EM DEFESA DA MAÇONARIA

EM DEFESA DA MAÇONARIA

Não há aquele registro certo pelo qual começar, muito menos pelo qual terminar, pois a totalidade de situações que levaram a Maçonaria brasileira ao cenário de hoje, e que embasam o raciocínio aqui apresentado, não somente estouraria a quantidade máxima de caracteres recomendada a um pequeno artigo, como explodiria até mesmo a mais extensa das enciclopédias.

Assim, na certeza de que fatos importantes ficarão de fora, dar-me-ei a liberdade de citar apenas alguns, mais recentes e, por isso, frescos na memória, como meio de ilustrar o raciocínio a ser apresentado.

O conceito mais comum de maçonaria é a de que é um “belo sistema de moralidade”. Em outras palavras, uma escola de moral e ética social. Essa escola possui princípios muito bem determinados e regras internacionais que separam o joio do trigo e garantem certa universalidade entre os homens teístas de bem. Ou seja, homens que creem em Deus e são dignos e idôneos, independente de raça, credo, ideologia política e classe social. É por essa razão que praticamente todos os rituais, na parte dedicada ao escrutínio, alerta aos irmãos para não votarem baseados em diferenças pessoais e preconceitos, mas única e exclusivamente na moral apresentada pelo candidato. É difícil? Sim. Mas é o certo, principalmente em se tratando de uma escola de moral na qual os membros buscam vencer suas paixões, vícios e preconceitos.

Nos últimos anos, temos observado os muros levantados por uma obediência maçônica no Brasil perante outras, mesmo após décadas de convívio relativamente fraterno. As atitudes de seus dirigentes levaram, depois de alguns lamentáveis episódios no exterior abafados no Brasil, no recente escândalo de seus ostracismos da única confederação maçônica relevante em todo o continente americano. A justificativa do Grão-Mestre a seu povo maçônico é de que está apenas seguindo as leis maçônicas de sua obediência. No entanto, em nenhum trecho de todo o arcabouço legal daquela obediência há uma determinação para que seus dirigentes promovam ofensivas contra obediências não-reconhecidas em suas viagens ao exterior. Se não quer, não as reconheça… mas não precisa persegui-las. Não há justificativa legal para isso, muito menos moral.

Essa mesma obediência é a que contava em seus quadros com José Roberto Arruda, que, enquanto Senador da República, renunciou por ter adulterado o painel de votação do Senado. Arruda posteriormente entrou para a história como o primeiro Governador a ser encarcerado durante o mandato, e foi cassado por conta do chamado “mensalão do DEM”. Foi expulso? Não. Recebeu o Quite Placet para retornar num futuro próximo.

Também é dessa obediência o “irmão” Gim Argello, ex-Senador da República condenado por corrupção e lavagem de dinheiro, e que responde a outros processos por apropriação indébita, peculato e organização criminosa. Expulso? Também não.

E o triângulo fraterno-político dessa obediência pode ser completado por Roberto Jefferson, deputado-federal que teve seu mandato cassado e direitos políticos suspensos por 8 anos, considerado o pai do mensalão, por ter sido o primeiro a delatá-lo. Foi condenado na justiça por corrupção e lavagem de dinheiro. Expulso? Não. E, ao que parece, em breve regularizado.

E não se pode deixar de mencionar o “irmão” Michel Temer, da mesma obediência, atualmente “adormecido”, atual Presidente da República que foi recentemente flagrado em atitudes um tanto quanto questionáveis. Ele somente não formou um “quadrado” com os demais neste artigo porque (pelo menos, ainda) não é um criminoso condenado que experimentou noites aprisionado, como os anteriores mencionados.

Em vez de gastar o dinheiro pago pelos irmãos em viagens para o exterior com fins de promover campanhas contra o reconhecimento de outras obediências brasileiras… em vez de apontar o dedo para os outros… não seria melhor olhar para si mesmo e retificar-se? “Limpar a casa”? VITRIOL.

Porém, esse namoro maçônico com a política profana não é exclusividade dessa obediência no Brasil. Desde o período de campanha eleitoral de 2014 venho alertando para uma infração generalizada na Maçonaria brasileira, cometida por diversas obediências, independente de vertente.

