugal; e por Hitler, na Alemanha, que perseguiria maçons em outros países, durante a II Guerra Mundial.
Que sejamos claros: Progressismo é a favor de grandes inovações, transformações e reformas. Princípios como Igualdade de todos perante a lei, garantia de Liberdades fundamentais, Democracia, Equidade, Justiça Social e Laicismo são conquistas progressistas dos séculos XIX e XX. O Conservadorismo é contrário a essas mudanças, defendendo a retomada de um modelo político-social anterior ao gerado pós-Iluminismo, que propôs ao homem a emancipação da tutela da Igreja e do Estado autoritário por meio da razão, e ocasionou na separação Igreja-Estado e no surgimento do Ensino Laico e da Liberdade Religiosa, dentre outras benesses.
A grande mensagem do Iluminismo sobre política era de que o povo não precisa de um messias, um salvador da pátria, um herói, para dizer-lhes o que é certo e governa-los. O Chefe de Estado deve ser enxergado como um servidor público, ou seja, que está ali para servir o povo. Por essa razão, não precisa ser amado e defendido como se fosse seu melhor amigo ou um membro de sua família, pois qualquer coisa boa que ele faça não é mais do que sua obrigação em servir. Por outro lado, ele deve ser sempre fiscalizado e cobrado. Quer ser idolatrado? Vire artista pop ou jogador de futebol. Política é serviço público. Mas o Brasil não teve um movimento iluminista de fato e boa parte da população ainda não aprendeu essa lição.
A Maçonaria sempre defendeu a total separação entre Igreja e Estado (Religião e Política), o Ensino Laico, as Liberdades e a Igualdade. Desde suas primeiras publicações, na primeira metade do século XVIII, a Maçonaria considera que você ter uma religião diferente ou mesmo não crer em Deus não pode ser um crime ou impedi-lo de receber uma educação formal. Não podemos nos esquecer da chamada “Questão Religiosa” no Brasil, conflito entre Igreja Católica e Maçonaria na década de 70 do século XIX, exatamente pela Maçonaria defender essas bandeiras progressistas contra o conservadorismo dos sacerdotes ultramontanistas da época. Lembremos também que muitas das primeiras escolas laicas do Brasil foram de iniciativa maçônica.
O lema “Deus, Pátria, Família”, tão repetido na atual onda conservadora brasileira, era o lema dos Integralistas, grupo fascista que surgiu na década de 30 e foi bastante atuante no período mais conservador da Era Vargas. Esse grupo, liderado intelectualmente pelo antimaçom e antissemita Gustavo Barroso (uma espécie de Olavo de Carvalho com diplomas), era contra a Maçonaria. Barroso chegou a escrever livros atacando a Maçonaria, como “História Secreta do Brasil” e “Judaísmo, Maçonaria e Comunismo”.
O retorno do Conservadorismo ocasiona nisso, na proliferação de ideias integralistas, fascistas e nazistas. E essa proliferação começa a ficar evidente com a defesa de um terreno favorável ao nazismo em um famoso podcast, apoiada por uma discreta saudação nazista em outro programa. Há pesquisas que indicam que os grupos neonazistas cresceram quase 300% no Brasil nos últimos três anos e especialistas temem que o uso da violência seja alavancado por esses grupos.
E qual é a próxima vítima? Provavelmente a Maçonaria. É o que já está acontecendo nos EUA e em outros países. Em março do ano passado, um edifício maçônico foi incendiado por um conservador, em Vancouver, Canadá. Em janeiro deste ano, a sede da Grande Loja da Irlanda sofreu um incêndio criminoso. O mesmo ocorreu em um prédio maçônico de Ohio no início deste mês, seguido de uma publicação antimaçônica em redes sociais que sugeria novos incêndios, feitas por um famoso pastor evangélico norte-americano. Somente nesta semana, a porta de vidro da fachada da Grande Loja de Illinois foi apedrejada duas vezes. E lojas daquela jurisdição têm relatado outros casos de vandalismo.
Você acha que isso é muito distante da realidade brasileira? Não víamos inflação há trinta anos e olha ela de volta… Só é necessário que um conservador desorientado atire a primeira pedra, para experimentarmos esse pesadelo no Brasil. Caso isso aconteça, esperamos que nossas lideranças tenham postura diferente dos líderes maçônicos brasileiros no Estado Novo, que optaram àquela época por trair os irmãos e os princípios maçônicos, prostituindo a Maçonaria em troca de migalhas.
Por fim, quanto a você ser conservador e ser maçom, não há problema algum nisso. Assim como há pardo nazista, preto de alma branca, prostituta apaixonada e pobre contra o SUS, todos encontram de alguma forma uma lógica em seus raciocínios, de modo a não sofrerem uma dissonância cognitiva. Conservadores sempre foram e ainda são bem vindos na Maçonaria que, enquanto progressista, é tolerante (ao contrário do conservadorismo).