Publicado em

EPIDEMIA DE “AVENTALITE”

Não costumo publicar textos aqui no blog que não são de minha autoria, até por uma questão de accountability. No entanto, cabe aqui uma exceção, já que esse texto, de autoria do Irmão Rui Bandeira, Grande Oficial da Grande Loja Legal de Portugal, exprime muito bem um mal também já diagnosticado por muitos irmãos no Brasil: a aventalite. Somente tive o cuidado de adaptar o texto para o “português brasileiro”, de forma a facilitar a leitura e compreensão dos leitores. E, desde já, agradeço ao estimado irmão Rui Bandeira por sua permissão.


A aventalite é uma doença que assola alguns maçons, geralmente de forma aguda, passageira e facilmente curável, mas podendo evoluir para uma forma crônica, essa necessariamente mais séria e com um tratamento mais demorado e cura mais difícil.

Manifesta-se por uma despropositada inflação do ego, injustificada sensação de superioridade, perturbador sentimento de poder e, nos casos mais persistentes, inadequado comportamento em relação aos seus iguais, vistos pelo doente como inferiores ou subordinados, por não usarem aventais de Grande Alguma Coisa.

A aventalite é suscetível de atacar Grandes Oficiais e Dignitários, independentemente da Obediência, seja Grande Loja ou Grande Oriente, seja de orientação mais anglo-saxônica ou mais latina.

O tratamento da sua forma aguda é fácil e geralmente eficaz, se aplicado na fase inicial da doença. Consiste numa severa e sonora puxada de orelha, com solene declaração de que se não tem paciência para aturar exageros de vaidosos, acompanhada de expressa chamada de atenção para a Igualdade que obrigatoriamente reina entre os maçons e uma injeção de recordação de que o exercício de ofícios em Grande Loja ou Grande Oriente são meros serviços, tarefas, trabalhos a serem desempenhados com zelo e humildade, e não honrarias ou reconhecimentos de inexistentes superioridades.

Nos casos mais graves, pode ser necessário um reforço de tratamento com recurso a expressões vernáculas, envios para determinados lugares não propriamente prestigiados, e solenes avisos de que, ou o doente atina e baixa a crista, ou é melhor continuar a enganar-se correndo atrás do seu próprio rabo, porque junto dos seus iguais (mesmo ele não reconhecendo como iguais) não vai ter muita sorte.

Nas formas mais leves da doença, e sobretudo quando o doente é de boa índole, o tratamento mais suave chega para erradicar os sintomas, sem sequelas. Podem, no entanto, ocasionalmente observar-se recaídas, em regra facilmente tratáveis com uma observação chocante, mas bem-humorada, como, por exemplo, “Você aí de novo deixando o avental subir-lhe à cabeça. Deixa-o na pasta e não se exceda, porque você é melhor que isso…”.

Nas formas mais severas, a doença prolongada ou nos casos de doentes com obtusidade cerebral, é indispensável o tratamento intensivo, repetido as vezes que forem necessárias até o doente melhorar. No entanto, quer a índole mais difícil do doente, quer a maior agressividade do tratamento, podem dar origem a efeitos colaterais ou sequelas desagradáveis, designadamente mal humor e afastamento temporário. Nas situações verdadeiramente graves e reincidentes pode mesmo ser necessário aplicar quarentena.

A aventalite é uma doença oportunista que se manifesta com mais frequência em ambientes poluídos por regras, sejam elas expressas, implícitas ou consuetudinárias, que favoreçam, ou mesmo imponham, o uso com demasiada frequência e em locais inapropriados de aventais de grande alguma coisa. O oportunismo da aventalite aproveita qualquer desatenção que permita ou propicie o uso desadequado e fora do seu ambiente próprio dos ditos aventais de grande alguma coisa.

Para além do tratamento dos casos concretos dos enfermos pela doença, é importante que se faça adequada prevenção, para evitar novas infecções, recidivas e recaídas.

Recomenda-se, assim, revisão das normas regulamentares e das práticas que não limitem o uso dos aventais de grande alguma coisa aos locais e ocasiões adequados. Designadamente, é de toda a conveniência que se tenha presente que, na Loja que se é membro, o obreiro é um elemento do quadro desta, absolutamente igual aos demais, nem mais, nem menos que qualquer dos outros e, que, consequentemente, fique inquestionavelmente assente que nenhum obreiro, na sua própria Loja, usa avental de grande alguma coisa, antes devendo usar o avental do seu grau e, se for o caso, o colar do seu posto na Loja, sendo absolutamente indiferente posição ou ofício que porventura tenha na Grande Loja ou Grande Oriente. Esta regra deve ter como única exceção – certamente ocasional – a situação em que o obreiro se apresente na Loja, não na sua qualidade de obreiro da mesma, mas no efetivo exercício da sua função de Grande Oficial ou em representação oficial do Grão-Mestre.

