EFEITO FLYNN REVERSO NA MAÇONARIA

EFEITO FLYNN REVERSO NA MAÇONARIA

O mundo está ficando menos inteligente. E isso não é uma afirmação vazia: nos últimos anos, dezenas de estudos realizados nos mais diferentes países têm mostrado que, após décadas de crescimento contínuo na inteligência média da população (o chamado Efeito Flynn), os resultados começaram a despencar.

O Efeito Flynn, ou seja, o aumento contínuo da inteligência média, era explicado pela melhoria no consumo de nutrientes, mais investimentos em educação e crescente estímulo nos ambientes sociais. E não coincidentemente, o aumento da inteligência média sempre esteve diretamente relacionado com o aumento do hábito de leitura.  

Já essa reversão no Efeito Flynn, ou seja, o emburrecimento geral, seria consequência de mudanças nos hábitos, com crianças, adolescentes e adultos a cada dia com mais horas diárias frente a uma tela (televisão, celular, computador, tablet), consumindo informação audiovisual em vez de leitura.

E por que a leitura estaria relacionada com a inteligência? Quando se lê, exige-se um esforço cognitivo maior para se compreender e imaginar do que o consumo audiovisual, que praticamente não exige esforço algum. É por isso que, para alguns, ler “dá sono”, mas maratonar uma série na TV, não. Ainda, a leitura gera um aumento de vocabulário, que também está diretamente relacionado à inteligência. Nós, humanos, somos seres sociais, com uma existência baseada em relações interpessoais, partindo da família, até a sociedade em geral. E toda interação é quase em sua totalidade feita por meio das palavras. Assim, quanto mais palavras você sabe, mais coisas (e mais complexas) aprende e compreende, e melhor se comunica. Com isso, tem-se uma evolução das ideias, teorias e, consequentemente, das ciências.

Se esse ritmo de queda na inteligência média continuar, acredita-se que a próxima geração de adultos ficará na média considerada “baixa inteligência” e que chamamos popularmente de “lesados”. No caso do Brasil, que tem em torno de 30% da população analfabeta funcional e enfrenta gradativa redução nos investimentos em educação, as consequências poderão ser desastrosas e permanentes.  Ainda mais, considerando a quantidade de livrarias que fecham suas portas todos os anos, o aumento absurdo no preço do papel e, se não bastasse, esforços governamentais para tributar livros, que eram isentos no Brasil desde a década de 40.

As consequências da redução na inteligência média já podem ser vistas por aí. Entre elas, alguns pesquisadores apontam o crescimento do “viés de confirmação”: quando pessoas somente acreditam naquilo que está de acordo com suas crenças e opiniões, rejeitando todos os fatos e argumentos racionais contrários. Isso leva à simplificação de questões complexas, polarização de temas originalmente multifacetados, proliferação de fake-news e de teorias conspiratórias, dentre outros males.

Sem inteligência, também não há senso crítico, que é a capacidade de analisar questões racionalmente, sem aceitar de modo automático as informações ou opiniões de terceiros. E sem senso crítico, não há a tão mencionada busca da verdade; bem como o combate à ignorância, à intolerância e ao fanatismo; ambos objetivos da Maçonaria.

Um indício claro da falta de senso crítico num ambiente maçônico é a adoção e repetição de termos prontos, mesmo quando fogem da normalidade. Por exemplo: “Eu estou Venerável Mestre da Loja XYZ”. Quem fala assim, “eu estou gerente da empresa tal”? O normal é “eu sou gerente da empresa tal”. É assim que adultos falam! Como tantos irmãos podem cair no argumento infantil de que isso parece ruim? O verbo “ser”, conjugado no presente, indica apresentação em determinada posição ou condição atual (que é o caso de um VM). Já o verbo “estar”, quando empregado assim, presume permanência breve e passageira: “estou na rua e logo chegarei em casa”. Não se aplica a um cargo que se ocupa por um ano ou mais!  

