por Kennyo Ismail | nov 3, 2011 | Crítica literária

Antes de mais nada, é importante registrar que José Castellani foi, sem dúvida, um dos maiores escritores sobre Maçonaria no Brasil. Um pesquisador sério, que muito pesquisou, escreveu e colaborou para o conhecimento maçônico, e por isso merece toda consideração e apreço da comunidade maçônica. As críticas feitas aqui são relativas à sua obra, “Maçonaria e Astrologia”, 3
a Edição Revisada, Editora Landmark, e ideias contidas nela, e não ao autor.
Vejamos alguns erros encontrados no livro:
ERRO 1
Às vezes, ao lermos alguns livros de Castellani, a impressão que dá é que, se você leu um, você leu 20% de todos. Isso porque parte do conteúdo de um parece estar sempre repetido nos outros.
Para verificar se eu não estava apenas “implicando” com os livros do autor, peguei um outro livro de sua autoria, intitulado “A ação secreta da Maçonaria na política mundial”. Não precisei procurar muito para descobrir que não se tratava de implicância, e sim de um fato real:
No livro “A ação secreta da Maçonaria na política mundial”, todo o Capítulo “Origens Históricas da Maçonaria” (páginas 13 a 20, Ed. Landmark) é IDÊNTICO ao Capítulo I da Parte II do livro “Maçonaria e Astrologia” (páginas 51 a 58 desta edição analisada), sem tirar nem pôr uma única vírgula.
Essa prática infelizmente parece sempre se repetir em suas obras. Seus livros são como colchas de retalhos.
ERRO 2
Na página 55 da referida edição, Castellani afirma que:
“(…) era patente o declínio das confrarias, no século XVI. (…) Estas, perdendo o seu objetivo inicial e transformando-se em sociedade de auxílio mútuo, resolveram, então, permitir a entrada de homens não ligados à arte de construir, não profissionais, que eram, então, chamados de maçons aceitos. (…) O primeiro caso conhecido de aceitação é o de John Boswell, lord de Aushinleck, que, a 8 de junho de 1600 foi recebido maçom – não profissional – na Saint Mary’s Chapell Lodge (Loja da Capela de Santa Maria), em Edimburgo, na Escócia.”
Em resumo, a visão apregoada por Castellani em, pelo menos, duas obras (com o mesmo texto, diga-se de passagem), é de que os maçons “aceitos”, ou seja, os “especulativos”, só surgiram na Maçonaria no final do século XVI. Porém, a Carta de Bolonha, documento histórico indiscutivelmente legítimo, comprova que, já no século XIII, havia pelo menos 10 maçons “aceitos” na Maçonaria de Bolonha.
ERRO 3
Sobre o nascimento da Primeira Grande Loja (pág. 56), há a seguinte afirmação:
“A admissão, em 1709, do reverendo Jean Théophile Désaguliers, nessa Loja, em cerimônia realizada no adro da Catedral de São Paulo, (…).”
Não existe qualquer literatura que confirme tal afirmação. Toda a literatura dá conta de que as primeiras menções sobre Desaguliers na Maçonaria se dão quando de sua eleição para Grão-Mestre. Por conta disso, Albert Mackey, um dos mais célebres pesquisadores e escritores maçons, registrou em seu livro “História da Maçonaria” que acredita que Desaguliers, Payne e Anderson foram iniciados imediatamente antes ou depois da criação da Grande Loja da Inglaterra (1717), já com o papel de serem líderes da mesma.
ERRO 4
Sobre a fusão da Grande Loja dos Antigos com a dos Modernos (pág. 64), Castellani escreveu:
“Em 1813, superadas todas as velhas rixas, os “Antigos” uniam-se aos “Modernos”, constituindo a Grande Loja Unida da Inglaterra (United Grand Lodge of England), que resolveu trabalhar segundo as normas ritualísticas dos “Antigos””.
Na verdade, quando da fusão das duas Grandes Lojas Inglesas, foi criada uma “Loja de Reconciliação”, no dia 07/12/1813, com o objetivo de definir as novas diretrizes ritualísticas. O resultado privilegiou os Modernos. As diretrizes firmadas pela Loja de Reconciliação foram adotadas pela Emulation Lodge of Improvement, fundada em 1823, quando da criação de seu ritual próprio, com poucas modificações.
O Ritual de Emulação é adotado pela maioria das Lojas Inglesas, mas não é o único, visto que cada Loja tem o direito de elaborar seus próprios procedimentos, desde que não fira as diretrizes da Grande Loja Unida da Inglaterra. A GLUI adota o Ritual Emulação em suas reuniões.
ERRO 5
O Capítulo III é sobre os Ritos Maçônicos. O primeiro Rito indicado por Castellani nessa obra é: “Rito de Emulação, ou de York” (pág. 68).
Em primeiro lugar, Emulação NÃO É rito. Emulação É ritual. Esse foi um erro extremamente grosseiro, pois o próprio Castellani inicia esse Capítulo explicando a diferença entre Rito e Ritual.