Este princípio deve ser extensivo à visita a outras Lojas. Se o obreiro faz visita a título pessoal, não faz sentido, e propicia a grave doença da aventalite, que use avental de grande alguma coisa. Se a visita, porém, se fizer no exercício das suas funções de Grande Oficial ou em representação do Grão-Mestre, então, e só então, justifica-se que use o seu avental de grande alguma coisa.

Claro que, em Assembleias de Grande Loja ou Grande Oriente, aí sim, se está em espaço e momento em que é justificado e adequado o uso de aventais de grande alguma coisa. Aí e nessas ocasiões, não há qualquer inconveniente. Trata-se de um uso moderado e adequado de avental de grande alguma coisa, que, por regra, não propicia nem aumenta o risco de contágio pela irritante aventalite.

A bem da saúde dos irmãos maçons, exorto que esta atividade de prevenção seja feita. É saudável e, sobretudo, é… maçônica!

Rui Bandeira

6 comentários sobre “EPIDEMIA DE “AVENTALITE”

  1. Como disse Joaquim da Silva Pires em um dos seus escritos, tudo culpa das bordadeiras…se não se esmerassem tanto em fazer lindos bordados…rsrs

  2. Há casos em que a aventalite evolui para uma pavonite de difícil tratamento.

  3. Belíssima peça, meu amado irmão! Ela reflete o culto à ambição, vaidade que não reflete o íntimo. Temos aí um verdadeiro silogismo, um raciocínio dedutivo estruturado formalmente a partir de duas premissas, das quais se obtém por inferência uma terceira, uma conclusão: todos os maçons são iguais; os maçons são homens; logo, os homens são iguais…

  4. Eu,na qualidade de Maçom, inclusive,após ter sido escolhido pelos meus irmãos. Assumir à presidência da Loja Maçonica Templários do Mucuri,nr.42,localizada no Oriente de Teófilo Otoni/ MG. Acho que nós maçons temos coisas muito mais importantes para nos preocupar. É por essas e outras que os trabalhos filantrópicos estão ficando em segundo plano. Respeito à opinião de todos, mesmo porque, o direito de expressão é livre,mas,particularmente falando,prefiro não opinar.
    T.’.F.’.A.’.

    Kennyo Ismail – Meu Irmão Juldex, aqui no blog há centenas de artigos, sobre os mais diversos assuntos maçônicos. Cada um julga para si (e não para os outros) o que é mais ou menos importante. Se prefere não opinar, basta que não opine! Desejamos que os trabalhos transcorram J.´. e P.´. em seu Veneralato. TFA.

  5. Grande Kennyo Ismail,
    Agradeço a adaptação e divulgação desse excelente texto. Tenho como costume usar a expressão “Grande”, quando envio mensagens eletrônicas informais. Como forma de demonstrar a importância para mim, dos amigos. Acredito q parte da Aventalite, ainda q inconscientemente, se deve ao uso da expressão GRANDE na denominação das organizações federativas. Também, talvez esteja até aî, uma possível explicação para a expressão popular, “Grande M…”, para se referir de forma crítica e irônica, a algo que estão dando importância acima do que merece.

  6. Seria uma forma nova (?) daquele ditado: O hábito faz o monge. No mundo profano a grife identifica o grau (econômico, de vaidade e de cabeça vazia) do indivíduo. Fulana veste Chanel, tem uma bolsa GUCCI. É o Ter sobrepondo-se ao SER. O valor do indivíduo está na roupa que veste, no relógio que ostenta. Gandhi, vejam só, foi barrado no Vaticano quando tentou visitar o Papa (Pio XII) em virtude da indumentária que vestia, depois de ter sido recebido na corte Britânica e no Parlamento. S. Francisco de Assis, em princípio, teve dificuldades em entrar na Basilica de São João Latrão (que era, então, a sede do Papado), pois se cobria com um tecido dos mais rústicos, parecendo mais um mendigo, e, nada obstante, era maior do que todos que ali se encontravam cobertos de sedas, tafetás, veludos, jóias, etc. Oportuna a publicação do texto para nos lembrar que o Irmão vale pelo interior, pelo tanto que já se afastou do Homem Velho a que se referia Paulo. Humildade e disposição para servir, esta a moeda que devemos usar na avaliação dos Irmãos, aplicando-a, antes, em nós mesmos. TFA. Paulo Maurício.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *