A VERDADEIRA HISTÓRIA DOS PRIMÓRDIOS DA MAÇONARIA NO BRASIL

Infelizmente, história contada é história modificada. Isso porque a história é contada pelos sobreviventes e, via de regra, romanceada. E os maçons brasileiros, seres humanos como quaisquer outros, não fizeram diferente. Mas o compromisso maçônico da busca irrestrita e incessante da verdade faz com que alguns fatos, geralmente “esquecidos”, devam ser divulgados para que, pelo menos na Maçonaria, conheça-se a história real.

A história que quase todos os historiadores maçons contam é sempre a mesma e é mais ou menos assim: Em 1815, nove maçons fundaram Rio de Janeiro a Loja “Comércio e Artes”, a Loja Primaz do Brasil. Então, depois de alguns anos, em 1822, a Loja já contava com 94 membros, então resolveram dividir a Loja em três e fundar o Grande Oriente Brasileiro, primeira Obediência Maçônica no Brasil.
Na verdade, a Maçonaria brasileira não nasceu no Rio de Janeiro e nem tampouco lá foi o berço da primeira Obediência Maçônica. E, evidentemente, a Loja “Comércio e Artes” nunca foi a “Loja Primaz” do Brasil. Na verdade não foi nem a décima, quanto mais a primeira.
Apesar dos esforços de muitos autores maçons em negar isso, o pioneirismo maçônico brasileiro nasceu no Nordeste, mais precisamente na Bahia. A primeira cidade do Brasil também foi berço da primeira Loja Maçônica: “Cavaleiros da Luz”, fundada em 1797. Nada mais justo. Se quase tudo no Brasil começou lá, por que na Maçonaria seria diferente? O historiador e maçom Borges de Barros, que foi diretor do Arquivo Público da Bahia e relatou pela primeira vez a existência dessa Loja, ainda deu conta de que a Loja “Cavaleiros da Luz” foi a chama principal da Conjuração Baiana. Nada mal para os nossos pioneiros!
Mesmo com a dissolução dessa primeira Loja, com o passar dos anos a Maçonaria foi se desenvolvendo no fértil solo baiano: em 1802 surgiu a Loja “Virtude e Razão” que, depois de breve tempo adormecida, foi reerguida com o nome “Virtude e Razão Restaurada”, na mesma época em que, também de seu espólio, surgiu a Loja “Humanidade”. Ainda no Nordeste, não demorou para que a luz maçônica iluminasse, por influência da Bahia, o Estado de Pernambuco.
Sobre Pernambuco, é necessário aqui um comentário à parte:
Apesar de muitos escritores maçons assim desejarem, a “Areópago de Itambé” não era uma Loja Maçônica. No século XVIII existiam centenas de instituições criadas aos moldes da Maçonaria, usando símbolos iguais e similares, e até dividindo os graus em Aprendiz, Companheiro e Mestre como na Maçonaria. Era uma verdadeira “coqueluche” de Ordens, Clubes e Associações, e era muito comum os homens livres serem membros de duas ou mais dessas diferentes instituições, até mesmo no Brasil. Um exemplo disso é o “Apostolado”, da qual José Bonifácio, Gonçalves Ledo e D. Pedro I também faziam parte. Ser inspirada na Maçonaria não é o mesmo do que ser Loja Maçônica.  