É importante esclarecer que, em 1938, a Grande Loja Unida da Inglaterra publicou, em conjunto com as Grandes Lojas da Escócia e da Irlanda, “The Aims and Relations of the Craft”, uma declaração dos princípios fundamentais que serve de base para o reconhecimento da regularidade de prática de outras obediências. O item 6 dessa declaração registra claramente que:

Enquanto a Maçonaria inculca em cada um dos seus membros os deveres de lealdade e de cidadania, reserva-se ao indivíduo o direito de ter sua própria opinião em relação a assuntos políticos. Entretanto, nem em uma Loja, nem a qualquer momento em sua qualidade de maçom, lhe é permitido discutir ou fazer promover seus pontos de vista sobre questões teológicas ou políticas”.

Assim como essas, outras importantes Grandes Lojas pelo mundo têm regras explícitas e severas contra o envolvimento político da maçonaria. A Grande Loja Nacional Francesa – GLNF, por exemplo, já fora duramente punida, tendo perdido reconhecimentos e caído em um “ostracismo” maçônico a nível internacional por ter se aventurado em emitir opiniões políticas (uma carta aberta em apoio a um candidato a presidência, publicada em 2010). Foram anos para reverter o estrago e retomar os reconhecimentos que havia perdido.

No entanto, a maçonaria brasileira não foi capaz de aprender com os erros das outras. No período de campanha eleitoral de 2014, várias foram as obediências que se manifestaram publicamente, em alguns casos em cartas abertas como a da GLNF, em apoio ao Aécio Neves, então candidato a Presidência da República, e recentemente afastado do Senado e investigado por diversos crimes, graças às gravações e delações dos gestores da JBS.

Esse comportamento pode ser explicado, mas não justificado, pelo fato de que muitas lideranças maçônicas possuem filiações, interesses e até mesmo pretensões políticas. E muitos são os irmãos que apoiam tais manifestações, colocando suas opiniões políticas individuais acima dos princípios maçônicos institucionais, porque alimentam a vaidade de ostentar a crença imaginária de que a maçonaria tem peso e influência política nacional. No fundo, sabemos que não tem.

Estas últimas afirmações são claramente sustentadas pela quantidade de lideranças que, ao final de seus mandatos maçônicos, candidatam-se a cargos públicos; pelas inúmeras palestras e escritos de intelectuais da maçonaria em defesa de que a mesma assuma posição de elite estratégica brasileira; e pela formação de grupos maçônicos de ação política, que não conseguem reunir algumas centenas de irmãos, mas se vangloriam da eleição de meia dúzia de vereadores e um ou outro prefeito maçom, que obviamente não foram eleitos por tais iniciativas ou por suas condições de maçons.

Então, pelo menos no que tange ao ativismo político, não há como distinguir o que é pior. Pois, sendo a maçonaria essa “escola de moral e ética social”, enquanto a iniciação e não-expulsão de políticos corruptos fere a moral; a manifestação a favor deste ou daquele candidato (nesse caso, também corrupto) é maçonicamente ilegal, ferindo assim a ética social.

Enfim, já que não fomos capazes de aprender com os erros das outras, que possamos dessa vez aprender com nossos próprios erros. No próximo ano haverá novo período eleitoral. Mesmo que a maioria dos irmãos de uma obediência seja a favor de determinado candidato, vençamos nossas paixões em respeito àqueles que foram, são ou um dia serão irmãos e têm o direito de pensarem diferente e de terem suas opiniões respeitadas. O princípio da universalidade ideológica na Maçonaria não pode ser ferido de morte. E assim também prevenimos que nossas obediências não sejam apontadas como apoiadoras ou até mesmo abrigo de corruptos, e expostas ao ridículo.

A Maçonaria que não conhece a sua história está condenada a repeti-la

A Maçonaria que não conhece a sua história está condenada a repeti-la

Atualmente o Brasil tem enfrentado uma de suas maiores crises políticas, o que tem incitado maçons e grupos de maçons a defenderem a bandeira da atuação política da Maçonaria, muitas vezes apelando à suposta atuação política da Ordem na história do Brasil.

Muitos são os maçons, Lojas ou até mesmo Obediências maçônicas brasileiras que acreditam que, na qualidade de maçons ou da Maçonaria, podem exprimir opiniões favoráveis ou contrárias a algum político ou partido político.