Outro exemplo é a condenação daqueles que dizem “ontem fui para reunião da minha loja”, pelo argumento, mais uma vez infantil, de que o termo “minha” é negativo, pois passa a ideia de que você é ou quer ser o dono da loja. Conforme o dicionário, “minha” também se refere a uma pessoa que pertence ou faz parte de algo. Ou seja, que não é dono, mas membro, como em uma Loja.

E como não mencionar o famoso e, ao mesmo tempo, falacioso termo “sou um eterno aprendiz”? Por que não mudamos então os nomes dos três graus simbólicos para Aprendiz I, Aprendiz II e Aprendiz III? Aprendiz é aquele que é novato em um ofício. Quando você tem mais de dez anos de Ordem, foi Venerável Mestre (“foi”, não “esteve”) e fala que é “um eterno aprendiz”, está apenas dizendo que é um falso modesto, que fere em seu discurso o sistema hierárquico educacional das antigas corporações de ofício, tão bem preservado na Maçonaria, apenas para parecer humilde.

E ainda há a clássica: “a Maçonaria é perfeita”. Então por que todo ano tem mudança na legislação maçônica e em algum ritual??? A Maçonaria não está em constante melhoria? Como uma instituição criada pelos homens pode ser perfeita? Se assim for, todas as instituições não são tão perfeitas quanto a Maçonaria? E para piorar, dessa nasceu aquela “mulher não entra na Maçonaria porque já é perfeita”. Tudo conversa pra boi dormir.  

Agora, exerça seu viés de confirmação e faça interpretações tendenciosas para defender a manutenção do uso desses termos, tão esdrúxulos à luz do menor senso crítico. Assim, apenas reforçará ainda mais esta teoria do Efeito Flynn Reverso na Maçonaria.

DOIS TIMES, UM ESPÍRITO DESPORTIVO

DOIS TIMES, UM ESPÍRITO DESPORTIVO

Marinho gostava muito de jogar futebol. Um dia, mudou para a cidade grande por força do trabalho e logo procurou um time para jogar: “Gol Brasil”. Ele jogava tão bem que, em poucos anos, já era capitão do time!

Só tinha um problema: a maioria dos jogadores, com o consentimento da comissão técnica, usava anabolizante… Marinho e outros jogadores eram totalmente contra essa prática, em especial depois que foram jogar em um campeonato internacional, que ocorria de cinco em cinco anos, e souberam que, a partir da próxima edição do campeonato, haveria exame antidoping, e o time cujos jogadores fizessem uso de substâncias proibidas seria banido para sempre da competição.

Ao retornar daquele campeonato internacional, Marinho começou um trabalho de conscientização dos outros jogadores e de diálogo com a comissão técnica, mas em vão. A prática irregular estava arraigada no time. Os anos se passavam, a nova edição da competição se aproximava, e as seringas de anabolizantes permaneciam nos vestiários.

Então, Marinho e seus colegas que não se dopavam tiveram que fazer a escolha mais difícil de suas vidas futebolísticas: eles abandonaram o time e criaram um novo time na cidade: a “Grande Liga”. Eles amavam futebol, mas queriam jogar dentro das regras, de forma regular. Para isso, abriram mão de um time já estruturado, com sede própria e patrocinador, para começar um time do zero. Ainda assim, era melhor do que ficar sem jogar bola, ou se prejudicarem pelos erros dos outros.

Assim, a cidade passou a ter dois times rivais. O de Marinho, a “Grande Liga”, que jogava campeonatos internacionais regulamentados, com exame antidoping; e o time mais antigo, o “Gol Brasil”, que focava em campeonatos nacionais e os poucos internacionais que ainda não exigiam exames antidoping.

Mas os jogadores do “Gol Brasil” não perdoavam Marinho e aqueles que o acompanharam, inventando e disseminando todo tipo de mentiras sobre a turma da “Grande Liga”. Diziam que Marinho abriu outro time porque não seria mais capitão, e que havia roubado bolas e chuteiras da sede do “Gol Brasil”. E ainda defendiam que o uso de anabolizantes era algo totalmente aceitável no meio, servindo apenas de desculpas para que Marinho tivesse seu próprio time. Tratava-se do bom e velho “Argumentum ad Hominem“: falácia de tentar desacreditar o autor, sugerindo desvios de caráter e segundas intenções, como forma de desviar a atenção dos reais problemas e anular a validade da ação oposta.