Em 1809, atendendo às inúmeras Lojas que já existiam, foi fundado em Salvador o “Governo Supremo” ou simplesmente “Grande Oriente”, a PRIMEIRA Obediência Maçônica brasileira. Não era um “Grande Oriente da Bahia”, como os poucos historiadores maçons que o citam costumam se referir, pois era composto de, pelo menos, 09 Lojas: 03 na Bahia, 04 em Pernambuco e 02 no Rio de Janeiro. Maçons portugueses e brasileiros, muitos deles iniciados na França e Portugal, eram membros dessas Lojas. Tudo isso 06 anos antes da fundação da “Comércio e Artes” e 13 anos antes do GOB. Pernambuco, por contar com maior número de Lojas, ganhou em 1816 uma Grande Loja Provincial filiada ao “Governo Supremo”.
Interessante observar que mais uma vez a Maçonaria se fez presente na história: um dos responsáveis pela formação do Governo Supremo e tido como primeiro Grão-Mestre da Grande Loja Provincial de Pernambuco, Antônio Carlos de Andrada, foi o líder da Revolução Pernambucana, em 1817. Prova maior do papel decisório da Maçonaria no movimento é a lei régia de 1818 proibindo sociedades secretas no Brasil.
Antes que alguém tente justificar a constante omissão de tais fatos nas “versões oficiais” da Maçonaria brasileira por conta dessas Lojas e Obediência não terem sido regulares, é importante observar que a Loja “União”, fundada em 1800 no Rio de Janeiro e sempre presente nas versões históricas, também era irregular. Somente após a adesão de algumas autoridades públicas, ela foi “refundada”, aparentemente de forma regular, e teve seu nome modificado para Loja “Reunião”. Até mesmo a histórica Loja “Comércio e Artes” foi fundada sem Carta Constitutiva em 1815 e trabalhou de forma irregular até 1818, quando foi fechada. Somente quando de seu reerguimento, em 1821, a “Comércio e Artes” se filiou ao Grande Oriente Lusitano.  
Isso só nos mostra que a história da Maçonaria no Brasil é, muitas vezes, contada conforme a conveniência, omitindo os verdadeiros pioneiros em favor dos sobreviventes, ou lembrando deles quando se quer apontar a Maçonaria como protagonista das conjurações. Também é no mínimo intrigante como a Maçonaria esteve presente nos movimentos revolucionários baiano e pernambucano, mas tantos historiadores maçons e não-maçons fazem questão de negar sua participação na Inconfidência Mineira. Mas isso é tema pra outra ocasião.
O importante é reforçar que, antes de fundada uma Loja situacionista, a qual originou a Obediência que promoveu a independência sob a manutenção do imperialismo no Brasil, houveram várias outras Lojas e até Obediências oposicionistas, e muitos de seus membros morreram ou sofreram duras penas defendendo os princípios maçônicos de liberdade e democracia. E a Maçonaria brasileira de hoje tem o dever moral de honrar essa história.

