São Paulo, a “locomotiva do Brasil”, é a maior jurisdição maçônica do Brasil, somando quase 1/5 de todos os maçons do país. Nesse contexto, conforme a alegoria da Espada de Dâmocles, grandes poderes geram grandes inseguranças e atraem grandes riscos. Talvez seja por isso que os maçons paulistas vivenciaram o surgimento de nove obediências e potências originadas do eixo regular ao longo dos séculos XIX e XX.
Compreender as motivações que levaram a seus surgimentos e as relações significativas de impacto de umas sobre as outras é importante para um melhor entendimento acerca do caminho percorrido, que resultou no cenário atual, permitindo melhores posicionamentos frente ao pressuposto de repetição histórica.
Há cinco anos, experimentamos no meio maçônico brasileiro algo que vem sendo chamado de União da Maçonaria Regular brasileira. Nesse período, os conflitos entre potências simbólicas, daqueles que geravam rompimento de relações, proibição de visitação e similares, foi inibido ao máximo, com raras exceções.
Mas na Maçonaria brasileira, de tédio não morremos. Às vezes, tem-se ruídos envolvendo potência simbólica e ordens como DeMolay, Filhas de Jó, Garotas do Arco-Íris ou Estrela do Oriente. Vez ou outra, há problemas de potência simbólica com as chamadas “oficinas-chefe” de ritos. E ainda, esporadicamente, há desgastes entre uma potência e a confederação ou federação da qual faz parte. É certo, como 1+1=2, que em seu Estado já teve, tem ou terá um desses problemas.
Assim, fica claro que a união, de fato, da Maçonaria regular brasileira é igual pipoca no cinema: todo mundo quer, mas não é prioridade pra ninguém. Além disso, está mais do que comprovado que essa união surgiu em nível nacional, não de uma amizade fraterna e crescente entre as lideranças, mas de uma necessidade emergencial, que foi a separação entre GOSP e GOB. O fim da perseguição aos Grandes Orientes da COMAB, perpetrado entre 2014 e 2018, e a nova cláusula dos tratados firmados pelo GOB a partir de então, confirmam isso.
O problema é a visão de que o conflito GOB x GOSP é um problema dos outros, restrito apenas à Maçonaria Paulista. É como estar sentado numa ponta do barco vendo a outra ponta afundar e pensar que não tem nada com isso. Esse é um problema de toda a Maçonaria regular brasileira.
Por que? Simplesmente porque a Maçonaria é baseada em princípios, sendo que um dos principais é o direito à visitação. Sem poder usufruir desse direito, poucos são os maçons e lojas que suportam. Não por acaso, tem-se um histórico de que grande parcela de lojas e irmãos que aderem a uma cisão, retornam nos dois primeiros anos. O medo do isolamento sempre foi a âncora que freou muitas cisões ou trouxe muitos dissidentes de volta.
E isso também ocorreu com o GOSP: muitos irmãos e lojas retornaram ao seio do GOB, ou foram para a GLESP ou para o GOP. E entre os que ficaram, escuta-se reclamações da falta de fraternidade de lojas dessas outras potências, ao fecharem suas portas para eles. Até já se esqueceram de que, entre 2014 e 2018, enquanto ainda eram parte do GOB, algumas de suas lojas fechavam as portas aos irmãos do GOP. O mundo maçônico também dá voltas… É a lei da ação e reação: as lojas do GOSP que naquele período não se submeteram ao veto, que visitavam e recebiam visitas das lojas do GOP, provavelmente sofrem menos hoje do que aquelas que vestiram o perigoso avental da superioridade.
O negócio é que o GOSP é grande e, mesmo com as perdas, continuou consideravelmente grande. Não se pode ignorar o fato de que São Paulo é o maior estado brasileiro em população, além de principal centro financeiro e corporativo do país. É difícil encontrar alguém que nunca foi a São Paulo, que não tenha um amigo ou parente lá, ou que não tenha que ir a São Paulo a trabalho.
Por isso, para as potências que surgem de novas cisões, a existência de um GOSP dissonante da Maçonaria Regular Brasileira rompe a corrente dessa âncora, derrubando a barreira de isolamento. Os descontentes de uma potência num estado qualquer, que pensariam três vezes antes de fazer uma cisão, por medo de ficarem isolados, já não têm mais esse medo. E essas “melhores condições” para dissidências têm apresentado seus primeiros resultados.
Enquanto GOB-SP, GLESP e GOP se uniram e se blindaram, fechando suas portas ao GOSP… o GOSP abriu uma janela. E essa janela é para fora de SP, onde se tem, em algumas localidades, uma frágil união e um terreno fértil para cisões, com um GOSP esperando para reconhecê-las. E assim, os não-reconhecidos passam a se reconhecerem, reduzindo aquela sensação de ostracismo em seus membros.