Então muitos anos se passaram. Marinho e os jogadores da época da cisão no futebol da cidade se foram. Os poucos campeonatos internacionais que não tinham exames antidoping, passaram a adotá-los, levando o time “Gol Brasil” a também abolir o uso de anabolizantes. Ambos os times, agora formados por jogadores e comissão técnica que não viveram aquele período do racha, passam a jogar dentro das mesmas regras e a participar dos mesmos campeonatos, levando à maior convivência e amizade entre a maioria de seus membros.

CONTUDO, vez ou outra, alguém pergunta porque há dois times na cidade. E alguns poucos membros da comissão técnica do “Gol Brasil”, como um tal de Pedro Juca, em vez de terem a humildade de assumir a verdade, de que o time fazia uso de anabolizantes no passado, o que levou ao rompimento com um grupo de jogadores que formaram o novo time, mas que esse erro foi corrigido muitos anos atrás e hoje os dois times têm ótimo relacionamento; preferem desenterrar as velhas difamações contra o falecido Marinho, numa tentativa frustrada de colocar em dúvida a legitimidade do time amigo que, para eles, ainda é rival.

Ainda falta espírito desportivo em algumas “lideranças” do futebol… 

CONFLITO DE GERAÇÕES e PERCEPÇÃO DE TEMPO na MAÇONARIA

CONFLITO DE GERAÇÕES e PERCEPÇÃO DE TEMPO na MAÇONARIA

Em uma pesquisa realizada em 2018 para a CMI, com mais de 12 mil maçons brasileiros de todos os Estados e DF, e das três vertentes maçônicas brasileiros, diagnosticou-se um problema sério, porém discreto na Maçonaria brasileira: o conflito de gerações.

Em um gráfico que mais parecia os sutiãs da Madona, via-se nitidamente as duas gerações: a dominante, de mais de 2/3 dos maçons brasileiros, de mais de 50 anos de idade, com concentração se aproximado dos 60 anos, majoritariamente educados pelo sistema tradicional de ensino, tendo parcela considerável com baixa escolaridade ou escolaridade tardia, e sem hábito de leitura; e a dos novos entrantes, de menos de 1/3 do povo maçônico, ingressos nos últimos anos, com menos de 50 anos, sendo a maioria com menos de 40 anos de idade, educados nos sistemas surgidos a partir das reformas educacionais iniciadas na década de 70, e melhor acesso acadêmico e literário.

A diferença sociocultural dessas duas gerações está intimamente ligada com a história mais recente do nosso país, desde o chamado “milagre econômico” da década de 70; a adoção de novos métodos pedagógicos no ensino fundamental, como Construtivista, Freiriano, Montessoriano, Piagetiano, na década de 80; até a maior flexibilização nas normas do Ensino Superior, gerando o boom de faculdades particulares, na década de 90.

Assim, tem-se uma geração de novos entrantes mais pragmática, crítica e questionadora, tanto sobre o que ouve quanto sobre o que lê, subordinada a uma geração dominante mais tradicionalista. E os resultados da pesquisa indicaram que essa geração dominante não vê com bons olhos a nova geração, acreditando que ingressam na Maçonaria apenas em busca de networking e benefícios, e que estão querendo inovar a Maçonaria e expô-la na internet e redes sociais.

Acontece que, enquanto há maioria de membros na geração dominante, que envelhece a cada dia, a nova geração concentra praticamente toda a evasão maçônica, o que dificulta a renovação dos quadros, que poderia garantir a manutenção das organizações maçônicas a longo prazo. E como agravante, há a institucionalização dessa opressão silenciosa. Como exemplo, há potências que criam regras que vetam os novos entrantes do direito a voz, apesar desses pagarem as mesmas taxas que qualquer outro membro.   