RESPONDENDO ÀS CRÍTICAS

Desconsiderando as críticas absurdas, aquelas baseadas em crenças idiotas, frutos da ignorância e do fanatismo, ofensivas a qualquer indivíduo de inteligência mediana e um pouco de bom senso, dediquemos um pouco de nosso tempo a responder as demais críticas, relativas ao caráter político, econômico e social da Maçonaria:
1 – A Maçonaria é direitista.
R – A Maçonaria, pelo seu caráter universalista, não assume posição política e proíbe discussões político-partidárias em suas reuniões, mas sempre incentivando seus membros a terem e defenderem suas convicções políticas, em defesa da democracia e da soberania da pátria, atributos ligados à Liberdade, a qual faz parte da tríplice divisa maçônica. Por esse motivo, encontra-se nas fileiras maçônicas filiados e líderes em vários níveis de todas as vertentes políticas.
A Maçonaria, refletindo a sociedade em que está inserida, pode possuir maioria dos membros socialista em Cuba e capitalista nos EUA. E nem por isso a Grande Loja de Cuba ou qualquer Grande Loja Estadual dos EUA tem oficialmente uma ou outra posição, pois abrigam também membros de diferentes convicções políticas, econômicas e sociais.
2 – A Maçonaria é conservadora, tendo resistência em acompanhar os avanços da sociedade.
R – A Ordem Maçônica é instituição não-dogmática, e seu funcionamento é em “regime aberto”. Isso significa que a Maçonaria não possui dogmas que restringem seus membros em quaisquer questões, podendo eles militarem contra ou a favor qualquer questão que não restrinja a liberdade de si mesmo e do próximo. Os maçons não são monges e não vivem trancafiados nas Lojas Maçônicas. Eles vivem na sociedade e apenas frequentam as reuniões maçônicas durante algumas horas por semana ou quinzenalmente. Como instituição filosófica, espiritualista e humanista, a Maçonaria defende a livre e irrestrita busca da verdade. Há maçons conservadores e liberais, e aqueles que se submetem a qualquer dogma o fazem por suas convicções pessoais, e não pela Maçonaria. Novamente, refletindo a sociedade, numa comunidade mais conservadora pode haver mais maçons conservadores, assim como o contrário.
3 – A Maçonaria é machista.
R – Essa ideia de que a Maçonaria é machista é baseada no fato de que a Maçonaria Regular só aceita homens como membros. Para entender melhor essa questão, leia o artigo sobre as mulheres na Maçonaria.
4 – A Maçonaria é inimiga declarada da Igreja Católica.
R – Apesar de uma Ordem presente no mundo inteiro, a Maçonaria não possui um poder central internacional, pois cada Grande Loja no mundo, seja composta de 03 ou de 3.000 Lojas, é independente e soberana. Não existe um “Grão-Mestre Internacional”, nem mesmo um Conselho que possa falar em nome de toda a instituição. Por esse motivo, afirmar que a Maçonaria é a favor ou contra qualquer instituição religiosa é, no mínimo, calúnia. Por outro lado, a Igreja Católica já emitiu algumas bulas papais contrárias à Maçonaria, ameaçando penalidades aos católicos que ingressassem na Ordem. O que também não impediu que vários padres buscassem a Maçonaria e se tornassem maçons ao longo da história. Algo que acontece até os dias de hoje.
5 – A Maçonaria é uma espécie de pirâmide, que favorece financeiramente seus membros.
R – Então, por que diabos eu ainda sou pobre???
Ninguém ganha dinheiro com Maçonaria, mas posso garantir que se gasta muito com livros e taxas de manutenção de nossos templos, estruturas administrativas e projetos sociais.
6 – O maçom é obrigado a favorecer o outro em nome da fraternidade.
R – Sério? Então está na hora de eu cobrar alguns favores!!!
Sendo o maçom um homem que assumiu solenemente compromisso de busca e promoção da justiça em todos os momentos de sua vida, ele está moralmente impedido de favorecer quem quer que seja, independente se irmão maçom ou irmão de sangue. Se um maçom, num momento de fraqueza ou desencaminho, solicitar a outro algum tipo de favorecimento, este último tem a obrigação fraterna de recordar o primeiro dos preceitos maçônicos. O auxílio maçônico refere-se a situações de socorro em momentos de risco ou necessidade, e abrange não somente o maçom como sua família.
7 – A Maçonaria faz pouco pela sociedade.
R – Ao contrário do que alguém possa pensar, a Maçonaria não é uma OnG de ação social, um clube de serviço ou uma sociedade com fins filantrópicos. A Ordem Maçônica é uma espécie de escola, cujo objetivo é o desenvolvimento moral, intelectual e espiritual de seus membros. É através de seus membros vivendo e agindo segundo os princípios maçônicos e em defesa de seus ideais que a Maçonaria espera colaborar para uma humanidade mais feliz. Por esse motivo, a filantropia não é seu fim, mas apenas um de seus meios. Porém, o interessante a se observar é que, mesmo não sendo a sua natureza, a Maçonaria tem desenvolvido excelentes projetos sociais em todo o mundo. A diferença é que a Maçonaria costuma ser discreta, não fazendo publicidade de seus atos em prol do próximo.  
8 – A Maçonaria faz parte da Nova Ordem Mundial, movimento que tem a intenção de governar o mundo, influenciando os governos a agir conforme seus interesses.
R – Se a Maçonaria, como explicado anteriormente, não possui uma representatividade internacional, como poderia participar de um “complô mundial”? Além disso, as únicas menções sobre essa tal “Nova Ordem Mundial” só são encontradas em sites de fanatismo religioso e em teorias conspiratórias sem qualquer indício aceitável.
Essas são apenas algumas das várias críticas sobre a sublime instituição, muitas delas heranças de campanhas difamatórias que a Ordem sofreu em outras épocas. A única culpa que a Maçonaria carrega é a de se basear no sigilo, enquanto é da natureza do ser humano recear o desconhecido, e divagar sobre ele.
MAÇONARIA & ISLAMISMO