Sendo um efeito já experimentado em alguns estados, e que pode alcançar outros, deveríamos priorizar, pelo menos temporariamente, uma dieta da pipoca: os grandes players poderiam começar a pensar na possibilidade de conversar sobre o assunto.
Acha exagero? Nem na época em que não havia “união”, havia tanta cisão! Isso porque, quando as três vertentes não se davam tão bem, os dissidentes de uma simplesmente migravam para outra. Agora, com a “união”, portas foram fechadas, e criar uma nova potência, alinhada ao GOSP e o novo bloco que se forma a partir dele, parece algo mais fácil e menos traumático.
Então, a união leva à cisão??? A verdadeira união, não… mas quando criada pela razão errada, pode causar. Uma ponte construída, não para aproximar as partes, mas para que uma parte more embaixo dela, não é um meio de união, mas de divisão.
E é chato dizer, mas isso merece mais atenção do Brasil do que o Paraguai.
A ciência da administração tem alertado, há mais de meio século, sobre o ciclo de vida das organizações. Uma organização é como um organismo vivo, que nasce, cresce alcança seu ápice, e então começa a envelhecer até que, enfim, morre. Entretanto, no caso das organizações, sua morte é como a da mitológica fênix, que pode renascer de suas próprias cinzas, começando assim um novo ciclo de vida.
O que muitas organizações buscam atualmente é “surfar” o máximo de tempo possível a onda da maturidade organizacional, ou seja, a crista de seu ápice. Já o diagnóstico de envelhecimento (decadência) é simples: ela começa a se preocupar mais com seu patrimônio do que com o mercado e clientes; perde o empreendedorismo e o pioneirismo no setor; afunda-se em burocracia e passa a ter dificuldade de “manobra”; tem excesso de confiança em si mesma em comparação aos seus pares; torna-se prepotente.
Após a fase da velhice, têm-se os primeiros sinais de morte iminente: mudanças drásticas de diretoria, perda de espaço no mercado, esfriamento das relações com os pares, rupturas, cisões, etc. E de quem é a culpa da morte? Das lideranças, seja por imperícia, negligência ou até mesmo “maus tratos”.
O GOB, como qualquer outra organização, tem seu ciclo de vida que, ao que tudo indica, dura aproximadamente 44 anos. Ao recorrer à história maçônica brasileira, sabe-se que o GOB, em seu formato atual, é resultado de uma fusão do Grande Oriente dos Beneditinos com o Grande Oriente do Lavradio, ocorrida em 1883, por pressão (ou incentivo, se preferir) do Grande Oriente Lusitano. Exatos 44 anos depois, em 1927, tem início o processo de falecimento, com o desligamento do Supremo Conselho do REAA e a consequente grande cisão que deu origem às Grandes Lojas, tendo o “óbito” sido emitido em 1929, no Congresso Mundial de Supremos Conselhos, ocorrido naquele ano em Paris.
Então, o GOB renasceu e iniciou um novo ciclo de vida, que findou exatos 44 anos depois, em 1973, após um processo eleitoral extremamente questionável, pelo qual o candidato de situação, Osmane Vieira de Resende, “ganhou no tapetão” contra o de oposição, Athos Vieira de Andrade, que era de MG e contava com o apoio de SP e de outros grandes colégios eleitorais. Nessa segunda grande cisão, nove Grandes Orientes Estaduais e o do DF se desligaram do GOB, dando origem à COMAB.
Mais uma vez o GOB conseguiu renascer, se reinventando e promovendo as mudanças que seus líderes entenderam como necessárias para o novo ciclo de vida. Até que, 44 anos depois, em 2017, a onda de suspensões e intervenções em Grandes Orientes Estaduais teve início, como em MG e no RS, principiando um novo processo de falecimento, que se arrastou até este ano de 2018, com mais suspensões, intervenções (CE e PE) e um turbulento processo eleitoral, o que culminou no já esperado óbito, ilustrado numa eleição de chapa única com baixa adesão e apoio, e na “desfederalização” (declaração de independência) de dois Grandes Orientes Estaduais: PE e SP.
Agora, cabe aos novos líderes do GOB tomar as medidas necessárias para garantir a “reciclagem”, o renascimento dessa grande fênix… Agora, imagine se, em vez de apenas renascer, uma fênix pudesse também evoluir e não repetir os mesmos erros do passado, prolongando assim seu ciclo de vida? Se ela não precisasse renascer já “velha”, burocrática, engessada e prepotente? Não seria ótimo?