Nesse contexto está a Ordem DeMolay, existente no país há mais de 40 anos, durante os quais foi copiosamente chamada pelas lideranças maçônicas de “o futuro da Maçonaria”. De fato, esse futuro está se tornando o presente, pois já se teve e tem alguns Grão-Mestres de Grandes Lojas oriundos da Ordem DeMolay: Cassiano na GLMDF, Alexandre na GLMET, Tadeu na GLMERGS, Hook na GLMERN. E há ainda outras boas promessas para a próxima safra.

Com um número cada vez mais crescente de DeMolays na Maçonaria, não é raro escutar depoimentos de que o DeMolay Sênior que é Maçom tem responsabilidade redobrada, pois qualquer comportamento questionável seu respinga maçonicamente também na Ordem DeMolay.

Para ilustrar, compartilho o que escutei no último sábado de uma liderança maçônica. O irmão contou de um maçom que é DeMolay Sênior e, ao escutar algo que não gostou em uma Câmara do Meio, retirou o avental da cintura e saiu da reunião. Com base nisso, sugeriu que talvez os DeMolays não possuem o perfil que se espera na Maçonaria.

Então, contei de um velho maçom que, enquanto presidia a sessão, irritou-se com um irmão sentado à coluna do sul e arremessou o malhete em sua direção. Esse velho maçom não era um DeMolay Sênior, mas um oficial das Forças Armadas. Por um acaso, caberia sugerir que talvez os militares não possuem o perfil que se espera na Maçonaria?

Há imbecis de todas as idades e em todas as áreas de atuação. O maior erro que podemos cometer é generalizar.

Por outro lado, há um comportamento comum entre alguns DeMolays Seniores que ingressam na Maçonaria, e que não colabora para a redução desse conflito: a PERCEPÇÃO DE TEMPO. A média de idade dos que ingressam na Ordem DeMolay é por volta dos 15 e 16 anos. Isso dá apenas cinco a seis “anos de vida” ao DeMolay Ativo, que se torna um Sênior aos 21 anos, não podendo mais ocupar cargos juvenis na organização. Então, aqueles jovens com perfis de liderança correm contra o tempo para alcançar os postos que almejam na organização.

Quando esses jovens, com seus vinte e poucos anos, ingressam na Maçonaria, eles provavelmente terão uns cinquenta “anos de vida” na instituição. São dez vezes mais do que a média de tempo ativo na Ordem DeMolay. Em outras palavras, o tempo na Maçonaria corre diferente do tempo na Ordem DeMolay. Contudo, são muitos os jovens que não conseguem virar essa chave, desejando manter na Maçonaria o mesmo ritmo de evolução nos cargos que foi vivenciado na Ordem DeMolay. E isso apenas gera ainda mais conflitos e alimenta ainda mais as generalizações.

Todas essas generalizações, de que DeMolay é isso e “bode velho” é aquilo, são reflexos desse conflito de gerações, e é exatamente o que precisamos combater por meio da educação de TODOS. A Tolerância é um dos principais pilares da Maçonaria Simbólica e talvez seja exatamente o que tem faltado em muitos irmãos. Como escola de moralidade que somos, temos a obrigação de ensinar essa importante lição. Nosso futuro depende disso.

PANDEMIA e COMPORTAMENTO MAÇÔNICO

PANDEMIA e COMPORTAMENTO MAÇÔNICO

Desde 2012 que estudo e pesquiso sobre comportamento organizacional na Maçonaria. Tenho livros e artigos publicados a respeito, além de lecionar o tema em nível de graduação e pós-graduação. E uma das bandeiras que venho defendendo em todos esses anos é da necessidade de se desenvolver e treinar novas lideranças para a Maçonaria.

A atual pandemia e os reflexos do distanciamento social sobre as organizações maçônicas têm imposto essa realidade e necessidade aos olhos de quem quiser ver. Nesse sentido, lembro-me que, em minha adolescência, meu pai me dizia que é fácil ser bom quando tudo está bem, mas que sabemos quem realmente é bom quando tudo está mal.

Pesquisas indicam que avaliações cognitivas e afetivas geram comportamentos. Isso parece óbvio: você pensa, depois age. Mas, em alguns casos, ocorre o contrário: de tanto agir de uma forma, mesmo encarando fatos irrefutáveis, você se obriga a manter sua avaliação inicial, de forma a não contradizer suas ações. Por isso do uso do termo “aos olhos de quem quiser ver”.

No meio organizacional, adaptado à Maçonaria, algumas das avaliações e sentimentos envolvidos são: a satisfação com a Maçonaria, o envolvimento com a Maçonaria e o comprometimento com a Maçonaria. Este último possui três dimensões distintas: o comprometimento afetivo, que é o vínculo emocional e com os valores da Maçonaria; o comprometimento instrumental, que é a necessidade psicológica de permanência; e o comprometimento normativo, que é a sensação de obrigação moral de permanência.

Todas essas avaliações e sentimentos são positiva e diretamente moderados pelas atividades maçônicas e suas frequências. Assim, quanto mais frequente em atividades maçônicas, maiores as chances de satisfação, envolvimento e comprometimento afetivo, instrumental e normativo. Aqui, ressalta-se que há outras variáveis impactantes nessa relação.

Estudos e pesquisas indicam que o comprometimento afetivo está fortemente relacionado com desempenho e não tanto com a permanência ou evasão, enquanto que o instrumental baixo gera maior intenção de faltar e, consequentemente, se afastar.

Resumindo a equação, a falta de reuniões e outras atividades maçônicas desencadeará em uma redução da satisfação, do envolvimento e do comprometimento. E a consequência disso será um maior absenteísmo e uma maior evasão quando do retorno dos trabalhos maçônicos pós-pandemia.

E como frear esse fenômeno? As organizações conseguem minimizar esses efeitos por meio da Percepção de Suporte Organizacional (PSO) e da manutenção do engajamento dos membros. A PSO é quando os membros percebem que a organização os valoriza, apoia, e se preocupa com seu bem-estar.

Atividades que proporcionem a percepção de preocupação e cuidado para com os irmãos geram um aumento da PSO, bem como aquelas que proporcionem a manutenção de contatos e interações, mesmo que virtuais, retém o engajamento. Com isso, pode-se manter níveis esperados de satisfação, envolvimento e comprometimento, reduzindo as chances de absenteísmo e evasão.

Gestores maçônicos que proporcionam ações intelectualmente estimulantes, condições de apoio e oferta de ajuda, proporcionarão maior satisfação e envolvimento, levando à renovação do comprometimento.

É agora, “quando tudo está mal”, que veremos “quem realmente é bom”.

Dois mundos e uma verdade nua e crua

Dois mundos e uma verdade nua e crua

Outro dia recebi a última edição da Journal of the Masonic Society, que continha, dentre outras coisas interessantes, um artigo de Thomas Jackson. Para quem não sabe, Thomas Jackson é o que podemos chamar de uma lenda viva da Maçonaria no mundo, tendo estado por 16 anos à frente da Conferência Mundial de Grandes Lojas Regulares. Segue alguns trechos de seu artigo que considero importante compartilhar:

Não há um fator sobre o qual culpar o declínio contínuo do interesse pela Maçonaria na América do Norte, mas não há dúvida de que a falta de um compromisso educacional seja um fator importante. Como podemos esperar que exista um interesse em uma organização em que tão poucos membros sabem o que somos ou nosso propósito? (…)

Não consigo me convencer de que os maçons de hoje são menos capazes do que nossos irmãos do passado, mas somos definitivamente mais ignorantes; mais ignorantes do nosso passado, mais ignorantes do nosso presente e certamente mais ignorantes do nosso propósito. Se é verdade que nossos irmãos dos dias atuais são tão capazes quanto os irmãos do passado, a falta de educação maçônica deve ser a causa raiz de um interesse em declínio, e a responsabilidade por esse fracasso está nos pés das lideranças da Maçonaria Simbólica. (…)

Não podemos mais escolher por viver da glória do nosso passado. Não podemos mais ter nossa sobrevivência dependente das alegações de quão grandes éramos e apontarmos com orgulho a grandeza de nossos irmãos passados. Agora devemos decidir o que queremos ser. Se desejamos ser uma organização que será lembrada na história como uma que contribuiu para a grandeza da América, mas que desapareceu digna de poucas notas, basta continuarmos o caminho que estamos trilhando hoje. Se desejamos continuar a herança que nos foi concedida por nossos irmãos anteriores, devemos tomar a decisão de que nossos membros atuais merecem essa herança e desenvolver programas pelos quais os educamos. (…)