Deve-se levar em consideração que, em 1938, a Grande Loja Unida da Inglaterra e as Grandes Lojas da Escócia e da Irlanda publicaram conjuntamente, “The Aims and Relations of the Craft”, que basicamente é a relação dos princípios fundamentais da Maçonaria, que garantem a regularidade dessas três Grandes Lojas e daquelas que as mesmas reconhecem ou venham a reconhecer. Esses princípios são compreendidos como universais pela comunidade maçônica regular internacional. Observe com atenção o item 6 de tais princípios:

 Enquanto a Maçonaria inculca em cada um dos seus membros os deveres de lealdade e de cidadania, reserva-se ao indivíduo o direito de ter sua própria opinião em relação a assuntos políticos. Entretanto, nem em uma Loja, nem a qualquer momento em sua qualidade de maçom, lhe é permitido discutir ou fazer promover seus pontos de vista sobre questões teológicas ou políticas (GRIFO NOSSO).

 Ora, tendo a Ordem Maçônica seu aspecto de universalidade no que tange a religiões e convicções políticas, que se autodeclara eterna defensora das liberdades civil, religiosa, política e intelectual, como poderia a mesma permitir um posicionamento maçônico que emita preferência política a favor ou contra quem ou o que quer que seja, sem desrespeitar o direito universal de seus membros, independente se maioria ou minoria, e, principalmente, sem desrespeitar sua própria natureza?

É por essa razão que uma das obrigações maçônicas mais antigas declara que “um maçom na sua qualidade maçônica não faz nenhum comentário sobre política, ou que possa ser interpretado como se aliasse sua Grande Loja com um determinado partido político ou facção”.

E a Maçonaria Regular leva esse princípio e essa regra muito a sério. Tanto que, há poucos anos atrás, a Grande Loja Nacional Francesa perdeu o reconhecimento das mais importantes Grandes Lojas da Europa, da América do Norte e de outras partes do mundo, simplesmente por ter publicado uma carta aberta de apoio a um candidato. E muito precisou ser feito para que a GLNF começasse a recuperar, aos poucos, tais reconhecimentos. No entanto, por alguma razão, algumas instituições maçônicas brasileiras cometeram irregularidade idêntica na última eleição presidencial. Sorte que a repercussão de uma carta aberta da Maçonaria no Brasil tem muito menos relevância, impacto e divulgação do que em outros países.

Mas você tem total direito de pensar que, se for para a Maçonaria mudar o país, “vale o risco”. Entretanto, parafraseando Burke, “a Maçonaria que não conhece a sua história está condenada a repeti-la”. Convido-o a analisar quais foram as consequências da atuação política da Maçonaria brasileira:

Em 1816 é fundada em Pernambuco a Grande Loja Provincial de Pernambuco, tendo como seu Grão-Mestre o Irmão Antônio Carlos de Andrada e Silva. Ela era subordinada ao Grande Oriente Brasileiro, fundado em 1809, em Salvador – BA, a verdadeira Primaz do Brasil (não confundamos com o Grande Oriente do Brasil, fundado apenas em 1822, no Rio de Janeiro). Essa Obediência pernambucana, em menos de um ano depois de sua fundação, foi a principal promotora da Revolução Pernambucana. Resultado: uma lei régia de 1818 proibiu o funcionamento da Maçonaria no Brasil, fechando as portas do Grande Oriente Brasileiro, de sua Grande Loja Provincial de Pernambuco e de todas as suas Lojas. E a Maçonaria brasileira demorou quatro anos para se recuperar do tombo e se reorganizar.

Então chegamos no período entre junho e setembro de 1822, utilizado como argumento maior dos defensores de tal atuação política por parte da Ordem, quando temos o surgimento do Grande Oriente do Brasil e sua intenção de promover a independência do Brasil. Com apenas três Lojas (a anterior, de iniciativa nordestina, tinha 09 Lojas quando foi fechada), o GOB já se encontrava totalmente dividido pela questão política, tendo à época a polarização entre a turma de Lêdo e a turma de Bonifácio. Um grupo perseguia o outro pública, política e legalmente. Isso foi bom para a fraternidade? Certamente que não. Havia harmonia nas Lojas e na Obediência? Com absoluta certeza, não. E dessa vez valeu a pena? Vejamos… O GOB não colaborou com a Independência, realizando uma reunião sobre o assunto dois dias após Dom Pedro I já tê-la declarado e comemorado em São Paulo, e um dos primeiros atos do novo Imperador foi ordenar o fechamento das portas da Obediência e suas Lojas, proibindo a Maçonaria, o que fez com que a Ordem, mais uma vez, adormecesse. Dessa vez por uma década inteira.