Em segundo lugar, é impossível misturar e confundir Emulação com York. O “RITUAL de Emulação”, composto apenas dos três graus simbólicos, nasceu após a fundação da “LOJA Emulação”, ou seja, ano de 1823. Já o RITO de YORK é composto por 13 graus e foi publicado nos EUA, em 1797, por Thomas Smith Webb, ou seja, pelo menos 26 anos antes.
ERRO 6
Ainda no pequeno capítulo dedicado aos Ritos Maçônicos, Castellani afirma:
“(…) o mais conhecido do público em geral, ou seja, dos não iniciados, é o rito que introduziu os Altos Graus maçônicos, acima do de Mestre Maçom: o chamado Rito Escocês Antigo e Aceito (…)”
Ledo engano. O Rito Escocês Antigo e Aceito tem como “data de nascimento” o dia 31 de Maio de 1801, quando foi fundado o 1o Supremo Conselho do mundo, em Charleston, Estado da Carolina do Sul, EUA. O Rito Escocês, composto de 33 graus, teve por base o Rito de Heredom, também conhecido como Rito de Perfeição, composto por 25 graus. Vê-se que o Rito Escocês já tomou por base outro Rito que já possuía Altos Graus. O próprio Rito de York, composto de 13 graus e publicado nos EUA em 1797, já estava em pleno funcionamento e possuindo 10 Altos Graus. A verdade é que, antes do Rito Escocês ser formado, existiram mais de uma centena de Ritos Maçônicos compostos por graus simbólicos e superiores.
ERRO 7
Mantendo a atenção sobre os Ritos, foi encontrado no livro o seguinte erro sobre o Adonhiramita: “O Rito Adonhirmaita surgiu em 1782, na França (…)”.
Ora, sejamos justos com o Rito Adonhiramita: a data de seu surgimento não é exata, mas sabe-se que o Rito surgiu, pelo menos, em 1744. Em 1782, ano que Castellani afirma que o Rito surgiu, ele já estava sofrendo sua decadência, sendo aos poucos abolido da França por conta do surgimento do Rito Moderno (1773).
ERRO 8
No Capítulo I da Parte III, referente ao Templo Maçônico (a partir da página 81), Castellani esqueceu de mencionar que um Templo Maçônico varia, e muito, de um Rito para outro. É dada grande atenção nessa obra aos detalhes da Abóbada Celeste, a Corda de 81 nós e as 12 Colunas Zodiacais, símbolos esses presentes num Templo do Rito Escocês, por exemplo, mas não presentes nos Templos de outros tantos Ritos. Informação essa importante, mas inexistente na obra.
ERRO 9
No Capítulo II da Parte III, que trata da Escala Iniciática (pág. 93), há uma outra omissão no mesmo sentido da anterior. Castellani registra que:
“(…) o candidato – como em outras instituições iniciáticas muito antigas, inclusive religiosas – fica encerrado, durante algum tempo, num compartimento isolado, como uma caverna, de onde ele sai, num determinado momento do ritual iniciático, como se saísse do útero para a luz. Em Maçonaria, esse compartimento é a chamada Câmara de Reflexão, onde o candidato permanece em meditação, antes de ser conduzido ao templo, para a cerimônia de iniciação.”
A Maçonaria não se restringe aos Ritos franceses e seus derivados. No Rito de York, Rito Schroeder e Ritual de Emulação, praticados no Brasil e em várias partes do mundo, o que existe é uma Sala de Preparação.
ERRO 10
No Capítulo III da Parte III, cujo título é “Os Cargos em Loja e os Sete Planetas”, o autor afirma:
“Embora existam variações, de acordo com o rito adotado pela Loja, alguns cargos são, geralmente, comuns a todos os ritos. São eles: DIGNIDADES:
Um Venerável Mestre, que é o presidente da Loja; um 1o Vigilante, que é o primeiro vice-presidente; um 2o Vigilante, que é o segundo vice-presidente; um Orador, que é o representante do Ministério Público maçônico em Loja, o guarda e defensor da lei; um Secretário, a quem compete lavrar as atas das reuniões e organizar o expediente.”
Relevando o erro de acrescentar o Secretário como uma Dignidade, algo com certeza não unânime a Ritos e Obediências, Castellani fez o favor de citar logo o ORADOR em sua lista. Ao contrário da afirmação, talvez o Orador seja o cargo mais INCOMUM a todos os Ritos, pois não existe no Rito de York, Rito de Schroeder e Ritual de Emulação. Mais uma vez, parece que Castellani só considera a existência dos Ritos “latinos”.
CONCLUSÃO
Apesar do livro conter partes copiadas de obras anteriores, além de alguns erros históricos e conceituais que, de certa forma, desprestigiam o maçom adepto de outro Rito que não o Escocês, trata-se de obra interessante, muito bem escrita (como todas do mesmo autor), e que vale como fonte de lazer e aprendizagem, bastando que o leitor tenha o devido senso crítico durante sua leitura.
por Kennyo Ismail | jul 20, 2011 | Crítica literária
Recentemente o portal “Terra”, em sua área sobre esoterismo, publicou um infográfico intitulado “Maçonaria de A a Z”, de autoria de Monica Buonfiglio. Apesar da iniciativa louvável, algumas informações contidas no material estão erradas:
A – a acácia não representa a inocência, e sim a imortalidade da alma.
