por Kennyo Ismail | mar 1, 2011 | Crítica literária
Certo dia, um valoroso Irmão proferiu na Sala dos Passos Perdidos o seguinte questionamento:
“Com tantas informações divergentes de autores de nossa literatura maçônica brasileira, há algum autor ou obra que se pode confiar?”
Por sorte, existem algumas obras que merecem nossa atenção.
Quando se trata de Rito Escocês, um dos problemas que se vê no Brasil é que os principais autores simplesmente não eram membros do Supremo Conselho regular do Rito Escocês no Brasil: o “Supremo Conselho do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceito da Maçonaria para a República Federativa do Brasil”, sediado em Jacarepaguá, Rio de Janeiro. Por esse simples motivo, as portas dos Supremos Conselhos regulares de todo mundo, incluindo seus materiais litúrgico, ritualístico e arquivos, estiveram sempre fechadas para esses autores. Portadores de vasta literatura, porém pobres de conteúdo “direto da fonte”, suas fontes eram parciais ou mesmo apócrifas. Assim reinou nessas obras, apesar de algumas verdades, a divulgação de muitos “achismos”.

Fugindo dessa regra, temos o livro “Os Fios da Meada”, do Irmão João Guilherme C. Ribeiro. Alguns anos atrás o Irmão João Guilherme aceitou um interessante desafio do regular Supremo Conselho do REAA: desenhar os painéis dos 33 graus. O Irmão João, não somente extremamente inteligente como também um excelente profissional, aprofundou-se de sobremaneira em sua pesquisa para a execução da missão da forma mais Justa e Perfeita. Portador de uma visão holística da Maçonaria, visto ter sido iniciado no Rito Escocês, introduzido o Ritual de Emulação no âmbito da GLMERJ e ser o tradutor dos Rituais do Rito de York para o português, o Irmão João Guilherme conseguiu reunir vasto material e dados verídicos que, não bastasse ser o necessário para a conclusão dos 33 painéis, serviu de combustível para a elaboração desse livro tão objetivo e esclarecedor.
“Os Fios da Meada” é uma obra repleta de ilustrações e citações, promovendo através dessas uma viagem histórica do Rito até os dias atuais em solo brasileiro. A obra conta ainda com prefácio de ninguém menos que o Soberano Grande Comendador, Irmão Luiz Fernando Rodrigues Torres, o que dá à obra seu devido valor como literatura confiável e pronta para ficar na história do Rito Escocês no Brasil.
O livro pode ser adquirido no site “Arte da Leitura“, assim como “O Livro dos Dias”, uma espécie de agenda maçônica com os registros dos principais fatos históricos da maçonaria mundial, e o Almanaque “Engenho & Arte”, contendo interessantíssimas matérias maçônicas para o deleite dos Irmãos.
por Kennyo Ismail | mar 1, 2011 | Rito Escocês
Tenho recebido alguns questionamentos de Irmãos quanto a afirmação de que o avental do REAA usado no Brasil antes de 1927 era realmente VERMELHO, respeitando assim o “antigo costume” e a decisão do Congresso de Lausanne.
Para não restar dúvidas, apresento imagem de obra de Assis Carvalho, “Ritos & Rituais”, que replica o ritual do “Grande Oriente Brazileiro” datado de 1834 (antes mesmo do Congresso de Lausanne), tipografia e impressão da lendária “Seignot-Plancher”.
O nome do ritual era “Guia dos Maçons Escossezes ou Reguladores dos Tres Gráos Symbolicos”.
Legenda: “Gráo 3º – Fita azul orlada de escarlate a tiracollo da esquerda para a direita, suspensa em baixo a joia, que é um esquadro e um compasso de ouro entrelaçados: a joia póde ser cravejada de pedras. Avental branco de pelle forrado e orlado de escarlate, com uma algibeira abaixo da abêta, sobre a qual estão bordadas as letras M.´. B.´.“
Apenas para reforçar, conforme o dicionário, “Escarlate” é: cor vermelha muito viva.