Poderíamos prosseguir com tal análise histórica, como na Era Vargas e na Ditadura Militar, mas não se faz necessário. Fato é que, quando as organizações maçônicas brasileiras se envolveram em questões políticas, elas sucumbiram ou traíram seus próprios princípios e membros, tornando-se apoiadoras de regimes não democráticos (mesmo a Maçonaria sendo a mãe da democracia moderna) e às vezes até expulsando, ou pior, delatando, membros da Ordem que eram no mundo profano declaradamente de ideologia oposta a tais regimes outrora instalados. Resumindo, a atuação política da Maçonaria brasileira (clara irregularidade maçônica) só obteve como resultado sérios prejuízos à fraternidade, entre perseguições e injustiças a irmãos; divisões; traições; adormecimento institucional; desvirtuação e descumprimento de princípios; etc. E nós, como maçons, não podemos permitir que tal irregularidade e tamanhos prejuízos continuem a ser produzidos pela simples vaidade de alguns irmãos que querem se declarar membros de uma instituição protagonista de mudanças políticas.

Afinal de contas, Maçonaria é uma bela escola de moralidade, baseada em alegorias e símbolos. Não é partido político nem tem objetivo ou finalidade questões políticas. Seu objetivo de promover a felicidade da humanidade é pelo amor, pelo auto aperfeiçoamento, pela tolerância pelo respeito às opiniões de cada um, ou seja, princípios e valores morais que ela ensina. Não é por meio da derrubada, permanência ou mudança de políticos, partidos ou regimes de governo. Se um maçom deseja isso (e tem total direito de desejar), que corra atrás, mas bem longe da Maçonaria, sem uso do esquadro e do compasso para tal.

Se uma Loja ou Obediência comete a irregularidade maçônica de apoiar A, como ficam os maçons, mesmo quando minoria, que apoiam B, C ou D? Ou mesmo, que optam pelo voto nulo ou em branco? Desde quando deixamos de nos colocar no lugar do próximo, de dar o benefício da dúvida, para nos tornarmos os detentores da verdade absoluta? Desde quando a seara política se tornou um campo preto e branco, de lado 100% certo e outro 100% errado?

O maçom, na qualidade de cidadão, tem total direito e até dever cívico de atuar politicamente. Enquanto maçom, não. Se exigimos o terno ou balandrau preto dentro de Loja, e temos uma justificativa de neutralidade e universalidade para isso, não podemos concordar com uma camisa amarela ou vermelha estampando o esquadro e o compasso. Nosso primeiro dever enquanto maçom é preservar a Maçonaria. E não é isso que temos visto por aí. Não precisamos estar condenados a repetir os mesmos erros do passado. Sejamos melhores que nossos antecessores, ou essa escola de moralidade não estará cumprindo seu dever de aperfeiçoamento moral a que se tem prestado há séculos.

GAYS NA MAÇONARIA

GAYS NA MAÇONARIA

Este é um grande tabu na Maçonaria brasileira. Um assunto tão polêmico que é evitado, a ponto de eu ter recebido algumas solicitações para não o incluir na obra DEBATENDO TABUS MAÇÔNICOS.

Sem entrar no mérito da discussão (que nem ao menos é realizada), me aterei aos fatos relacionados ao tema no meio maçônico internacional, de forma a fornecer informações aos interessados em, quem sabe, um dia debate-lo.

No caso dos Estados Unidos, recentemente duas Grandes Lojas, da Geórgia e de Tennessee, se pronunciaram oficialmente contrárias ao ingresso de homossexuais na Maçonaria. Essas posturas têm gerado manifestações de outras Grandes Lojas, como a da Califórnia, que se pronunciou publicamente sobre o assunto, como pode ser visto no seguinte trecho:

Você pode ter lido sobre os recentes acontecimentos em alguns estados dos EUA, incluindo Geórgia e Tennessee, onde Grandes Lojas Maçônicas adotaram novas regras ou tem imposto regras existentes que disciplinam os maçons por sua orientação sexual. Tais regras e ações não coincidem com os princípios da Maçonaria praticados pela Grande Loja da Califórnia e não são apoiadas pelo que entendemos como o grande objetivo da nossa fraternidade.

(…)Maçonaria instrui seus membros para defender e respeitar as leis do seu governo e não para minar essas leis (…).

