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A Constituição de Anderson nos dias atuais

andersonOutro dia estava na instalação e posse de um Venerável Mestre em Oriente de outro Estado que não o que resido. Fui surpreendido com algumas passagens da cerimônia, em especial no compromisso assumido. Uma das perguntas feitas ao empossando solicitava o compromisso de seguir estritamente a Constituição de Anderson e a Constituição daquela Obediência. Tamanho é o fascínio dos maçons brasileiros pela Grande Loja Unida da Inglaterra que, até mesmo uma Obediência que não tem atualmente o reconhecimento da mesma, estava solicitando a um Venerável Mestre que seguisse uma Constituição que supostamente é de outra Obediência.

Pode um irmão seguir duas constituições distintas? De duas Obediências distintas? Cada Obediência não é soberana? Será que não há nada em uma constituição que é incompatível com a outra? Quem escreveu essa cerimônia já leu alguma vez a Constituição de Anderson? Sabe o que ela diz? E o mais importante: sabe que a Constituição de Anderson não é mais utilizada pela Grande Loja Unida da Inglaterra há mais de 250 anos? Que não tem valor prático, apenas histórico?

Uma simples leitura da Constituição de Anderson deixa qualquer maçom sério envergonhado. Seu primeiro capítulo é dedicado a apresentar uma genealogia maçônica, indicando Adão como o primeiro maçom, com vários pontos fantasiosos, passando por Augusto César, tido como um Grão-Mestre, até chegar aos reis ingleses. Então diz que a Rainha Elizabeth desestimulou a Maçonaria por ser mulher e, portanto, não podia ser maçom. Mas então o Rei James VI, sendo maçom, reanimou a Maçonaria. E então a Maçonaria tem sido governada pelos reis e príncipes ingleses desde então. E essa história é então repetida de forma resumida na “Música do Mestre”.[1] Fica evidente que não foi à toa que Desaguliers escolheu James Anderson para escrevê-la: Anderson era conhecido por fazer bicos, criando genealogias míticas, para não dizer falsas, para famílias inglesas que desejavam um upgrade em seus históricos. Sua constituição maçônica é considerada “uma mistura de compilação e fantasia, invenção e manipulação, clareza e ambiguidade e de fato de erro”.[2]

Ainda, há alguns pontos da Constituição de Anderson que, dentre outros, podemos apontar como conflitantes com os regulamentos maçônicos brasileiros atuais, de modo geral:

  • A exigência de que o candidato “descenda de pais honestos”;
  • O Grão-Mestre escolhe e nomeia seu Grão-Mestre Adjunto;
  • Nenhuma Loja jamais iniciará “qualquer homem abaixo de vinte e cinco anos de idade”;
  • Nenhum homem pode ser iniciado “sem o consentimento unânime de todos os membros” da Loja.

Nesse sentido, como pode um maçom seguir a Constituição de Anderson e seguir a Constituição de sua Obediência sem desrespeitar uma ou outra? Acaba que, por elementos contraditórios, o compromisso assumido torna-se vazio, sem valor. Fruto duma desinformada veneração à GLUI, até mesmo por aqueles que não têm sido reconhecidos por ela.



[1] ANDERSON, James. As Constituições dos Franco-Maçons. Brasília: Editora do Grande Oriente do Brasil, 1997.

[2] STEVENSON, David. James Anderson: Man and Mason. Heredom. Volume 10, 2002, p. 93-138.

9 comentários sobre “A Constituição de Anderson nos dias atuais

  1. Parabéns meu Ir.´.
    Que bela apresentação do irmão. Lendo isso, vê-se que temos muitos maçons que não tem grandes conhecimentos da instituição a que pertencem.
    T.´.F.´.A.´.

  2. Irmao, qualquer dia que puder nos brinde com esclarecimentos sobre a conciliação dos processos de reconhecimento como landmark, e, sua importância entre Obediências para distinguir entre Potências Regulares e Irregulares.

  3. É mais engraçado ainda as Obediências de internet que, para se auto-declararem regulares, dizem que seguem “fielmente” as constituições de Anderson… rsrs

  4. Caríssimo Irmão Kennyo,

    Sinceramente, precisamos de pessoas lúcidas, como você, para liderar a maçonaria no Brasil!

    Obrigado mais uma vez!

  5. Boa tarde meus IIr.’.
    Não encontrei area restrita para cadastro. não temos?

    Kennyo Ismail – há uma área de cadastro de e-mail para receber nosso informativo.

  6. Caro Irmão Kennyo
    Muito lúcido e oportuno seu comentário sobre a Constituição de Anderson. Estou tomando a liberdade e apresentá-lo em Loja não só para conhecimento dos Aprendizes e Companheiros, mas principalmente para conhecimento
    daqueles Mestres que insistem em ter a GLUI e suas deliberações como referência para a maçonaria no mundo,considerando o resto dos Irmãos como escória. Obrigado pela ajuda.

  7. isso se deve à famosa (ou famigerada) tradição; aliás não somos uma ordem evolucionista e progressista ???
    outrossim, solicito um estudo de vossa parte sobre a tal de “instalação” de VM nos moldes dos Trabalhos de Emolução, incompatível com o Rito EAA (bem como os demais ritos), introduzidos nas GG:.LL:. por Mario Behring e no GOB por Moacir Dinamarco e, atualmente, adotado por todas as potências, criando uma nova casta: a dos M:.I:.
    paulo a. valduga MM – Ex-VM (MI) cadastro GORGS 10203
    ARMELS Luz Invisível – SBorja

  8. Excelentes textos e postagens para enriquecer o conhecimento maçônico…

  9. Bom dia nobre estudioso Kennyo, espero que esteja tudo bem contigo e obrigado por dividir mais este texto.
    Como profano acredito que minha dúvida provavelmente seja idiota, no entanto gostaria de saber como pode a Constituição de Anderson ser conflitante com os regulamentos maçônicos brasileiros atuais se para que uma potência esteja apta a ingressar na COMAB tem de observar os preceitos da Constituição de Anderson? (Perdi meus contatos do telefone, se ainda tiver o meu me mande uma mensagem)

    Kennyo Ismail – Grande mano Franssuarlei, é por essa razão que alerto para o fato neste post. Creio que a pergunta mais adequada seria: “Como pode uma potência brasileira se declarar observante da Constituição de Anderson se seus regulamentos são conflitantes com a mesma?”, e ainda, “Por que razão alguém pensa que deve observar a Constituição de Anderson?”

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