Atualmente, há jovens demonstrando interesse e buscando muito mais do que estamos oferecendo. Eles estão em busca de algo que a sociedade não está fornecendo-lhes. Eles estão procurando por uma organização de qualidade muito acima da mediocridade da sociedade atual. Eles estão procurando conhecimento e um sistema que os forneça isso. Eles sabem mais sobre a Maçonaria antes de solicitarem ingresso em uma Loja do que qualquer um de seus antecessores. O que sabem, no entanto, é o que eles aprenderam sobre a Maçonaria do passado. Agora cabe a nós fornecer a eles aquilo que eles procuram. Cada um deles e cada um de nós deseja ser afiliado a uma organização de qualidade e é isso que a Maçonaria deve ser. (…)

Provavelmente, expressei muito claramente minha opinião sobre o tema da educação maçônica. Este mundo realmente precisa de uma organização alicerçada sobre uma base dos propósitos filosóficos da Maçonaria. Se somos merecedores de nossa herança, devemos empreender um programa de educação de nós mesmos e de nossos membros. O legado de nossos irmãos passados ​​merece esse respeito, e o respeito dado à Maçonaria será proporcional às exigências educacionais da Maçonaria (JACKSON, Thomas. Masonic Education: Looking to the Future. The Journal of The Masonic Society, Issue 40, Spring 2020).

Agora, se trocarmos América do Norte por Brasil nessas palavras, você estranharia? Quão distante esse cenário está de nossa realidade? Nossos irmãos não sabem o que realmente é a Maçonaria e qual o seu propósito? Vivemos da glória do passado? Nossas reuniões estão rasas e frustrantes demais para a nova geração?

O que o feeling de Thomas Jackson diagnosticou nos Estados Unidos é o mesmo que a pesquisa feita a pedido da CMI, em 2018, diagnosticou no Brasil: Há uma deficiência na educação maçônica brasileira, que tem gerado uma série de problemas para nossas organizações maçônicas e, se não bastasse, também tem gerado a significante evasão maçônica entre os mais jovens, cujo nível de exigência e expectativas por conhecimento não tem sido alcançado. E, sem os jovens, o futuro de nossa Maçonaria estará comprometido.

Como muito bem observado no artigo citado, somente por meio do desenvolvimento de programas sólidos de Educação Maçônica em larga escala poderemos solucionar esses problemas. E os pilares da Educação são: Pesquisa, Ensino e Extensão. Ou seja, precisamos pesquisar mais, produzir mais conteúdo (primário e secundário), ensinar mais, e criar ferramentas de aplicação desses ensinamentos.

Algumas iniciativas vêm surgindo nos últimos anos no Brasil, como Ciência & Maçonaria, Escola No Esquadro, UniAcácia, Biblioteca Digital da CMSB e a UniCMSB; e têm dado suas contribuições em prol da Educação Maçônica no Brasil, graças a irmãos cientes de tal responsabilidade e que estão fazendo sua parte. E você, está fazendo a sua?

O grau 33 de Mourão & Conhece-te a ti mesmo

O grau 33 de Mourão & Conhece-te a ti mesmo

Foi notícia maçônica e não-maçônica a investidura de Mourão, Vice-Presidente da República, ao 33º grau do Rito Escocês Antigo e Aceito, pelo Supremo Conselho de Jacarepaguá (SC33), único no Brasil reconhecido mundialmente.

Mourão, Mestre Maçom (3º grau) regular no Grande Oriente do Rio Grande do Sul (COMAB), foi avançado do 4º ao 32º graus em uma tarde de sábado, na Grande Inspetoria Litúrgica do Distrito Federal, e alguns dias depois foi investido no 33º grau em evento ocorrido em Ijuí – RS, conduzido pelo SC33. Assim, galgou os 30 altos graus do Rito Escocês em menos de um mês, o que, observando os interstícios regulamentares, levaria, pelo menos, seis anos.