Com mais de 50.000 membros em todo o estado, as lojas sob a Grande Loja da Califórnia estão abertas a homens de bom caráter e fé, independentemente da sua raça, cor, crenças religiosas, opiniões políticas, situação econômica, orientação sexual, capacidade física, cidadania ou nacionalidade (..).

Sincera e fraternalmente, M. David Perry, Grão-Mestre.

Agora, vejamos a postura oficial da Grande Loja de Utah:

(…) A Mui Respeitável Grande Loja de Maçons Livres e Aceitos de Utah recebe em suas portas e admite a seus privilégios, homens dignos de vários credos e classes. No entanto, ela insiste que todos os homens estarão sobre uma exata igualdade. Como esta Grande Loja não se preocupa com a fé de um Mason religioso, origem étnica e raça ou, também não se preocupa com a preferência sexual de um maçom. Tudo o que se pede é que um maçom de Utah observe bem seus deveres e promova o bem da Fraternidade dentro dos limites de sua Loja e da comunidade em torno dele.

Atenciosamente & Fraternalmente,

R. Wesley Ing, Grão-Mestre.

A Grande Loja do Distrito de Columbia também se pronunciou a respeito:

Em resposta às recentes questões apresentadas a esta Grande Loja sobre as qualificações e elegibilidade dos homens que pretendem aderir em nossas Lojas, oferecemos esta declaração de princípios inabalável: A admissão à participação em nossas Lojas é estendida a homens de fé com base em seu mérito pessoal e bom caráter, sem distinção de raça, credo, orientação sexual, religião específica ou nacionalidade.

(…) A diversidade da nossa sociedade, em termos de raça, credo, orientação sexual, religião específica e origem nacional é, assim, visto como um ativo, em vez de um passivo (…).

(…) Nossa dedicação à diversidade não nasceu em Washington, DC. A lei em todo o mundo maçônico e prática desde os dias de Constituições de Anderson desfavorece claramente a exclusão dos homens com base em modos de crenças, experiências e estilos de vida que gozam de proteção legal em suas sociedades (…).

E no dia 1º de março deste ano, o Supremo Conselho do REAA da Jurisdição Sul dos EUA, conhecido também como o Supremo Conselho “Mãe do Mundo”, se posicionou quanto à polêmica:

A associação ao Rito Escocês é baseada em integridade pessoal e bom caráter, sem distinção de raça, crenças religiosas, orientação sexual ou nacionalidade.

Christopher Hodapp, importante escritor maçônico, também se declarou a respeito na última Conferência de Grão-Mestres da América do Norte:

Apenas 10 anos atrás, ninguém teria sequer contemplado as complicações maçônicas do casamento gay e, de repente, jovens maçons ficam chocados quando descobrem que algumas jurisdições têm regras que discriminam membros gays. Toda a nossa sociedade mudou rapidamente, num piscar de olhos, e nós temos que lidar com isso. Porque, se estamos contando com esses novos homens para se unirem, se tornarem ativos na Maçonaria, e salvarem nossa fraternidade do esquecimento, não podemos simplesmente ignorar os problemas que eles consideram ser de importância vital como sendo trivial (…). Nós lhes dizemos, muitas vezes, ali mesmo em nossas páginas, que ensinamos tolerância. Nós não podemos voltar atrás nessa promessa.

Lembrando ainda que a Grande Loja da Geórgia, uma das duas que se posicionaram oficialmente contra, já havia se envolvido anteriormente em polêmica discriminatória, ao tratar da proibição de ingresso de maçons que não fossem brancos. O preconceito parece ainda ser um problema em alguns estados dos EUA.

Sou da opinião simples de que o que um maçom faz entre quatro paredes somente diz respeito a ele, e que imprimir opiniões pessoais em legislação maçônica não condiz com os princípios da instituição. Sendo a Maçonaria uma escola de moralidade, a partir do momento que a homossexualidade não é considerada uma imoralidade, não há que se falar em impedimento por essa razão. A crença de que assim se está protegendo a instituição esbarra no fato de que a parcela da sociedade contrária à homossexualidade é preconceituosa (a mesma parcela que geralmente é contrária à Maçonaria), e o preconceito é justamente um dos males (juntamente com o fanatismo e a ignorância) que devem ser combatidos pela Maçonaria.

Nesse sentido, creio que a pergunta que cada um deve se fazer é: Você considera a homossexualidade como algo imoral? A resposta para essa pergunta e a complexidade envolvida em sua compreensão conduzirão sua opinião sobre o tema.