É importante esclarecer que esta não é uma afirmação que alguma obediência utiliza o avental “errado”. Seria um juízo de valor considerar que a mudança para o avental azul foi certa ou errada, justificada ou não, e o objetivo definitivamente não é esse. A intenção aqui é o resgate histórico, é a compreensão dos fatos, a elucidação dos temas.
por Kennyo Ismail | fev 28, 2011 | Rito Escocês
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| James VI e I |
James VI era rei da escócia em 1601 quando, com 35 anos de idade, foi iniciado na maçonaria escocesa, na Loja “Perth and Scone”. É o 1º imperador que se tem notícia da iniciação na Maçonaria. Dois anos após sua iniciação, ele assumiu também o trono da Inglaterra e Irlanda, passando a ser para esses “James I”, (por isso muitas vezes mencionado como James VI&I), e iniciando assim a era “stuartista”. A partir daí, todos os homens da família e nobres de sua corte tradicionalmente ingressavam na Maçonaria.
Em 1715, os Stuarts foram exilados na França, mais precisamente em Bar le Duc. Nesse mesmo ano, James Radclyffe, Conde e melhor amigo do pretendente ao trono, James III, “The Old Pretender”, acompanhado de seu irmão Charles Radclyffe, ambos fiéis declarados à causa Stuart, retornaram à Escócia para participarem de uma rebelião. A rebelião fracassou e ambos foram presos, sendo que o Conde James Radclyffe foi executado e Charles Radclyffe conseguiu fugir e retornar à França.
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| Charles Radclyffe |
Dez anos depois, Charles Radclyffe, então secretário do Príncipe Charles Edward Stuart, conhecido como “The Young Pretender”, na França, e atendendo o desejo do príncipe e de sua corte, funda a 1ª Loja Maçônica “escocesa” em território francês. Através de sua liderança, as Lojas conhecidas como “escocesas” rapidamente se proliferam na França.
20 anos depois, em 1745, apoiando uma frustrada tentativa dos Stuarts de retomada do trono da Inglaterra, o Conde Charles Raclyffe é capturado e executado em Londres. Porém, sua iniciativa maçônica foi o embrião do que hoje conhecemos como Rito Escocês Antigo e Aceito.
Guarde esse nome, Charles Radclyffe, o verdadeiro precursor do que, em 1801, se tornaria o Rito Escocês Antigo e Aceito.
por Kennyo Ismail | fev 25, 2011 | Rito Escocês
Afinal, qual é a origem do Rito Escocês Antigo e Aceito? Ele é Escocês, Francês ou Americano?
Os estudiosos de plantão afirmam sem pestanejar: “É francês!”
Mas na verdade, a resposta mais prudente seria: “Depende!” Pois, nesse caso, tudo depende do que você considera por “origem”.
Se você responder que a origem do REAA é escocesa, você não estará de todo errado. A base do Rito é tida como levada pelos Stuarts e sua corte, quando exilados na França. Todos eram de famílias escocesas.
Já se você responder que a origem do REAA é francesa, isso não será um equívoco. O rito só criou forma na França, onde foi batizado como “Rito de Heredom”, possuindo 25 graus, e a partir de onde foi difundido.
Por último, se você responder que a origem do REAA é americana, não terá como desmenti-lo. Foi nos EUA que surgiu o termo “Rito Escocês Antigo e Aceito” para denominar o sistema composto pelos 25 graus do Heredom e mais os 08 graus lá criados, formando o sistema de 33 graus como é praticado hoje. Nos EUA nasceu o 1º Supremo Conselho do REAA no mundo, em 1801.
Desse modo, se você considerar a origem com base no nome e formato, o Rito é americano. Se considerar a origem com base no local onde sua prática começou a se desenvolver, o Rito é francês. Mas se considerar a origem com base em suas raízes e tradições, o rito é escocês.