MAÇONARIA & ISLAMISMO

Introdução

A relação entre Islamismo e Maçonaria sempre foi tema obscuro, delicado, polêmico, e por isso evitado por muitos autores. Quando das raras vezes abordado, os autores se restringem em citar Lojas e Obediências que existiram e existem nos países árabes e, de modo geral, param por aí. Uma postura um tanto quanto incoerente se observarmos os objetivos maçônicos da livre pesquisa da verdade, da busca pela justiça e do combate à ignorância, a intolerância e o fanatismo.
O objetivo aqui é tentar apresentar algo diferente do que “mais do mesmo”, fornecendo informação válida e de forma neutra sobre o assunto e abordando as questões que realmente importam.
Após o triste dia de 11/09/01, muito se tem falado sobre o Islamismo, o qual teve sua imagem de certa forma manchada no mundo ocidental com o marcante incidente. Apesar dos esforços das autoridades, uma onda de intolerância e preconceito, reforçada pela ignorância, tem caído sobre o Islã e seus adeptos no Ocidente desde então.
Por isso, faz-se necessário esclarecer alguns pontos:
O Islamismo não é uma religião radical. É apenas uma religião como as demais que, por ter mais de 1,5 bilhão de adeptos, possui algumas vertentes baseadas em diferentes interpretações de diferentes passagens de seu livro sagrado, sendo que apenas uma minoria dessas é radical. O mesmo ocorre no Cristianismo, que também possui suas vertentes minoritárias radicais, fanáticas, baseadas em diferentes interpretações de suas sagradas escrituras. Não é toda mulher muçulmana que usa burca ou véu, assim como não é toda mulher cristã que tem cabelo até o joelho e saia até o calcanhar.
Por isso, não se pode julgar 1,5 bilhão de pessoas presentes em dezenas de países com base em grupos terroristas que agem por si próprios e sem a concordância de qualquer país ou mesmo de autoridades religiosas. E no que se refere a autoridade religiosa, o Islamismo não possui uma hierarquia com autoridade constituída, não existindo algo um “Papa” ou algo do gênero. Por esse motivo, dizer que existe uma postura oficial do Islamismo sobre determinado assunto seria, no mínimo, imprudente.
Compreendido tais questões, vejamos o Islamismo perante a Maçonaria:

Como já esclarecido, não existe uma autoridade que fale em nome da religião muçulmana. Assim sendo, é impossível que o Islamismo seja oficialmente a favor ou contra a Maçonaria. Diferente disso, outras Igrejas já se declararam oficialmente contrárias à Maçonaria, como a Igreja Católica e algumas outras Igrejas Cristãs de menor porte. Mesmo assim, isso não impediu que muitos dos fiéis dessas, sendo homens livres e de bons costumes, ingressassem na Ordem Maçônica nos últimos séculos.

Alguns maçons podem pensar que a Maçonaria talvez seja incompatível com a fé islâmica por conta de sua simbologia. Afinal de contas, muito da Maçonaria está relacionado ao Templo de Salomão, e em muitos graus de muitos ritos vê-se símbolos como letras em hebraico, cruzes, etc. Deve-se ter em mente que existem dezenas e dezenas de ritos maçônicos, sendo que alguns têm maior influência de uma ou outra religião, cultura ou época. Assim, temos ritos maçônicos com influências católicas, protestantes, judaicas, iluministas, egípcias, muçulmanas, cavaleirescas, nacionalistas, etc.

Ainda nesse sentido, observa-se que a Maçonaria é Ordem voltada a homens livres, e essa liberdade também se refere às amarras da intolerância. Um exemplo claro é que muitos dos ritos maçônicos fazem referência a “São João”, ou aos “Santos de nome João”, enquanto que grande parte de seus adeptos são protestantes. Isso ocorre porque o maçom é homem racional, e compreende que a citação de “São João” não é questão dogmática, e sim referência histórica aos Solstícios.
 Já Salomão e a construção de seu templo, tão presentes na Maçonaria, ao contrário do que muitos possam presumir, não se encontram apenas na cultura e religião judaica. Esse importante personagem e evento também estão descritos no Alcorão. Para os maometanos, Salomão era um rei dotado por Deus de toda a prudência e sabedoria, um grande profeta como todos os descendentes de Davi estariam predestinados a ser. E sua importância era tamanha que Deus ordenou que os homens e “gênios” obedecessem a suas ordens e trabalhassem na construção de seu templo e palácio.
Gênios? Que gênios?
Esse é um ponto tão interessante que mereceu esse destaque. Os gênios estão presentes na cultura árabe desde tempos imemoriais. Seriam seres criados por Deus, invisíveis, mas que possuem a habilidade de se materializarem entre os homens e realizarem feitos notáveis. Não são anjos, pois possuem o livre-arbítrio e podem ser castigados ou mesmo aprisionados. Dessas crenças surgiu o famoso “gênio da lâmpada”, tão explorado em contos infantis. Esses gênios teriam, sob as ordens de Salomão, auxiliado os homens na construção de seu templo.
As duas faces da moeda

A questão religiosa está presente na Maçonaria desde seu início e, apesar de não ser discutida nas Lojas, está mais em voga do que nunca. Prova disso é que, nos últimos anos, os Nobres Shriners, instituição maçônica fundada no século XIX com temática e simbologia árabe, vem discutindo sobre a redução dessa influência árabe na instituição. Em contrapartida, as históricas críticas à Ordem dos Cavaleiros Templários, último degrau do Rito de York e restrito aos maçons que professam a fé cristã, continuam mais presentes do que nunca. Qual seria o caminho ideal: a busca pela universalidade ou a promoção das diferenças?