O que não podemos é fechar nossos olhos para a realidade. Precisamos debate-la.

PLÁGIO NA MAÇONARIA

PLÁGIO NA MAÇONARIA

Um texto é uma propriedade intelectual de seu autor, que possui direitos morais e patrimoniais sobre ele, previstos na Constituição Federal e protegidos por lei regulamentar. O Código Penal Brasileiro inclusive prevê o crime de violação de direito autoral. Enquanto os direitos patrimoniais podem ser transmitidos a terceiros, os direitos morais são inalienáveis e irrenunciáveis. E a Maçonaria, sendo “um belo sistema de moralidade”, deve defender esses direitos. Cada maçom tem esse dever.

Quando alguém apresenta como de sua própria autoria texto, ou mesmo trechos, produzidos por outra pessoa, está violando direitos autorais, e isso é chamado de plágio. O blog “No Esquadro” hoje tem 5 anos de existência. Mas com apenas 6 meses desde sua inauguração, já começou a sofrer com o plágio. Na época, um blog maçônico chamado “Bodes da Luz” copiava vários artigos publicados no “No Esquadro” e os republicava em seu blog sem qualquer citação de autoria e fonte. Apenas modificava os títulos e as imagens dos posts.

Algum leitor pode estar pensando neste momento: “mas por que combater o plágio, se a intenção do blog é divulgar conhecimento?” Bem, há alguns anos eu também não me importava muito com isso. Pelo menos não até o dia e o modo com que tomei conhecimento desse primeiro plágio: um leitor desatento do meu blog me acusou de plágio. Isso mesmo, fui acusado de plagiar o plagiador de meus próprios textos… Por sorte, bastou eu sugerir a esse leitor que verificasse as datas de publicação de ambos os blogs para verificar quem havia plagiado quem. No entanto, esse episódio serviu-me de alerta da menor das consequências do plágio e, principalmente, que outros casos podem não ser tão simples de serem solucionados.

Voltando ao caso do plágio inaugural do blog, pensando tratar-se de algum irmão apenas mal informado ou descuidado, tentei contato por diversas vezes, sem receber respostas. E os plágios continuavam… Então, comecei a publicar comentários em cada post copiado, aproximadamente 30 posts, informando a real autoria e fonte de cada texto. Foi quando percebi que se tratava de um caso nítido de má fé: todos os comentários foram deletados pelo administrador daquele blog. Não tive outra alternativa se não denunciar o “Bodes da Luz” para a plataforma de gerenciamento de blogs na qual ele estava operando. No dia seguinte, o blog estava fora do ar por violação dos termos de uso da plataforma.

Agora, 5 anos depois, pouca coisa mudou. O plágio continua sendo um mal que assola a literatura maçônica brasileira. E, por incrível que possa parecer, muitas vezes cometido por maçons. O último plágio sofrido pelo blog (pelo menos que tomei conhecimento) foi há poucas semanas. Um texto do blog foi copiado e publicado em uma revista maçônica de periodicidade trimestral. O texto, publicado na revista no mês passado, consta como sendo de autoria de outro maçom. No entanto, cada palavra do texto é de minha autoria e foi publicado originalmente no “No Esquadro” em 2011. Posso garantir que não é nada bom ver um dos frutos dos esforços de minhas pesquisas e produção sendo utilizado para fins comerciais, sem minha prévia autorização, e ainda como sendo de autoria de outrem.

Nesse último caso, assim como no primeiro, ofereci o benefício da dúvida, acreditando que pode ter havido uma pequena confusão de parte do Irmão que submeteu o artigo ou da revista que o publicou. Nesse sentido, fiz contato com os responsáveis pela revista, informando do possível equívoco e solicitando que providências sejam tomadas para remediá-lo. O diálogo está em andamento.

Esse é um problema sério e precisa ser tratado com a devida seriedade por nós, maçons. Precisamos instruir e alertar sobre essa questão em nossas Lojas Maçônicas, desde os Aprendizes, no desenvolvimento de suas “peças de arquiteturas” para “aumento de salário”, até mesmo os mais graduados, responsáveis pelas publicações maçônicas. Quanto às publicações, essas devem possuir uma política de declaração de direitos autorais e verificar a possível ocorrência de trechos não referenciados nos artigos submetidos antes de publicá-los, protegendo assim os seus interesses e os dos autores maçons.

