por Kennyo Ismail | out 12, 2011 | Simbologia
Parte integrante da vestimenta maçônica, conhecida por todos os maçons, em especial aqueles que já experimentaram o desconforto do uso, os punhos fazem parte dos paramentos utilizados pelo Venerável Mestre, Primeiro e Segundo Vigilantes em muitos ritos e rituais, e também é adotado pelos cargos correspondentes de algumas Obediências. Sempre em conformidade com o colar e o avental, os punhos completam a vestimenta ritualística desses principais Oficiais.
Mas se todos os Oficiais de uma Loja utilizam colar e avental, por que apenas os Vigilantes e o Venerável Mestre utilizam os punhos? Aliás, qual a origem dos punhos? Por que existem? Qual sua simbologia, significado? Quem deve usar, como e quando?
São milhares de maçons utilizando os punhos sem saber as respostas, de Vigilantes a Grão-Mestres. Para que você não continue utilizando (e odiando) esse acessório sem conhecê-lo, pelo simples fato da falta de uma literatura maçônica decente no Brasil, este artigo responderá tais perguntas.
Esses braceletes que chamamos de “punhos” são conhecidos nos países de língua inglesa como “gauntlets”. Gauntlets podem ser considerados como luvas de cano longo que cobrem a mão e parte do antebraço, usadas para atividades manuais, com intuito de proteger o punho. Esse tipo de luva é muito comum na construção civil e é conhecido por alguns como “luva de raspa”, por ser geralmente feito de raspa de couro.
Além dos punhos, qual o outro utensílio comum entre os Vigilantes e o Venerável Mestre, utilizado apenas por esses três Oficiais? O malhete. Porém, nos primeiros anos de Maçonaria Especulativa, os maçons não tinham templos e utensílios próprios para as reuniões. Eles se reuniam em tavernas e utilizavam os utensílios da Maçonaria Operativa. Assim, em vez de belos malhetes trabalhados, utilizavam rústicos maços, e em vez de belas e finas luvas, utilizavam as mesmas luvas grossas e compridas usadas nas construções.
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| Operativa até início XVIII |
No início, todos os Oficiais costumavam usar tais “luvas de pedreiro”, rústicas e de manga longa. Mas com o tempo, apenas aqueles que portavam os maços continuaram a adotá-las, como herança da Maçonaria Operativa, enquanto que os demais passaram a usar luvas mais “sociais”. Entre o ano de 1717, quando da fundação da 1ª Grande Loja da Inglaterra, até, pelo menos, o ano de 1813, quando da fusão que originou a Grande Loja Unida da Inglaterra, os dirigentes das Lojas adotaram modelos em que a luva e o punho eram uma única peça. É a partir dessa época que se há os primeiros registros indicando que essas luvas, já feitas em diferentes cores e com bordados nos punhos que identificavam os cargos e Lojas, começaram a surgir em modelos com punhos separados do restante, como se vê atualmente.
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| Início XVIII a Início XIX |
Esse desenvolvimento se deu de forma livre e o uso manteve-se baseado na tradição até 1884, quando a Grande Loja Unida da Inglaterra incluiu os punhos como paramento oficial no Livro de Constituições, regulamentando seu uso: combinando com colares e aventais dos Grandes Oficiais, punhos na cor azul escuro com detalhes dourados para os dirigentes da Grande Loja, uso obrigatório; e combinando com colares e aventais dos Oficiais das Lojas, punhos na cor azul claro com detalhes prateados para os dirigentes das Lojas, uso opcional. E, em 1971, a Grande Loja Unida da Inglaterra tornou os punhos também opcionais aos Grandes Dirigentes.
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| Início XIX até atualmente |
Pela falta de regulamentação apropriada dos paramentos maçônicos por boa parte das Obediências Maçônicas brasileiras, não existe uma padronização no tamanho, cores, desenhos, detalhes e principalmente no uso dos paramentos. Por esse motivo, ninguém é obrigado a seguir qualquer conduta de uso. Porém, se observada a origem e simbologia dos punhos, os Veneráveis e Vigilantes deveriam usá-los sempre com luvas brancas e apenas em suas Lojas, onde portam malhetes. Já no caso dos Grandes Dirigentes, o uso em toda a Jurisdição estaria correto, mas também sempre acompanhado de luvas.
De qualquer forma, é importante saber o que se usa (e às vezes incomoda), principalmente quando se trata de um importante resquício de nossa origem operativa.
por Kennyo Ismail | out 8, 2011 | História
De vez em quando você pode se deparar com alguns maçons incomodados com a variedade de ritos na Maçonaria, argumentando que os “Altos Graus” se distanciam da maçonaria operativa e crentes que os vários ritos mais dividem do que unem os obreiros da Arte Real. Ou talvez você mesmo pense assim. Saiba que esse incômodo não é coisa nova na Maçonaria, e já até originou Ritos e Obediências.