Conclusão
A Maçonaria está para o muçulmano assim como está para o cristão: dependente da ausência de intolerância e fanatismo por parte do fiel, e da ausência de ignorância por parte dos demais integrantes.
A durabilidade e sucesso da Maçonaria sempre se deveu ao fato de sua união ser baseada nos pontos comuns e sua riqueza nos pontos diferentes. Enquanto os diversos Ritos, Ordens internas e Corpos aliados proporcionam ao maçom participar daquilo com que se identifica, cujos valores compartilha, todos os membros dessas instituições se sentem integrantes de uma única família, e constroem a fraternidade sobre os landmarks que tornam a todos iguais: a crença num Ser Supremo e na imortalidade da alma.

O Dr. SM Ghazanfar, professor emérito da Universidade de Idaho, escreveu em um de seus artigos que “alienantes por aqueles que são diferentes, nós acabamos nos afastando e diminuindo nossa própria humanidade”. Que a Maçonaria, essa Sublime Ordem cuja finalidade é a felicidade da humanidade, saiba renovar seu compromisso de unir os diferentes pelo que eles têm em comum.

APRENDENDO COM OS IRMÃOS DO NORTE

APRENDENDO COM OS IRMÃOS DO NORTE

Já dizia o jargão: “o povo que não conhece sua história está fadado a repeti-la”.  Há outro que ainda diz que “enquanto o inteligente aprende com seus próprios erros, o sábio aprende com os dos outros”. Talvez a Maçonaria Brasileira possa aprender algo com tais lições populares ao conhecer um pouco da história dos irmãos do norte, os norte-americanos.
A Maçonaria Americana soube explorar o crescimento econômico para promover seu próprio crescimento. Os números indicam que, enquanto no ano de 1850 estima-se que haviam algo em torno de 70 mil maçons nos EUA, esse número chegou a mais de 800 mil em 1900 e incríveis mais de 3 milhões em 1929, antes da “Grande Depressão”. Daí em diante, experimentando “picos e vales” por conta das Guerras, a Maçonaria Americana alcançou seu auge em 1959, com mais de 4 milhões de membros, o que representava quase 10% da população masculina adulta do país. Até que… chegaram os anos 60.
No início dos anos 60, o perfil dos maçons americanos era: homens brancos, adultos, patriotas, conservadores, protestantes. E naquela década, os EUA começaram a experimentar uma verdadeira revolução cultural. Foi a época do surgimento do movimento hippie, baseado em “paz e amor”, e do “sexo, drogas e rock’n’roll”. Enquanto os maçons estavam com seus cabelos bem cortados e penteados, vestidos de terno e entoando um discurso patriótico, os seus filhos estavam criticando as guerras e suas razões, questionando as leis e promovendo novos estilos de vestimenta e vida.
O reflexo desse atrito cultural da década de 60 foi claro nas décadas seguintes: aqueles maçons do início da década de 60 foram falecendo, enquanto que os jovens daquela década, agora adultos, não se interessavam em ingressar na Maçonaria, crendo ser uma instituição “retrógrada”. Mesmo em famílias de grande tradição maçônica, em que os membros eram maçons há gerações, os jovens se mostraram resistentes. Os números foram caindo ano a ano e em 2007, a quantidade de maçons nos EUA chegou a um pouco mais de 1,4 milhão.
Como tentativa de reduzir esse déficit constante, algumas Grandes Lojas começaram a “facilitar as coisas”, promovendo o que podemos chamar de “curso intensivo” de Maçonaria: os candidatos podiam ir de Aprendiz a Mestre em apenas um dia. Além disso, partiram para o “ganho de escala”, promovendo iniciações de centenas e até milhares de candidatos em uma única vez.
Uma estratégia muito comum atualmente é o alto investimento em propaganda, incluindo vídeos em que atores representando George Washington e Benjamin Franklin falam com paixão sobre a Ordem. Esses vídeos têm se multiplicado pela Internet e vêm apresentando bons resultados, com a inclusão de milhares de novos membros às Lojas. Porém, nada perto de antes dos anos 60.
A queda no número de membros continua nos EUA, principalmente nos Altos Graus dos Ritos. Por conta disso, os Shriners, principal braço filantrópico da Maçonaria Americana, precisou mudar suas regras: antes, um maçom precisava ser Grau 32 do Rito Escocês ou Cavaleiro Templário do Rito de York para solicitar ingresso. Desde 2000 esse requisito caiu, e agora basta ser Mestre Maçom para ingressar. Quando os Shriners tomaram essa decisão, como uma forma de sobreviver à queda constante, isso gerou um grande problema aos Altos Corpos dos Ritos, que não tinham mais o “incentivo” da obrigatoriedade exigida pelos Shriners.
É interessante que os Irmãos do Hemisfério Norte não estão preocupados em atacar a causa, ou seja, a imagem “careta” da Maçonaria perante a sociedade norte-americana e sua cultura organizacional extremamente formal para os padrões sociais atuais. Eles estão focados em reduzir os efeitos.
Ao que tudo indica, a Maçonaria Brasileira está vivendo os “anos 60” dos EUA: seus membros estão envelhecendo e os jovens não estão interessados em suas fórmulas, pois enxergam na Maçonaria uma instituição conservadora, para “velhos”. Saberemos aprender com os erros dos outros? Atacaremos a causa ou também os efeitos? Disso dependerá o futuro de nossa Maçonaria. Uma coisa é certa: não temos milhões de membros para perder até começarmos a acertar.
POR QUE “GRÃO-MESTRE” E “VENERÁVEL MESTRE”?