MAÇONARIA & TOLERÂNCIA RELIGIOSA

MAÇONARIA & TOLERÂNCIA RELIGIOSA

A Maçonaria declara combater a intolerância, a ignorância e o fanatismo. Esses três males estão intrinsicamente relacionados. A ignorância é, sem sombra de dúvidas, a origem e o cerne do fanatismo e de toda a intolerância, em especial a religiosa. “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. Essa máxima cristã ensina que o conhecimento, alcançado pela busca da verdade, liberta o homem da ignorância. A Maçonaria, em seus rituais, instruções e literatura, também é extremamente rica em passagens que revelam essa sua vocação. Além de sua história.

Como bem observado pelo pesquisador Antônio Gouvêa Mendonça[i], a Maçonaria constituiu “um peso razoável na balança a favor do protestantismo no momento de sua inserção na sociedade brasileira”. Isso ocorreu a partir da segunda metade do século XIX. Nessa época, de hegemonia e poder católico no Brasil, os protestantes eram a minoria, que sofria todo tipo de ataque intolerante, fanático, preconceituoso. E a Maçonaria, original defensora da liberdade religiosa, e em combate aos males já mencionados, muito colaborou para o ingresso e consolidação das igrejas protestantes no país.

David Gueiros Vieira, em seu artigo sobre o tema[ii], destaca que a Maçonaria brasileira da segunda metade do século XIX, não somente trabalhou em prol do protestantismo, como também do liberalismo, da abolição da escravatura, do ensino laico, e da proclamação da república, garantindo assim a separação da Igreja-Estado, da qual todos usufruímos atualmente. Marcos José Diniz Silva, inclusive, atentou para a guerra midiática entre a Maçonaria e a Igreja Católica, a favor e contra o ensino laico e a liberdade religiosa, por meio de seus jornais.[iii] Mas foquemos aqui na questão religiosa.

Naquela época, os protestantes enfrentavam todo tipo de boicote, desde aquisição de terrenos para igrejas, compra de material de construção, mão de obra, até ameaças aos sacerdotes e fiéis, e atos de vandalismo. Há registro de casos de congregações religiosas que funcionaram inicialmente nas dependências de Lojas Maçônicas, que as ajudaram a construir seus próprios edifícios. Há também registro de proteção maçônica a pastores em suas pregações públicas em todo o interior do país. As igrejas pentecostais e neopentecostais, que surgiram no Brasil durante as décadas seguintes, usufruíram da base bem fundamentada, construída pelos protestantes tradicionais (históricos) com o auxílio dos maçons (muitos deles, também protestantes).

No entanto, atualmente, o Brasil tem assistido outra crise de ignorância, fanatismo e intolerância religiosa. Os noticiários têm apresentado uma crescente onda de casos de intolerância contra, principalmente, religiões de origem africana. Aqui mesmo, nas proximidades da Capital Federal, três terreiros sofreram vandalismo e foram incendiados. Isso mesmo: no entorno de Brasília, em pleno século XXI. Lojas de artigos de umbanda também foram depredadas em Belo Horizonte. Isso sem contar os casos quase que diários de agressão física, até mesmo a uma menina no Rio de Janeiro, apedrejada por ser adepta do Candomblé, e outra em Curitiba, agredida dentro de sala de aula pela mesma razão. Cada uma em um canto do país. Ambas, vítimas do que é uma clara afronta aos Direitos Humanos e à Constituição.

Infelizmente, alguns sacerdotes de certas vertentes evangélicas, também tomados pela ignorância, vez ou outra nos surpreende com discursos e propagandas antimaçônicas, como já noticiado aqui no blog. Suas memórias curtas ou, simplesmente, puro desconhecimento (ignorância), levam-lhes ao erro de atacar a Maçonaria, que tanto colaborou para a consolidação de suas antecessoras e, consequentemente, de suas próprias igrejas no país. É esse tipo de “ignorância sacerdotal” que incita a intolerância, o fanatismo, levando indivíduos aprisionados a suas fés cegas e má orientações espirituais a atos de terrorismo como os mencionados.

Espero que nossas Obediências Maçônicas abracem novamente a causa do combate à intolerância religiosa, como fez há 150 anos. A reforma política já tem a atenção de grandes instituições, como o MPF – Ministério Público Federal, e a CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. As minorias religiosas discriminadas não. Essa conquista maçônica do passado, chamada de liberdade religiosa, está seriamente ameaçada e merece mais uma vez nossa atenção. Não podemos esperar que as difamações contra a Maçonaria se transformem em apedrejamento de maçons e incêndio a Lojas Maçônicas para agir.