A Maçonaria Eclética, que também ficou conhecida como União Eclética, teve início como uma espécie de confederação de algumas Lojas alemãs. Essa união de Lojas se baseava no desejo de praticar um sistema mais puro de Maçonaria, mais próximo das antigas práticas da Maçonaria Operativa, ou seja, sem as influências de Cabala, Alquimia, Astrologia, Hermetismo, Cavalaria, Teosofia ou outras ciências ocultas e religiões que os diversos ritos do século XVIII na Europa apresentavam.
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| Frankfurt |
A União Eclética teve início em 1779 sob a liderança do Barão Von Ditfurth, que havia sido um importante adepto do Rito da Estrita Observância, o qual estava em decadência por conta da indevida influência da cavalaria nos graus simbólicos e de sua “liderança oculta”. Desse movimento eclético, concentrado em Frankfurt, surgiu o Rito Eclético, composto por apenas os três graus simbólicos de Aprendiz, Companheiro e Mestre.
Em 1783 duas “pequenas Grandes Lojas” adotaram o Rito Eclético: Grande Loja de Frankfurt am Main, e Grande Loja de Wetzlar. Elas enviaram uma carta a todas as Lojas da Alemanha convidando-as para se aliarem à União Eclética e assim praticarem a legítima Arte Real. Algumas Lojas atenderam o chamado, o que serviu de base para a fundação, em 1823, da “Grande Loja Mãe da Eclética União”, a qual, obviamente, somente reconhecia o Rito Eclético. Porém, essa receita de simplicidade não encontrou muitos adeptos ao longo dos anos: a Grande Loja da Eclética União nunca passou da casa dos 20 em número de Lojas.
Já a Maçonaria de Hamburgo nutria da mesma insatisfação com o Rito da Estrita Observância e o mesmo desejo pela prática de uma Maçonaria mais “pura”, mas de uma certa forma optou por trilhar o seu próprio caminho, adotando o Rito Schroeder em 1801. Pelo tamanho e importância de Hamburgo no cenário alemão, o Rito Schroeder obteve mais êxito.
Tais fatos evidenciam mais uma vez que, durante o século XVIII e início do século XIX, os maçons europeus, em vez de se submeterem à Maçonaria, submetiam-na a si mesmos.
por Kennyo Ismail | out 1, 2011 | Maçons que mudaram a Maçonaria
É incrível como a maioria maciça dos maçons brasileiros simplesmente não sabe quem foi Desaguliers. Esta é apenas mais uma prova de como a literatura maçônica brasileira é limitada, fraca e, em muitos casos, pouco confiável.
Quem foi Desaguliers? Ninguém muito importante… apenas é considerado como o pai da Maçonaria Especulativa Moderna!
Nascido em 12/03/1683, em Rochelle, França, Desaguliers era protestante e sua família teve que se exilar na Inglaterra quando ele ainda era criança. Foi educado em Oxford, onde se formou filósofo experimental e alcançou o grau de Doutor pela Universidade de Oxford. Desaguliers era amigo de Isaac Newton e suas palestras como filósofo promoveram seu ingresso na famosa Real Society.
Em 1719 Desaguliers se tornou o terceiro Grão-Mestre da então Grande Loja da Inglaterra e logo vários antigos maçons “adormecidos” retornaram às Lojas e muitos nobres foram iniciados. A primeira Constituição de Anderson teve não somente a supervisão bem como grande influência dele. Com o intuito de fortalecer a instituição, Desaguliers iniciou a mudança para que o Grão-Mestre passasse a ser um nobre, tendo ele sido o último “plebeu” a ocupar tal cargo. Os três sucessores seguintes o tiveram como Adjunto, garantindo a continuidade de seu bom trabalho de consolidação da Maçonaria Inglesa.
Desaguliers criou o que hoje praticamente toda a Grande Loja do mundo tem: o Fundo de Assistência Maçônica. E alguns anos depois, foi pelas mãos dele que o Príncipe de Gales foi iniciado na Maçonaria. Desaguliers assumiu uma pequena instituição formada por quatro Lojas de “taverna” e a transformou na instituição que viria a influenciar na independência e na consolidação da democracia de vários países no mundo inteiro, hoje presente e ativa em todo o mundo livre.
Enfim, ter sido alvo da atenção de Dr. Oliver e Albert Mackey em algumas de suas obras e ser considerado por esses como o pai da Maçonaria Especulativa Moderna não é um exagero.
por Kennyo Ismail | set 28, 2011 | Poesias
Entre colunas estamos cobertos
O pórtico é guardado pela espada
Todos os presentes são irmãos
E a oficina está paramentada.