POR QUE “GRÃO-MESTRE” E “VENERÁVEL MESTRE”?

Para entendermos melhor esses termos, precisamos voltar um pouco na história de nossa Sublime Ordem Maçônica:

Ordens geralmente adotam o termo “Grão-Mestre”, sejam elas religiosas ou de cavalaria. E a partir da Sublime Ordem Maçônica, muitas Ordens fraternais também o fizeram. No caso da Maçonaria, há uma explicação histórica bastante óbvia e racional. Nos primórdios da Maçonaria Especulativa não existia oficialmente o grau de “Mestre Maçom”. Antes disso, as Lojas possuíam apenas Aprendizes e Companheiros, e os Companheiros elegiam entre si aquele que serviria como “Mestre da Loja”. Então, se cada “Loja” era governada pelo seu “Mestre”, nada mais natural do que chamar aquele que governa a “Grande Loja” de “Grande Mestre”. O termo “grão” é apenas uma forma antiga e reduzida da palavra “grande” na língua portuguesa, mais utilizada em títulos.
Com o surgimento oficial do Grau de Mestre Maçom, na década de 30 do século XVIII, as Lojas ficaram repletas de “Mestres”. Então, para distinguir o Mestre da Loja dos demais Mestres, adotou-se um termo distintivo, um termo de tratamento: Venerável (Worshipful). Termos de tratamento eram muito comuns na Inglaterra na época, e até hoje, distinguindo assim o nível de nobreza: Majestade, Alteza, Graça, Mui Honorável e Honorável são exemplos de termos que distinguem monarcas, príncipes, duques, marqueses, viscondes e barões.
Não foi difícil para que, em poucos anos, o termo de tratamento “Venerável” passasse a integrar permanentemente o título do cargo, “Venerável Mestre”, na maioria dos ritos e rituais que foram surgindo.
MWGM – UGLE

E é claro que, se o Mestre da Loja ganhou um título distintivo, não poderia ser diferente para o Grão-Mestre. Enquanto o “Mestre da Loja” passou a ser chamado de “Venerável Mestre” (Worshipful Master), o “Grão-Mestre da Grande Loja”, passou a ser tratado como “Mui Venerável Grão-Mestre” (Most Worshipful Grand Master). E esse ainda permanece como o termo de tratamento adotado pela Grande Loja Unida da Inglaterra para o Grão-Mestre, conforme seu Livro de Constituições (Book of Constitutions – Craft Rules).

Tais termos também alcançaram as instituições e, assim como a Loja passou a ser tratada como “Venerável Loja” ou “Respeitável Loja” (Worshipful Lodge), a Grande Loja também passou a ser tratada como “Mui Venerável Grande Loja” ou “Mui Respeitável Grande Loja” (Most Worshipful Grand Lodge). Veja que “Venerável” e “Respeitável” são apenas diferentes traduções para a palavra inglesa “Worshipful”, apesar que o termo “Venerável” seria a tradução mais correta.
O respeito a tais termos de tratamento pode ser bem observado na Maçonaria dos EUA e de vários outros países. Já os vários outros termos que foram surgindo para se referir às autoridades maçônicas, em especial as brasileiras, são frutos da indiscutível soberania de cada Obediência. Inovações, invenções, más traduções ou aberrações que, com o tempo, se tornaram tradições.