B – a coluna Boaz nem sempre é na esquerda. Depende do rito. Já no caso do “bode”, esse costume do povo cochichar os pecados ao bode nunca existiu. Era o Sumo Sacerdote de Israel que, uma vez por ano, confessava os pecados do povo a um bode, o qual era enviado ao deserto para morrer, enquanto outro bode era sacrificado no templo. Entretanto, isso nada tem com a relação Bode & Maçonaria.
C – a Coluna do Templo de Salomão não se chamava Joab, e sim Jaquim. A corda do teto não tem 12 nós, e sim 81. Também não está presente em todos os ritos.
E – a estátua da liberdade não representa a deusa Sophia, e sim Marianne.
G – os três primeiros graus não são “obrigatórios”. Isso não existe. O mais adequado seria dizer que eles são “comuns” a todos os ritos.
H – o Hino não é sempre tocado na abertura dos trabalhos. E não é em todos os Ritos e Obediências que a bandeira fica na entrada do templo, pelo contrário.
J – Jabulon não é nome de Deus na Maçonaria que, de forma geral, O chama de “Grande Arquiteto do Universo”.
L – O recebimento dos dois pares de luvas não está presente em todos os ritos.
M – malhete e maço são coisas completamente diferentes.
O – Os ossos e crânio não estão presentes na iniciação em todos os ritos.
P – o termo “Pedreiros Livres” não era porque eram homens livres de pensamento. O termo era usado porque eram profissionais com liberdade para viajarem e desempenharem suas funções.
R – Ser casado não é um requisito para ingressar na Maçonaria. Nem todas as Lojas têm reuniões semanais, algumas são quinzenais ou até mensais. Na lista dos ritos, esqueceram do Rito Brasileiro e do Ritual de Emulação, também praticados no Brasil. Além disso, a Maçonaria Universal não se restringe apenas a esses, pois há dezenas de outros ritos e rituais que, apesar de não serem praticados pela Maçonaria Regular Brasileira, são praticados em outros países.
U – a letra U não é sagrada pros maçons. Se tivesse que destacar uma letra, com certeza seria a “G”.
X – não é em todos os ritos que os templos têm pavimento mosaico.
Y – o rito de York foi fundado nos EUA em 1797, e não em 1799.
Z – nem todos os templos têm as colunas zodiacais.
por Kennyo Ismail | mar 1, 2011 | Crítica literária
Certo dia, um valoroso Irmão proferiu na Sala dos Passos Perdidos o seguinte questionamento:
“Com tantas informações divergentes de autores de nossa literatura maçônica brasileira, há algum autor ou obra que se pode confiar?”
Por sorte, existem algumas obras que merecem nossa atenção.
Quando se trata de Rito Escocês, um dos problemas que se vê no Brasil é que os principais autores simplesmente não eram membros do Supremo Conselho regular do Rito Escocês no Brasil: o “Supremo Conselho do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceito da Maçonaria para a República Federativa do Brasil”, sediado em Jacarepaguá, Rio de Janeiro. Por esse simples motivo, as portas dos Supremos Conselhos regulares de todo mundo, incluindo seus materiais litúrgico, ritualístico e arquivos, estiveram sempre fechadas para esses autores. Portadores de vasta literatura, porém pobres de conteúdo “direto da fonte”, suas fontes eram parciais ou mesmo apócrifas. Assim reinou nessas obras, apesar de algumas verdades, a divulgação de muitos “achismos”.

Fugindo dessa regra, temos o livro “Os Fios da Meada”, do Irmão João Guilherme C. Ribeiro. Alguns anos atrás o Irmão João Guilherme aceitou um interessante desafio do regular Supremo Conselho do REAA: desenhar os painéis dos 33 graus. O Irmão João, não somente extremamente inteligente como também um excelente profissional, aprofundou-se de sobremaneira em sua pesquisa para a execução da missão da forma mais Justa e Perfeita. Portador de uma visão holística da Maçonaria, visto ter sido iniciado no Rito Escocês, introduzido o Ritual de Emulação no âmbito da GLMERJ e ser o tradutor dos Rituais do Rito de York para o português, o Irmão João Guilherme conseguiu reunir vasto material e dados verídicos que, não bastasse ser o necessário para a conclusão dos 33 painéis, serviu de combustível para a elaboração desse livro tão objetivo e esclarecedor.
“Os Fios da Meada” é uma obra repleta de ilustrações e citações, promovendo através dessas uma viagem histórica do Rito até os dias atuais em solo brasileiro. A obra conta ainda com prefácio de ninguém menos que o Soberano Grande Comendador, Irmão Luiz Fernando Rodrigues Torres, o que dá à obra seu devido valor como literatura confiável e pronta para ficar na história do Rito Escocês no Brasil.
O livro pode ser adquirido no site “Arte da Leitura“, assim como “O Livro dos Dias”, uma espécie de agenda maçônica com os registros dos principais fatos históricos da maçonaria mundial, e o Almanaque “Engenho & Arte”, contendo interessantíssimas matérias maçônicas para o deleite dos Irmãos.