Os cargos estão preenchidos
E os oficiais sabem suas atividades
O número de presentes é legal
O que garante a regularidade.
As Luzes representam o Sol
Em seu movimento diário
E os Diáconos levam a Palavra
Como se levassem um relicário.
Estando tudo justo e perfeito
A Loja é devidamente aberta então
Atendendo ao Altar dos Juramentos
E tendo como patronos os de nome João.
Livro aberto, Salmo lido
Esquadro e Compasso são dispostos
Três gritos de viva numa antiga língua
Esses são os nossos votos.
O painel é apresentado no centro
Com toda simbologia do grau ali disposta
O expediente pelo Secretário é decifrado
E circula a Bola de Propostas.
Ordem do Dia, Instruções
Tempo de estudo e debate
E antes do Encerramento
Circula o Tronco de Solidariedade.
Do meio-dia a meia-noite
O maçom simbolicamente trabalha
É contra a ignorância e o fanatismo
Que a Maçonaria trava sua batalha.
Em nossas reuniões trabalhamos
Ensinamos e aprendemos
Assim o amor e a concórdia reinam
Dentro de nossos Templos.
por Kennyo Ismail | set 21, 2011 | Conceitos
Justiça é um termo muito presente na Maçonaria, principalmente porque está diretamente ligada a um personagem presente nas lendas maçônicas, Rei Salomão, tido como o rei mais sábio e justo de todos.
Mas a justiça não é algo natural, não é um elemento da natureza, encontrado em todos os lugares. A justiça é algo alcançado, conquistado. E assim como para se fazer a Luz havia antes a Escuridão, ou não haveria necessidade da Luz ser feita, para se fazer Justiça deve haver antes a Injustiça, ou não haverá a necessidade de Justiça.
Entendendo a ligação entre Injustiça e Justiça como início e fim, ação e reação, causa e efeito, percebe-se a necessidade de um “fio condutor”, de um “combustível” que promova tal mudança. E, nesse caso, é a Compaixão.
É muito fácil compreender o papel fundamental da Compaixão. Afinal de contas, mesmo num mundo inundado de Injustiças, se não houvesse Compaixão, por que alguém desejaria e buscaria promover a Justiça para outros? Faltaria o tal fio condutor, o combustível. Compaixão é exatamente aquele sentimento benévolo que domina o homem ao presenciar uma infelicidade ou mal alheio. Nós sentimos compaixão quando vemos alguém sofrendo uma injustiça. Ou quando assistimos pessoas passando fome e outras necessidades, não por opção, mas pela falta de opção, pela injustiça socioeconômica.
O maçom deve ter os olhos abertos para os males da sociedade. Ele não pode fechar os olhos para o sofrimento do próximo, pois o compromisso do maçom é buscar a felicidade da humanidade. O maçom é um homem de atitude, que procura construir templos às virtudes e cavar masmorras aos vícios. Ele busca trabalhar de forma Justa e Perfeita. E a compaixão nada mais é do que um sentimento de quem se incomoda com a infelicidade alheia, pois deseja a felicidade da humanidade. Nada mais é do que um sentimento de quem se irrita com as injustiças, pois tem um compromisso com o que é justo. Enfim, a Compaixão é um sentimento próprio do Maçom, que faz parte do seu ser enquanto houver injustiças no mundo. É o seu combustível, o mobiliza para seu objetivo como Maçom.
E quais são os caminhos que essa Compaixão nos leva, em direção à Justiça? Podemos crer que, dentre tantos caminhos, o principal talvez seja a Caridade. Como um dos três pilares da Escada de Jacó, a Caridade pode ser interpretada como a ação de um homem livre e de bons costumes quando sente compaixão perante o sofrimento do próximo. Ele tenta reduzir as injustiças com as quais se depara através de um ato de amor. Não há caminho melhor.
A compaixão é sentimento típico daqueles puros de coração, daqueles que amam ao próximo e não fecham seus olhos. E a caridade nada mais é do que a prática desse amor. A caridade é a reação, o efeito da Compaixão.
A busca pela Justiça é um trabalho diário de auto-desenvolvimento. E esse aperfeiçoamento pessoal não tem valor se não é voltado ao bem do próximo e da humanidade. Albert Pike bem registrou que “O que fazemos por nós mesmos morre conosco. O que fazemos pelos outros e pelo mundo permanece e é imortal“.
Vê-se que a Compaixão é parte fundamental em todo o processo de evolução maçônica, porque um maçom nunca se faz de cego perante uma injustiça, ele a sente como se fosse a si mesmo. E se a evolução se alcança pelo amor ou pela dor, a compaixão está diretamente ligada a ambos. E o maçom, como construtor social, não se restringe a sentir a compaixão, ele age a partir dela.