 


[i] MENDONÇA, A. G. Inserção dos protestantismos e “questão religiosa” no Brasil, século XIX (reflexões e hipóteses). Estudos Teológicos, Vol. 27, No. 3, 1987, p. 219-237.

[ii] VIEIRA, D. G. O Liberalismo, a Maçonaria e o Protestantismo no Brasil no Século Dezenove. Estudos Teológicos, Vol. 27, No. 3, 1987, p. 195-217.

[iii] SILVA, M. J. D. Maçonaria e laicismo republicano na imprensa católica cearense entre os anos de 1910 e 1920. Ciência & Maçonaria, Vol. Vol. 1, n.1, Jan/Jun, 2013, p. 7-19.

A Constituição de Anderson nos dias atuais

A Constituição de Anderson nos dias atuais

Outro dia estava na instalação e posse de um Venerável Mestre em Oriente de outro Estado que não o que resido. Fui surpreendido com algumas passagens da cerimônia, em especial no compromisso assumido. Uma das perguntas feitas ao empossando solicitava o compromisso de seguir estritamente a Constituição de Anderson e a Constituição daquela Obediência. Tamanho é o fascínio dos maçons brasileiros pela Grande Loja Unida da Inglaterra que, até mesmo uma Obediência que não tem atualmente o reconhecimento da mesma, estava solicitando a um Venerável Mestre que seguisse uma Constituição que supostamente é de outra Obediência.

Pode um irmão seguir duas constituições distintas? De duas Obediências distintas? Cada Obediência não é soberana? Será que não há nada em uma constituição que é incompatível com a outra? Quem escreveu essa cerimônia já leu alguma vez a Constituição de Anderson? Sabe o que ela diz? E o mais importante: sabe que a Constituição de Anderson não é mais utilizada pela Grande Loja Unida da Inglaterra há mais de 250 anos? Que não tem valor prático, apenas histórico?

Uma simples leitura da Constituição de Anderson deixa qualquer maçom sério envergonhado. Seu primeiro capítulo é dedicado a apresentar uma genealogia maçônica, indicando Adão como o primeiro maçom, com vários pontos fantasiosos, passando por Augusto César, tido como um Grão-Mestre, até chegar aos reis ingleses. Então diz que a Rainha Elizabeth desestimulou a Maçonaria por ser mulher e, portanto, não podia ser maçom. Mas então o Rei James VI, sendo maçom, reanimou a Maçonaria. E então a Maçonaria tem sido governada pelos reis e príncipes ingleses desde então. E essa história é então repetida de forma resumida na “Música do Mestre”.[1] Fica evidente que não foi à toa que Desaguliers escolheu James Anderson para escrevê-la: Anderson era conhecido por fazer bicos, criando genealogias míticas, para não dizer falsas, para famílias inglesas que desejavam um upgrade em seus históricos. Sua constituição maçônica é considerada “uma mistura de compilação e fantasia, invenção e manipulação, clareza e ambiguidade e de fato de erro”.[2]

Ainda, há alguns pontos da Constituição de Anderson que, dentre outros, podemos apontar como conflitantes com os regulamentos maçônicos brasileiros atuais, de modo geral:

  • A exigência de que o candidato “descenda de pais honestos”;
  • O Grão-Mestre escolhe e nomeia seu Grão-Mestre Adjunto;
  • Nenhuma Loja jamais iniciará “qualquer homem abaixo de vinte e cinco anos de idade”;
  • Nenhum homem pode ser iniciado “sem o consentimento unânime de todos os membros” da Loja.

Nesse sentido, como pode um maçom seguir a Constituição de Anderson e seguir a Constituição de sua Obediência sem desrespeitar uma ou outra? Acaba que, por elementos contraditórios, o compromisso assumido torna-se vazio, sem valor. Fruto duma desinformada veneração à GLUI, até mesmo por aqueles que não têm sido reconhecidos por ela.

 


[1] ANDERSON, James. As Constituições dos Franco-Maçons. Brasília: Editora do Grande Oriente do Brasil, 1997.

[2] STEVENSON, David. James Anderson: Man and Mason. Heredom. Volume 10, 2002, p. 93-138.