Não há como dizer que uma origem é mais legítima que a outra. No mundo inteiro, os negros são chamados de afrodescendentes, os descendentes de japoneses de nipônicos, os judeus de sionistas. Os bisnetos de irlandeses nascidos nos EUA ainda se consideram irlandeses. Em todos esses casos, a origem não está no local onde nasceram, mas no local onde, de alguma forma, estão suas raízes. Foi seguindo essa linha de raciocínio que os americanos denominaram o Rito de “escocês”, pois as raízes do rito são realmente escocesas. Já seguindo o ponto de vista formal, legal, o rito é indiscutivelmente americano, pois foi nos EUA que ele foi organizado, nomeado, registrado, publicado, e onde a primeira organização para administrar o Rito foi criada. Porém, ao observar suas práticas, não há como descartar a essência da Maçonaria Francesa, incrustada em seus rituais.
Enfim, temos então um rito de raízes escocesas, desenvolvido na França e concluído nos EUA.
por Kennyo Ismail | fev 24, 2011 | Simbologia
Muitos ritos fazem explícita referência às ordens arquitetônicas que compõem a arquitetura clássica, desenvolvidas pelos gregos e romanos.
São cinco ordens, sendo três de origem grega e duas de origem romana. As de origem grega possuem maior destaque no Rito Escocês, evidenciado pelas “colunetas” representativas de cada Ordem, estando essas relacionadas às três principais divisões do templo maçônico: Oriente, Coluna do Norte e Coluna do Sul. As Ordens gregas são as mais antigas e originais, sendo que as duas ordens romanas são apenas derivações das mesmas.
Como todo bom “construtor”, o maçom deve saber distingui-las, relacioná-las com o Templo e conhecer seus significados:
A Ordem Jônica é conhecida como a Ordem de Atenas, e por isso é representativa da Sabedoria. Seu lugar é no Oriente, junto ao Venerável Mestre. A característica principal da coluna é vista no capitel, que possui duas volutas.
A Ordem Dórica é a ordem arquitetônica mais rústica das três gregas. Prioriza-se a robustez em detrimento da beleza e é comumente vista nos templos dedicados a deuses masculinos. Por isso está relacionada com a Força, representada no templo pela Coluna do Norte, governada pelo Primeiro Vigilante. Suas colunas são sem base e com capitéis simples e lisos, sem ornamentos.
A Ordem Coríntia é a mais bela de todas as ordens arquitetônicas, e procura reproduzir a delicadeza feminina virginal. Daí estar relacionada com a Coluna do Sul, que é a coluna da Beleza. Os capitéis têm formato de folhas de acanto.
Já a Ordem Toscana é derivada da Dórica, e a Ordem Compósita é derivada da Jônica e Coríntia. Ambas são romanas.
Vale ressaltar que alguns templos costumam ser ornamentados com pequenas estátuas de três deuses gregos, ilustrando de forma ainda mais evidente o que já está representado pelas colunetas:
Atena: deusa da Sabedoria, colocada próxima ao trono do Venerável Mestre, geralmente usando um chapéu (que denota sabedoria, por isso também usado pelo VM).
Heracles: (mais conhecido pelo nome romano “Hércules”), semideus da Força, colocado próximo à posição do 1º Vigilante, costuma ser apresentado com um porrete na mão.
Afrodite: deusa da Beleza, colocada próxima à posição do 2º Vigilante, comumente representada por uma pequena réplica da famosa estátua “Venus de Milo”.
Sem entrar no mérito das Colunetas no REAA que, ao que tudo indica, também surgiram no Brasil apenas após 1927, provavelmente copiadas dos rituais ingleses, compreendamos o uso dessas nos trabalhos em Loja: a coluneta Jônica (Sabedoria) fica sempre de pé, mostrando que a sabedoria deve reinar sempre, 24 horas por dia, seja no trabalho ou no descanso. Já as colunetas Dórica e Coríntia se revezam: a Dórica (Força) é erguida durante os trabalhos (do meio-dia à meia-noite), quando a força é necessária para a execução dos trabalhos; enquanto que a Coríntia (Beleza) está levantada durante o descanso, considerado antes da Loja devidamente aberta e após ser devidamente fechada (da meia-noite ao meio-dia).
Em um único templo do REAA no Brasil você pode ver colunas egípcias, colunetas gregas, réplicas de estátuas romanas, delta com letras em hebraico e um Livro da Lei cristão. Salada de frutas ou viagem no tempo? Tudo depende de como queira ver.