A quebra dos interstícios foi concedida pelo Soberano Grande Comendador, Irmão Jorge Lins, utilizando-se de prerrogativa estatutária existente há mais de uma centena de anos. Tal notícia gerou uma série de manifestações de irmãos, em especial em redes sociais, criticando a decisão do Soberano Grande Comendador em permitir tal quebra de interstício, mesmo que legalmente embasada.

Muitas manifestações repetem, em outras palavras, os mesmos argumentos. Segue trechos de alguns comentários reais: “não me foi dada nenhuma ajudinha para chegar onde cheguei”, “desvalorização de quem está nas fileiras há anos cumprindo todas as exigências para alcançar o grau máximo”, “luz demais, para quem não está preparado, pode cegar”, “nossa turma tem mais de 5 anos e só agora chegou ao 32 e vai passar pelo menos um ano para chegar ao 33 e já teve irmão que chegou ao 33 em uma semana”, “todos iguais… mas nem tanto”, “injusto com o maçom médio”, etc.

Credita-se a Freud uma frase que diz “Quando Pedro me fala de Paulo, sei mais de Pedro do que de Paulo”. Ao falarem da escalada maçônica de Mourão, os irmãos revelam algo sobre si mesmos: a dissonância cognitiva.

A dissonância cognitiva, em um de seus diferentes espectros, consiste naquela sensação de desconforto que tem-se pelo fato de alguém ter aparentemente sido mais beneficiado com menor ou igual esforço ao seu.

Um exemplo claro é a famosa parábola bíblica da vinha: Um senhor busca trabalhadores para sua vinha em diferentes horários do dia, combinando que pagaria um denário pelo serviço. Assim, uns trabalham o dia inteiro e outros menos, até aqueles que trabalharam apenas 01 hora… e ao final do dia, o senhor pede que todos formem uma fila para receberem seus pagamentos, começando pelos que chegaram por último. Quando os que chegaram primeiro e trabalharam o dia inteiro (ao final da fila) viram que os que chegaram por último e trabalharam apenas uma hora (no início da fila) estavam recebendo um denário, julgaram que receberiam mais do que isso, por terem trabalhado muito mais. Entretanto, receberam o mesmo valor e ficaram indignados com o senhor, que argumentou que havia combinado o valor com eles antes do serviço, e eles tinham aceitado.

Aqueles trabalhadores da primeira hora haviam ficado deveras satisfeitos em conseguir um serviço que lhes garantisse um pagamento ao qual concordaram antecipadamente. Mas eles não demoraram a irritar-se e questionar o acordado com o senhor ao perceberem que outros haviam feito acordo aparentemente melhor. É o mesmo comportamento de uma criança que chora porque a bola de sorvete de seu irmão aparenta ser maior que a sua. Ou de uma mulher que se irrita ao ver em uma vitrine que aquele vestido que ela comprou na semana anterior, achando que tinha feito um ótimo negócio, está ainda mais barato (e foi comprado mais barato por outra mulher). Esse sentimento vil é comum a muitos homens, até mesmo maçons.

Os reclamantes, adeptos dos Altos Graus, têm conhecimento da legalidade da decisão e nenhum deles foi prejudicado ou mesmo afetado pela mesma. Eles não sofreram atrasos na evolução dos graus ou foram sobretaxados por isso. Ainda, não se vê reclamações dos mesmos quanto aos interstícios que eles seguem e as taxas que eles pagam, até porque concordaram com essas questões antes de ingressar. O que incomoda é que aquele outro, que chegou “na undécima hora” foi feito igual a eles, que suportaram o peso dos interstícios e o calor das taxas. Mesmo quando o “outro” é o Vice-Presidente da República. Mesmo quando sua projeção maçônica pode auxiliar na imagem da Maçonaria perante a sociedade.

Não importa se a grama do vizinho é mais verde. Ela é do vizinho, não sua. Não seja mesquinho. Não compare. Cuide de sua vida e faça o seu melhor, sempre. Se você está cursando os Altos Graus, já deveria ter aprendido isso.